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The Band

 


Nota editorial | Southern Rock Site Brazil

Essa banda não pertence diretamente ao universo do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.

The Band ocupa um lugar absolutamente singular na história da música. Cinco músicos, quatro canadenses e um americano, mergulharam profundamente nas raízes culturais dos Estados Unidos e ajudaram a reconstruir uma linguagem musical que parecia pertencer ao passado, transformando-a em algo novo e influente. O resultado foi uma obra que atravessou o Rock, o Country, o Blues e a música americana de raízes e que continua servindo como referência para todos aqueles que acreditam que o futuro da música também pode ser encontrado no respeito ao passado.

A história começou antes mesmo de existir a The Band. Durante a primeira metade da década de 1960, Levon Helm, Robbie Robertson, Rick Danko, Richard Manuel e Garth Hudson foram reunidos em torno do cantor de Rockabilly Ronnie Hawkins. Sob o nome The Hawks, tornaram-se uma das bandas de apoio mais respeitadas do circuito de clubes do Canadá e dos Estados Unidos. Helm, nascido em Arkansas, era o único americano do quinteto, enquanto Robertson, Danko, Manuel e Hudson eram canadenses. A experiência ao lado de Hawkins foi fundamental para que os cinco desenvolvessem aquela impressionante capacidade de tocar como uma unidade, característica que se tornaria uma das marcas registradas da The Band.

A passagem pelos Hawks também colocou aqueles músicos em contato direto com a tradição do Blues, do Country e do Rock and Roll. Tocando noite após noite em clubes, eles aprenderam a acompanhar diferentes artistas, adaptar-se a repertórios variados e, principalmente, ouvir uns aos outros. Essa escola de estrada seria determinante para o que aconteceria poucos anos depois.

Em 1965, Bob Dylan procurava uma banda capaz de acompanhar a transformação de sua música. O músico havia começado a abandonar a abordagem exclusivamente acústica do Folk e caminhava em direção a um som elétrico, mais pesado e próximo do Rock. Dylan encontrou nos Hawks exatamente a força que procurava. A parceria resultou nas controversas turnês de 1965 e 1966, quando parte do público folk reagiu violentamente à mudança de direção do cantor. Os músicos chegaram a ser vaiados e insultados por espectadores que não aceitavam Dylan acompanhado por uma banda elétrica. O episódio tornou-se um dos momentos mais importantes da transição do Folk para o Rock.

Depois das turbulentas turnês com Dylan, os músicos se estabeleceram na região de Woodstock, Nova York. Foi nesse período que começaram a trabalhar intensamente com Dylan em gravações que posteriormente ficariam conhecidas como The Basement Tapes. Em um ambiente muito mais informal do que os grandes estúdios da indústria fonográfica, os músicos exploraram canções tradicionais, composições novas e diferentes linguagens musicais. Aquelas sessões seriam fundamentais para o nascimento da identidade que posteriormente definiria a The Band.

Foi também em Woodstock que surgiu a famosa casa cor-de-rosa conhecida como Big Pink, onde alguns dos músicos moravam e onde foram realizadas parte das gravações que dariam origem ao primeiro álbum da banda. O nome The Band nasceu quase como uma consequência natural da trajetória que aqueles músicos já vinham construindo. Depois de anos acompanhando Ronnie Hawkins e Bob Dylan, eles finalmente assumiriam o protagonismo.

Em 1968, a The Band lançou Music from Big Pink. O álbum foi uma ruptura com aquilo que dominava o Rock naquele momento. Enquanto muitos artistas buscavam aumentar o volume, explorar efeitos psicodélicos e ampliar a complexidade das produções, a The Band seguiu outro caminho. O grupo apostou em instrumentos tradicionais, arranjos econômicos, múltiplos vocalistas e uma profunda conexão com as raízes da música americana. O resultado foi um disco que parecia antigo e moderno ao mesmo tempo.

Grande parte da força do álbum estava na maneira como os cinco integrantes funcionavam coletivamente. Não havia um único frontman responsável por conduzir todas as músicas. Levon Helm, Richard Manuel e Rick Danko dividiam os vocais principais, enquanto Robertson e Hudson desempenhavam papéis fundamentais na construção dos arranjos. Essa alternância de vozes e instrumentos criava uma personalidade que nenhuma outra formação conseguiria reproduzir da mesma maneira.

Entre as músicas que ajudaram a transformar o álbum em um clássico estavam The Weight, Chest Fever, Tears of Rage e I Shall Be Released. A influência de The Weight, em particular, atravessaria décadas. Sua combinação de Gospel, Folk, Country e Rock tornou-se uma espécie de manifesto da nova música de raízes americana e ajudou a abrir caminho para artistas que posteriormente explorariam a mesma mistura.

Em 1969, a The Band lançou seu segundo álbum, simplesmente intitulado The Band. O disco aprofundou ainda mais a pesquisa musical iniciada em Music from Big Pink. Dessa vez, porém, a identidade do grupo estava ainda mais definida. Músicas como Up on Cripple Creek, The Night They Drove Old Dixie Down, Rag Mama Rag e The Unfaithful Servant apresentavam uma banda completamente madura, capaz de transformar personagens, histórias e elementos da cultura americana em música.

A relação com o Sul dos Estados Unidos tornou-se particularmente evidente nesse período. Apesar de quatro dos cinco integrantes serem canadenses, a música da The Band absorveu profundamente o Blues, o Country, o Gospel e as tradições do Sul. Levon Helm, com sua voz carregada de sotaque e sua experiência musical adquirida no Arkansas, foi fundamental para essa conexão. A presença de Helm ajudou a dar à banda uma identidade americana que não estava relacionada apenas à origem geográfica de seus integrantes, mas à música que haviam escolhido estudar, tocar e respeitar.

Durante o início da década de 1970, a The Band manteve uma sequência de trabalhos importantes. Stage Fright, lançado em 1970, revelou um grupo mais introspectivo, enquanto Cahoots, de 1971, apresentou uma sonoridade mais elaborada. Em 1973, Moondog Matinee trouxe uma abordagem diferente, com a banda revisitando músicas de outros compositores e mergulhando ainda mais profundamente em suas influências de Rhythm & Blues, Soul e Rock and Roll.

A relação com Bob Dylan também continuou. Em 1974, os músicos voltaram a excursionar juntos e participaram de Planet Waves, álbum creditado a Bob Dylan and The Band. A parceria reforçou a importância histórica de um grupo que havia ajudado Dylan a atravessar uma das fases mais controversas de sua carreira.

Em 1975, a The Band lançou Northern Lights - Southern Cross, seu primeiro álbum de material original em vários anos. O disco demonstrava que, apesar das mudanças na indústria musical e das transformações do Rock, a banda continuava capaz de produzir música sofisticada sem abandonar suas raízes.

Ao mesmo tempo, porém, a vida dentro da The Band estava se tornando cada vez mais complicada. O sucesso, as longas temporadas na estrada, o desgaste físico e emocional e os problemas pessoais começaram a afetar profundamente os integrantes. As relações internas se deterioraram e o entusiasmo dos primeiros anos já não existia da mesma maneira.

Robbie Robertson passou a defender o encerramento das grandes turnês, enquanto os demais integrantes ainda possuíam diferentes perspectivas sobre o futuro da banda. A decisão foi tomada: o último grande concerto da formação original aconteceria em 25 de novembro de 1976, no Winterland Ballroom, em San Francisco, no Dia de Ação de Graças.

O espetáculo recebeu o nome de The Last Waltz e transformou-se em um dos acontecimentos mais importantes da história do Rock. A The Band recebeu no palco uma impressionante lista de convidados, entre eles Bob Dylan, Neil Young, Eric Clapton, Joni Mitchell, Van Morrison, Muddy Waters, Dr. John, Ringo Starr, Ron Wood e Ronnie Hawkins. O concerto foi filmado por Martin Scorsese, dando origem ao documentário The Last Waltz, lançado em 1978 e posteriormente reconhecido como um dos grandes filmes de concerto da história do cinema musical.

Apesar de ter sido anunciado como uma despedida das apresentações ao vivo, a história da The Band não terminou ali. Os músicos ainda gravaram Islands, lançado em 1977, encerrando a sequência de trabalhos da formação original. Robertson posteriormente deixou definitivamente o grupo e iniciou uma carreira solo de grande sucesso, enquanto Helm, Danko, Manuel e Hudson continuaram envolvidos em diferentes projetos.

A The Band retornaria aos estúdios nos anos 1990 sem Robbie Robertson. Essa nova fase apresentou uma formação renovada em torno de Levon Helm, Rick Danko e Garth Hudson, acompanhados por outros músicos. O primeiro resultado foi Jericho, lançado em 1993, seguido por High on the Hog, de 1996, e Jubilation, de 1998. Esses discos mostraram que a essência musical do grupo ainda permanecia viva, mesmo sem um dos cinco integrantes originais.

A história, entretanto, também foi marcada por perdas profundas. Richard Manuel morreu em 1986, aos 42 anos, encerrando precocemente a trajetória de uma das vozes mais singulares da música americana. Rick Danko morreu em 1999, aos 55 anos. Levon Helm, depois de uma longa batalha contra um câncer de garganta, morreu em 2012. Robbie Robertson morreu em 2023. Garth Hudson, o último integrante da formação clássica, morreu em 2025, aos 87 anos. Com sua morte, encerrou-se definitivamente a história dos cinco músicos que haviam formado uma das alianças mais extraordinárias da música popular.

O legado da The Band, entretanto, permanece absolutamente vivo. A influência exercida pelo grupo pode ser encontrada em praticamente toda a tradição do Roots Rock e da Americana que surgiu posteriormente. Sua capacidade de reunir Country, Blues, Folk, Gospel, Soul e Rock sem transformar essa mistura em uma simples fórmula fez da banda uma referência para artistas de diferentes gerações.

Para o universo do Southern Rock, sua importância é ainda maior. A The Band ajudou a mostrar que a música americana poderia olhar para suas próprias raízes sem perder força, modernidade ou relevância. Essa filosofia seria absorvida por inúmeras bandas sulistas que surgiriam nos anos seguintes. The Band ajudou a construir uma maneira de pensar o Rock americano.

Formação clássica

Levon Helm - Bateria, vocais, bandolim e guitarra

Rick Danko - Baixo, vocais e fiddle

Richard Manuel - Piano, teclados, bateria e vocais

Garth Hudson - Órgão, teclados, acordeão, saxofone e outros instrumentos

Robbie Robertson - Guitarra e vocais

Formação posterior

Richard Bell - Teclados

Jim Weider - Guitarra

Randy Ciarlante - Bateria e percussão

Jimmy Weider - Guitarra

Richard Bell - Teclados

Discografia

1968 Music from Big Pink

1969 The Band

1970 Stage Fright

1971 Cahoots

1973 Moondog Matinee

1975 Northern Lights – Southern Cross

1977 Islands

1993 Jericho

1996 High on the Hog

1998 Jubilation