Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo
do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou
atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse
contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Muito antes de ser associado ao Heavy Metal, às
imagens de fantasia de Rainbow,
à grandiosidade de Black Sabbath
ou à carreira solo que o transformaria em um dos maiores vocalistas da história
do Rock, Ronnie James Dio era um
músico de Blues Rock, Boogie e Rock and Roll. E foi dentro de Elf que essa identidade começou a
ganhar forma. A banda nasceu em Cortland, Nova York, em 1967, inicialmente sob
o nome The Electric Elves, e
atravessou diferentes nomes e formações até se tornar Elf. O grupo existiu até
1975 e gravou apenas três álbuns de estúdio, mas sua importância para a
história do Rock é muito maior do que sua curta discografia poderia sugerir.
A história começou quando Ronnie James Dio, então
ainda conhecido como Ronald James Padavona, juntou-se ao guitarrista David Feinstein, seu primo, e ao
baterista Gary Driscoll. A
formação inicial ganhou o tecladista Doug
Thaler e o guitarrista Nick
Pantas, dando origem ao Electric Elves. A banda passou a tocar em
clubes, bares, faculdades e pequenos palcos, construindo sua reputação pouco a
pouco. O repertório incluía material próprio e versões de artistas que estavam
moldando o Rock da época. Dio ainda estava muito distante da persona que
desenvolveria em Rainbow. Era simplesmente um jovem cantor e baixista
apaixonado por música.
Um acontecimento trágico quase colocou tudo a
perder. Em 1970, a banda sofreu um grave acidente automobilístico que matou
Nick Pantas e deixou Doug Thaler hospitalizado durante meses. Pantas não foi
substituído. Depois de se recuperar, Thaler permaneceu por algum tempo no
grupo, mas acabou deixando os teclados para Mickey Lee Soule, que se tornou uma peça fundamental da formação
que finalmente assumiria o nome Elf. O episódio marcou profundamente os músicos
e encerrou definitivamente a primeira fase da banda.
Com Dio nos vocais e baixo, David Feinstein na
guitarra, Gary Driscoll na bateria e Mickey Lee Soule nos teclados, Elf
encontrou uma sonoridade muito mais definida. E é aqui que vale prestar
atenção, porque a música da banda estava muito mais próxima do Blues Rock, do Boogie e do Southern Rock
do que do Heavy Metal que o nome de Dio posteriormente representaria. As
músicas tinham swing, piano, guitarras carregadas de Blues, vocais cheios de
personalidade e aquela energia de banda de bar que caracterizava boa parte do
Rock americano do final dos anos 1960 e início dos anos 1970.
A grande virada aconteceu quando dois músicos do Deep Purple, Roger Glover e Ian Paice,
assistiram a uma apresentação do grupo durante uma audição para a Columbia
Records, em 1972. Os dois ficaram impressionados e ofereceram-se para produzir
o primeiro álbum da banda. As gravações aconteceram em Atlanta e deram origem a
Elf, lançado naquele mesmo ano pelo selo Epic. O álbum foi produzido por
Glover e Paice e apresentou uma banda que ainda estava muito distante do Heavy
Metal épico que Dio faria posteriormente.
Elf é um disco que merece ser ouvido sem o peso do
futuro sobre ele. Não é um ensaio para Rainbow. É um excelente retrato de uma
banda jovem apaixonada por Blues, Boogie e Rock and Roll. Never More, I'm
Coming Back for You, Black Swampy Water e Gambler, Gambler
mostram um Dio completamente diferente daquele que o mundo conheceria alguns
anos mais tarde. Sua voz já possuía força e personalidade extraordinárias, mas
ainda havia uma enorme quantidade de espaço para improvisação e influência do
Blues.
O sucesso foi suficiente para transformar Elf em
uma das bandas de abertura do Deep
Purple. O grupo acompanhou os gigantes britânicos em turnês pelos
Estados Unidos, colocando Dio diante de públicos cada vez maiores. E a
convivência com o Deep Purple seria decisiva não apenas profissionalmente, mas
também musicalmente. Dio estava entrando em contato direto com músicos que
ajudariam a transformar sua carreira.
Depois do primeiro álbum, David Feinstein deixou
a banda e foi substituído por Steve
Edwards. Ao mesmo tempo, Dio decidiu concentrar-se cada vez mais nos
vocais e o baixista Craig Gruber
entrou para assumir o instrumento. Essa formação gravou Carolina County Ball,
lançado em 1974 e também conhecido nos Estados Unidos como L.A./59. O
título já entregava parte da atmosfera do álbum: Elf continuava mergulhada no
universo americano, misturando Blues, Boogie, Rock and Roll e uma dose
crescente de Hard Rock.
Carolina County Ball é provavelmente o
disco que melhor mostra o quanto Dio estava confortável dentro de uma linguagem
sulista. Carolina County Ball, Black Swampy Water, Ain't It
All Amusing e Happy carregam uma musicalidade muito diferente
daquela que ele apresentaria em Rising ou Heaven and Hell. O
piano de Soule é fundamental para essa identidade, enquanto as guitarras e o
baixo mantêm a banda enraizada em uma tradição americana que passa pelo Blues e
pelo Southern Rock.
Também em 1974, Roger Glover convidou Dio para
participar de seu projeto The Butterfly Ball and the Grasshopper's Feast.
A interpretação de Dio em Love Is All ganhou destaque e colocou sua voz
diante de um público ainda maior. Foi nesse período que outro personagem
fundamental entrou definitivamente na história: Ritchie Blackmore.
Blackmore estava insatisfeito com os rumos do
Deep Purple e procurava uma maneira de desenvolver ideias musicais que não
encontravam espaço dentro da banda. Quando ouviu Dio cantando e trabalhando com
Elf, percebeu imediatamente o potencial daquela voz. A relação entre os dois
começou a tomar forma durante as apresentações do grupo como abertura do Deep
Purple e ganhou força quando Blackmore decidiu gravar um projeto próprio.
A ideia inicial era registrar uma versão de Black
Sheep of the Family. O projeto cresceu rapidamente. Blackmore percebeu que
havia ali material suficiente para formar uma nova banda e chamou Dio e os
músicos de Elf para participar das gravações. O resultado foi o álbum Ritchie
Blackmore's Rainbow, lançado em 1975.
É importante, entretanto, separar as duas
histórias. Elf não virou simplesmente
Rainbow. Blackmore utilizou a maior parte dos músicos de Elf nas
gravações iniciais, mas depois decidiu reformular completamente a banda. Dio
permaneceu como vocalista, enquanto Cozy
Powell, Jimmy Bain e Tony Carey assumiram bateria, baixo e
teclados na formação que sairia em turnê. A partir daquele momento, a história
de Rainbow começou, enquanto Elf chegava ao fim.
Antes disso, porém, Elf ainda conseguiu registrar
seu terceiro álbum, Trying to Burn the Sun, lançado em 1975. O disco foi
novamente produzido por Roger Glover e contou com Craig Gruber no baixo, Steve
Edwards na guitarra, Mickey Lee Soule nos teclados, Gary Driscoll na bateria e
Dio nos vocais. Mark Nauseef
também participou das gravações na percussão.
Trying to Burn the Sun mostra uma banda
em plena transformação. O Blues e o Boogie continuam presentes, mas o Rock está
mais pesado e a voz de Dio começa a ganhar aquela dramaticidade que
posteriormente seria explorada por Blackmore. Black Swampy Water, Prayin'
to the Priest e Wonderworld mostram uma banda que já não era
exatamente a mesma do primeiro álbum, mas ainda preservava aquela
espontaneidade que sempre esteve no centro de Elf.
O fim veio em 1975. A maior parte dos músicos de
Elf acabou absorvida pela nova formação de Rainbow ou seguiu caminhos
diferentes. Gary Driscoll, Craig Gruber e Mickey Lee Soule continuaram
trabalhando em diferentes projetos, enquanto David Feinstein posteriormente
formaria The Rods. Dio,
evidentemente, começaria uma das trajetórias mais extraordinárias da história
do Rock.
É impossível contar a história de Rainbow sem falar de Elf. É impossível
compreender completamente a voz de Dio em Rainbow sem ouvir Elf. E,
principalmente, é impossível entender a dimensão musical de Ronnie James Dio
sem conhecer esse período em que ele ainda era um músico profundamente ligado
ao Blues, ao Boogie e ao Rock americano.
Isso é particularmente importante para quem olha
para Elf sob a perspectiva do Southern Rock. O grupo não pertence à linhagem tradicional
de Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, Molly Hatchet ou Blackfoot, mas existia dentro da mesma
grande árvore musical. O Blues, o Boogie, o Country, o Rock and Roll e o Hard
Rock eram linguagens que atravessavam fronteiras. Elf representa justamente
esse ponto de encontro entre o Rock americano de raízes e o Hard Rock britânico
que estava começando a ganhar peso.
Ronnie
James Dio seria eternizado como uma das maiores vozes do Heavy Metal, um artista
associado a dragões, magos, arco-íris, castelos e mundos fantásticos. Mas antes
de tudo isso existiu um sujeito tocando baixo, cantando Blues e Rock and Roll,
dividindo pequenos palcos com seus amigos e tentando encontrar seu espaço no
mundo da música.
Esse sujeito era Ronnie Dio.
E a banda que lhe deu esse espaço foi Elf.
Formação
Ronnie James Dio (Ronald James Padavona) - Vocais e baixo
David “Rock” Feinstein - Guitarra
Gary Driscoll - Bateria
Mickey Lee Soule - Teclados
Discografia
1972 Elf
1974 Carolina County Ball
1975 Trying to Burn the Sun










