Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo
do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou
atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse
contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Existe uma tradição muito particular no Rock da
Irlanda do Norte. Uma tradição que passa por Thin Lizzy, pela cultura dos pubs, pelas guitarras pesadas, pelos
grandes refrões e por uma maneira muito própria de transformar histórias de
estrada, cerveja, amizade e liberdade em música. Foi dentro desse ambiente que
surgiu Trucker Diablo, banda
formada em 2008 na Irlanda do Norte e que encontrou uma combinação explosiva
entre Hard Rock, Southern Rock, Classic Rock e aquele espírito descompromissado
do Rock and Roll que parece ter sido feito para ser ouvido com o volume alto e
o pé no acelerador.
A história começou com Tom Harte, nos vocais e guitarra, e Simon Haddock, também na guitarra e vocais, acompanhados pelo
baterista Terry Crawford e pelo
baixista Glenn Harrison. Desde o
começo, a proposta era simples e eficiente: riffs grandes, refrões que pudessem
ser cantados por uma multidão e uma sonoridade que buscava tanto a tradição do
Rock britânico quanto o peso das grandes bandas americanas. Entre as influências
assumidas pelo grupo estavam AC/DC,
Thin Lizzy, Metallica, Anthrax, Annihilator, Lynyrd Skynyrd
e Creedence Clearwater Revival, uma combinação que ajuda
a explicar por que a música da banda nunca coube perfeitamente dentro de uma
única categoria.
Trucker Diablo começou a construir sua reputação
principalmente através dos shows. A banda tocou intensamente pelo Reino Unido e
pela Irlanda e rapidamente chamou a atenção de promotores e músicos. A
oportunidade de tocar no Download
Festival colocou o grupo diante de um público muito maior, enquanto a
participação em turnês ao lado de nomes como Black Stone Cherry ajudou a aproximá-lo ainda mais do público que
já estava familiarizado com o Hard Rock e o Southern Rock contemporâneos. A
banda também chegou a tocar no Tennent's Vital ao lado do Foo Fighters, mostrando que aquele
caminhão estava começando a percorrer estradas cada vez maiores.
O primeiro álbum, The Devil Rhythm,
apareceu em 2010 e estabeleceu as bases do que viria a seguir. Trucker Diablo
não estava interessada em reinventar o Rock. A força estava justamente na
capacidade de pegar elementos conhecidos e transformá-los em algo extremamente
energético. As guitarras carregavam peso, a bateria empurrava as músicas para
frente e os vocais de Tom Harte tinham aquela característica rouca e agressiva
que se encaixava perfeitamente nos refrões.
O álbum seguinte, Songs of Iron,
consolidou a reputação da banda. Lançado em 2013, o trabalho trouxe músicas
como Red Light On, Drive e Not So Superstar, mostrando um
grupo muito mais seguro de sua identidade. O disco recebeu excelente resposta
da imprensa especializada e ajudou Trucker Diablo a ampliar sua base de fãs. A
banda assinou com a Ripple Music nos Estados Unidos e com a Bad Reputation na
Europa, enquanto Drink Beer, Destroy ganhou exposição na Kerrang! TV, no
MTV Australia e no videogame Rock Band 3.
Aquele momento parecia indicar que o caminho
estava aberto para um crescimento ainda maior. Mas em 2014 os motores foram
desligados. Simon Haddock anunciou sua saída para dedicar mais tempo à família
e, pouco depois, Trucker Diablo comunicou que entraria em um hiato por tempo
indeterminado. O que deveria ser uma despedida acabou se transformando apenas
em uma parada nos boxes.
A reação dos fãs foi importante, mas a vontade de
continuar tocando também falou mais alto. Meses depois, as redes sociais da
banda voltaram a movimentar-se. Em outubro de 2014 surgiu o single Party
Like They Started the End of the World, acompanhado pelo anúncio de uma
campanha de financiamento coletivo para um novo álbum. O objetivo foi alcançado
rapidamente e o grande caminhão voltou à estrada. Simon Haddock retornou à
formação e Jim McGurk assumiu o
baixo no lugar de Glenn Harrison.
O resultado foi Rise Above the Noise,
lançado em 2015. Produzido por Frankie
McClay, o álbum representou uma evolução importante. Trucker Diablo
continuava sendo uma banda de Hard Rock direto, mas havia mais espaço para
melodias, baladas e diferentes texturas. O disco começava com Fight Life,
uma música de forte personalidade, e seguia com Party Like They Started the
End of the World, Somebody Save Me e We Stand Strong,
mantendo o espírito de arena que sempre acompanhou a banda.
Mas é em Take Me to the River que aparece
uma conexão particularmente interessante com o Southern Rock. A música
apresenta uma atmosfera mais pesada e sulista, com uma guitarra que se aproxima
do universo de bandas como Black Stone
Cherry. A imprensa especializada percebeu justamente essa
característica, destacando a influência Southern Rock da faixa.
Rise Above the Noise também trouxe Where
Angels Fly, uma balada que contou com a participação de Keith Weir, dos The Quireboys, ao piano. A presença de
Weir acrescentou uma dimensão diferente ao álbum e reforçou uma característica
que começava a aparecer com mais força no trabalho da banda: a capacidade de
alternar peso e melodia sem perder identidade.
A guitarra continuava sendo o centro da música,
mas a banda já não dependia apenas de riffs agressivos. Girl in a Photograph
trouxe uma abordagem mais melódica, enquanto Murder Ballad explorou um
lado mais sombrio. Sun Deprives the Day novamente aproximou o grupo do
território de Black Stone Cherry,
mostrando como o Southern Rock contemporâneo já fazia parte natural do
vocabulário musical de Trucker Diablo.
O mais interessante é que Trucker Diablo nunca
precisou ser uma banda americana para compreender essa linguagem. A ligação com
o Southern Rock aparece filtrada pela própria tradição musical irlandesa. O
peso de Thin Lizzy, o senso
melódico, as guitarras dobradas, o espírito de pub e a paixão pelo Rock and
Roll encontram o Blues e o Southern Rock americano e formam uma mistura que tem
personalidade própria.
Essa característica ajuda a explicar por que a
banda encontrou tanta receptividade entre os fãs de Hard Rock e Southern Rock.
Trucker Diablo tem aquela qualidade que muitas bandas contemporâneas procuram e
poucas conseguem alcançar: suas músicas parecem feitas para serem tocadas ao
vivo. Existe espaço para o público cantar junto, para as guitarras crescerem e
para a bateria empurrar tudo para frente.
A história da banda também é marcada por uma
impressionante capacidade de sobrevivência. Depois do hiato de 2014, Trucker
Diablo voltou mais forte com Rise Above the Noise. Nos anos seguintes,
continuou trabalhando, lançando novos materiais e mantendo aquela
característica essencial que acompanha o grupo desde o início: a disposição de
continuar colocando o caminhão na estrada.
A discografia posterior mostra que a banda não ficou presa ao passado. Fighting for Everything, Tail End of a Hurricane e Social Hand Grenade mantiveram a identidade construída nos primeiros anos, enquanto novos singles continuam aparecendo. Em 2026, Trucker Diablo voltou a lançar material novo, mostrando que a história está longe de terminar.
Guitarras altas, bateria pesada, refrões enormes,
cerveja gelada, estradas, amizades, problemas, festas, derrotas e aquela
vontade quase infantil de simplesmente ligar os amplificadores e tocar. Existe
algo profundamente honesto nisso.
Para o Southern Rock Site Brazil, Trucker Diablo
representa uma vertente especialmente interessante do gênero: aquela que
atravessou o Atlântico, encontrou uma banda irlandesa apaixonada por CCR, Thin Lizzy, AC/DC e
pelo Rock americano e voltou transformada em uma mistura de Southern Rock, Hard
Rock e Heavy Rock.
Eles podem ter nascido longe do Mississippi, do Alabama ou da Geórgia. Mas quando as guitarras entram, o caminhão começa a andar.E esse caminhão ainda tem muita estrada pela frente.
Formação
Tom Harte - Vocais e guitarra
Simon Haddock - Guitarra e vocais
Terry Crawford - Bateria
Jim McGurk - Baixo
Discografia
selecionada
2010 The
Devil Rhythm
2013 Songs of Iron
2015 Rise Above the Noise
2021 Fighting for Everything










