Uma amizade nascida nos primeiros anos do
Southern Rock Site Brazil mostrou que, por trás de um disco, pode existir uma
história humana capaz de atravessar décadas, países e até o silêncio do tempo.
Por Renato Martins São Pedro
No ano 2000, quando o Southern Rock Site Brazil
abriu suas portas pela primeira vez, a internet ainda tinha alma. Os sites
tinham guestbook, as pessoas deixavam mensagens, assinavam com nome e e-mail e,
muitas vezes, amizades nasciam dali. E foi assim que eu conheci um
amigo que nunca mais saiu da minha memória. Ele assinava como Corky.
Foi através de pesquisas sobre o Molly Hatchet que ele chegou ao site. Naquela
época, a banda já vivia sua nova fase, sem nenhum membro original, e muita
gente torcia o nariz pra isso. Mas o Corky amava aquela formação, e eu também
ouvia muito aquele Molly Hatchet dos anos 2000, principalmente o Kingdom of
XII, que eu tinha conseguido comprar original na Galeria do Rock e praticamente
não saía do meu aparelho de som. Começamos a conversar daquele jeito antigo,
lento e humano que a internet tinha naquela época. Um e-mail… horas depois
vinha a resposta… às vezes só no dia seguinte. E quase todas as nossas
conversas giravam em torno do Molly Hatchet. Até que um dia ele me perguntou:
“Você já ouviu Heart of the USA?” Claro que sim.
E eu respondi exatamente o que aquela música significava pra mim: uma canção
pesada, emocionante, sobre um jovem que voltou da Guerra do Vietnã não apenas
ferido no corpo, mas destruído emocionalmente.
Então veio a resposta que eu jamais esqueci “Ouça novamente. Você vai descobrir
de quem eles estão falando.” Aquilo me pegou na hora. Até que ele perguntou se
eu já tinha lido os agradecimentos no encarte do álbum. Fui procurar. E lá
estava o nome dele: Corky. Exatamente como ele assinava os e-mails. A música era
sobre ele. Até hoje eu me arrepio lembrando disso. Aquele homem carregava
marcas profundas da guerra. Problemas graves de saúde e ferimentos severos. O
Vietnã tinha deixado cicatrizes que iam muito além do corpo. Mas, mesmo assim,
ele falava sobre música com uma paixão absurda, e isso sempre mexeu
profundamente comigo. Nós seguimos conversando por alguns anos… até que um dia
os e-mails pararam de chegar.
Eu escrevia. Esperava… e nada. Isso foi entre 2003 e 2004.
Hoje estamos em 2026 e eu ainda penso nele, sinto falta dele. E ainda faço uma
oração silenciosa para que, onde quer que esteja, esteja em paz. Quem sabe um
dia o Corky descubra que o Southern Rock Site Brazil continua vivo, porque o
Southern Rock sempre foi exatamente isso, muito mais do que bandas, muito mais
do que discos e muito mais do que guitarras. O Southern Rock é amizade, lealdade, família, fé, religião, e é estender a mão para alguém que você nunca viu pessoalmente e, ainda assim, sentir que conhece aquela alma há uma vida inteira.
É um veterano do Vietnã encontrando conforto em uma música. Um garoto
brasileiro, do outro lado do mundo, entendendo a dor daquele homem através da
música e perceber que certas melodias carregam cicatrizes, memórias e pedaços
inteiros da vida de alguém. Por isso que o Southern
Rock nunca morrerá, porque enquanto existirem histórias como essa, ele
continuará vivo dentro das pessoas.










