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.38 Special - Special Delivery (1978)


 Em 1978, o .38 Special ainda estava longe de ser a banda que ocuparia as rádios americanas e as grandes arenas poucos anos depois. O nome já carregava uma conexão evidente com o Southern Rock por causa de Donnie Van Zant, irmão mais novo de Ronnie Van Zant, mas a banda precisava provar que poderia existir por conta própria. O primeiro álbum, lançado em 1977, havia apresentado aquele grupo ao público. Special Delivery, seu segundo trabalho, é o momento em que a identidade começa a ganhar contornos mais definidos. Ainda existe muito da linguagem tradicional do Southern Rock, mas já aparecem elementos que apontam para uma banda interessada em melodias mais acessíveis, arranjos mais cuidadosos e uma sonoridade que poderia ultrapassar os limites do circuito sulista. É justamente por isso que Special Delivery merece ser cultuado: não como o álbum definitivo do .38 Special, mas como o disco em que a banda começa a descobrir como deixar de ser apenas uma promessa do Southern Rock para construir uma identidade própria.

O momento histórico também é importante. O Southern Rock estava vivendo uma fase de enorme exposição, mas não era um gênero homogêneo. De um lado havia o peso e a tradição do Lynyrd Skynyrd, a sofisticação instrumental dos Allman Brothers e a variedade musical do Marshall Tucker Band. De outro, bandas como Molly Hatchet, Blackfoot e o próprio .38 Special começavam a mostrar que aquela linguagem poderia caminhar em direção a um Rock mais pesado, direto e preparado para palcos cada vez maiores. O .38 Special ainda não tinha encontrado sua fórmula, mas Special Delivery mostra uma banda que já entendia que não precisava escolher entre suas raízes e uma possível expansão de público.

O disco foi gravado em janeiro e fevereiro de 1978 no The Schoolhouse, em Westport, Connecticut, com trabalhos de mixagem realizados no Hit Factory, em Nova York. Dan Hartman, que já havia trabalhado com a banda em seu primeiro álbum, novamente assumiu a produção. A escolha é importante porque Hartman ajudava a dar clareza ao som sem retirar da banda o peso das guitarras. O resultado não tem a dimensão radiofônica que o .38 Special desenvolveria posteriormente. Ainda há uma sensação de banda de estrada, de músicos tocando juntos e construindo as músicas a partir de guitarras, baixo, bateria e vocais.

A formação também merece atenção. Donnie Van Zant assume os vocais principais, enquanto Don Barnes e Jeff Carlisi dividem as guitarras, com Barnes também tocando guitarra acústica de 12 cordas e participando dos vocais de apoio. Larry Junstrom está no baixo, e Steve Brookins e Jack Grondin formam uma dupla de bateristas. Essa configuração já mostra que o .38 Special estava interessado em produzir um som encorpado. Não existe apenas uma guitarra sustentando a música, a banda trabalha com camadas e contrapontos, com Barnes e Carlisi desenvolvendo uma relação instrumental que se tornaria uma das marcas do grupo.

É importante, entretanto, não olhar para essa formação apenas como um precursor do .38 Special que conhecemos depois. Em 1978, Don Barnes ainda não era a voz que milhões de pessoas associariam aos grandes sucessos da banda. A divisão de funções ainda estava em formação. Donnie Van Zant ocupava o centro como vocalista, enquanto Barnes aparecia como guitarrista, compositor e vocal de apoio. Quando observamos os créditos das músicas, fica evidente que Barnes já participava intensamente do processo de composição. Ele está envolvido em praticamente todo o repertório, seja sozinho com outro integrante, seja em parceria com Donnie Van Zant e Jeff Carlisi. Esse detalhe é fundamental para entender o que estava acontecendo dentro do grupo.

O .38 Special não estava simplesmente tentando repetir o modelo de outras bandas sulistas, estava começando a descobrir uma combinação própria entre os elementos que seus integrantes traziam de suas experiências musicais. Donnie Van Zant oferecia a conexão emocional e cultural com o Sul americano. Barnes e Carlisi construíam a linguagem das guitarras. Junstrom fornecia a base grave. A dupla de bateristas acrescentava força. E Dan Hartman ajudava a transformar tudo aquilo em um disco com clareza suficiente para chegar a um público mais amplo.

A abertura com I'm a Fool for You já estabelece uma das características mais interessantes do álbum. A música não é uma composição de Donnie Van Zant ou Don Barnes, mas de John Cascella, e a presença de Billy Powell ao piano acrescenta uma camada que imediatamente aproxima a gravação da tradição musical sulista. Powell, então ex-integrante Lynyrd Skynyrd, participa também de Take Me Back.

Não é necessário transformar essa participação em uma espécie de certificado de autenticidade, o .38 Special não precisava de Billy Powell para ser uma banda de Southern Rock, mas sua presença é historicamente significativa porque mostra o ambiente em que o grupo estava inserido. A música sulista daquela época era uma rede de músicos, produtores e bandas que se encontravam, colaboravam e compartilhavam influências. O .38 Special estava dentro desse universo, mas começava a desenvolver seu próprio sotaque.

I'm a Fool for You também mostra uma característica que acompanha o disco inteiro: a banda não precisa de uma produção gigantesca para soar grande. A guitarra de Barnes e a de Carlisi ocupam espaços diferentes, o piano acrescenta movimento e os dois bateristas ampliam a sensação de força. O resultado é direto, mas não simplista.

Em Turnin' to You, a composição passa para Don Barnes e Jeff Carlisi, e a importância das duas guitarras começa a ficar ainda mais evidente. A música tem uma construção mais melódica e aponta para uma característica que se tornaria decisiva na trajetória do grupo: a capacidade de escrever músicas que mantêm a força do Southern Rock sem depender exclusivamente de riffs pesados.

Essa busca por equilíbrio aparece novamente em Travelin' Man. Composição de Barnes, Carlisi e Donnie Van Zant, a música está profundamente ligada ao imaginário da estrada, mas não precisa recorrer a uma caricatura do Sul para estabelecer sua identidade. A guitarra permanece como protagonista, a composição possui uma estrutura suficientemente clara para mostrar que o grupo já pensava em música além da simples demonstração instrumental.

Esse é um dos aspectos que tornam Special Delivery mais interessante quando ouvido hoje: o .38 Special ainda toca como uma banda de Southern Rock, mas começa a escrever como uma banda que quer crescer, a diferença é importante.

Não se trata de abandonar o gênero. Trata-se de compreender quais elementos poderiam ser ampliados. As guitarras continuam sendo fundamentais, a melodia passa a ocupar um espaço maior, os vocais começam a ser pensados de maneira mais abrangente, os arranjos deixam de ser apenas uma base para a guitarra e passam a construir uma identidade mais organizada.

I Been a Mover, composta por Jeff Carlisi e Donnie Van Zant, reforça o lado mais pesado do álbum. É uma das faixas que melhor preservam a conexão direta com a tradição do Southern Rock. A guitarra de Carlisi, incluindo sua participação com slide guitar em diferentes momentos do disco, acrescenta uma textura que impede o grupo de cair em um Rock genérico.

Mas é no segundo lado do álbum que o caminho futuro do .38 Special fica ainda mais claro.

What Can I Do é uma das músicas fundamentais para compreender essa transformação. Composta por Don Barnes e Donnie Van Zant, ela trabalha uma dimensão mais melódica e emocional sem abandonar a estrutura de Rock. Não é ainda o .38 Special dos grandes refrões que surgiriam posteriormente, mas a direção está ali. A banda começa a descobrir que sua força poderia estar justamente na combinação entre guitarras sulistas e melodias capazes de permanecer na cabeça do ouvinte, e isso ganha ainda mais importância quando lembramos o que viria depois.

Em 1979, Rockin' Into the Night aprofundaria esse caminho. Em 1981, Wild-Eyed Southern Boys consolidaria uma nova dimensão comercial da banda. Em 1982, Special Forces levaria o grupo ainda mais longe. Mas nada disso surge do nada, a transformação já estava acontecendo em Special Delivery.

O próprio catálogo oficial do .38 Special ajuda a enxergar essa sequência: depois do álbum de estreia e de Special Delivery, vem Rockin' Into the Night, seguido por Wild-Eyed Southern Boys e Special Forces. O grupo estava construindo sua evolução disco após disco.

Who's Been Messin' é o exemplo mais claro de como o processo de composição estava se ampliando. A música é creditada a Don Barnes, Jeff Carlisi, Donnie Van Zant e Dan Hartman. A participação do produtor como compositor mostra que o processo de criação não estava completamente separado da produção. Hartman conhecia a banda, conhecia o estúdio e ajudava a organizar aquela mistura de influências em uma forma mais acessível. Mas há um ponto que precisa ser destacado: Special Delivery não soa como um álbum excessivamente produzido.

Isso é importante porque seria muito fácil contar essa história como se a banda já estivesse conscientemente planejando o sucesso de arena que viria depois. Não temos motivo para fazer essa afirmação. O que ouvimos é muito mais interessante: músicos desenvolvendo uma linguagem e descobrindo, através das próprias músicas, quais caminhos funcionavam melhor.

A produção de Dan Hartman mantém o disco relativamente próximo da banda. A guitarra continua com espaço, o baixo de Junstrom não desaparece atrás das guitarras, a bateria possui peso e os vocais permanecem naturais. Há uma sensação de conjunto que seria modificada conforme o .38 Special avançasse na década seguinte.

Can't Keep a Good Man Down acrescenta outro elemento importante: Edgar Winter. Ele participa com saxofone e também aparece nos créditos do arranjo de sax.

A presença de Winter é interessante porque reforça uma característica fundamental do Southern Rock: o gênero nunca foi apenas guitarra distorcida e sotaque sulista. Blues, Soul, Country, Gospel, R&B e Jazz sempre fizeram parte da mesma conversa. O saxofone amplia a textura do álbum e mostra que o .38 Special não tinha medo de incorporar outras cores ao seu som. E novamente a banda não perde sua identidade.

Essa é uma das maiores virtudes do álbum. Os elementos externos não parecem estar ali apenas para demonstrar que os músicos poderiam fazer algo diferente, eles são incorporados ao arranjo.

Take Me Back, que encerra o álbum, traz novamente Billy Powell ao piano e fecha o disco em uma atmosfera mais contemplativa. É uma escolha interessante para um álbum que passou boa parte de seus trinta e poucos minutos trabalhando guitarras, peso e movimento. A presença do piano ajuda a mostrar que a banda já compreendia a importância de variar a dinâmica de um disco e há algo simbólico nesse encerramento.

O álbum começou apresentando uma banda que ainda precisava afirmar quem era e termina mostrando um grupo muito mais consciente de suas possibilidades. Não há uma transformação completa. Não estamos diante de uma ruptura. O .38 Special ainda é claramente uma banda de Southern Rock, mas já não é exatamente a mesma banda do começo do disco.

Esse desenvolvimento também pode ser percebido na própria composição. Donnie Van Zant continua sendo o vocalista principal e a figura mais imediatamente associada à banda, mas Don Barnes e Jeff Carlisi ocupam cada vez mais espaço como compositores. Larry Junstrom também participa da composição de Can't Keep a Good Man Down. Os créditos mostram uma banda que começa a funcionar como um organismo criativo coletivo, e não apenas como um projeto centrado em seu vocalista.

Essa talvez seja a grande diferença entre Special Delivery e o disco de estreia. O primeiro álbum apresenta o .38 Special, e o segundo começa a explicar quem o .38 Special quer ser, e aí está a diferença.

Também é importante lembrar que o álbum não precisa ser transformado em uma obra-prima para ser considerado fundamental. Special Delivery possui limitações. Há músicas mais fortes que outras, e a banda ainda não encontrou a consistência que alcançaria posteriormente. A própria recepção crítica da época foi registrada em veículos como Billboard, Record World e Music Week, o que mostra que o disco já estava sendo acompanhado pela imprensa musical e pela indústria, embora o grande salto comercial ainda estivesse por vir. O que importa é que o disco registra uma banda em movimento, e, dentro da história do Southern Rock, discos assim possuem um valor especial.

O gênero havia surgido da mistura de tradições musicais diferentes e, no final dos anos 1970, começava a enfrentar mudanças profundas no mercado. As bandas precisavam encontrar maneiras de continuar relevantes sem abandonar completamente aquilo que as tornava diferentes.

A banda não seria a mais pesada. Não seria a mais virtuosa. Não seria a mais tradicional. Seria uma das que melhor conseguiriam traduzir o Southern Rock para uma linguagem de grande alcance sem abandonar completamente suas raízes.

Special Delivery é o início desse processo.

Ouvir o álbum hoje é mais interessante do que simplesmente recorrer aos grandes sucessos posteriores. Quando colocamos Hold On Loosely ou Caught Up in You para tocar, já sabemos onde a banda chegou. Aqui, ainda existe descoberta, ainda existe risco, ainda existe uma banda tentando entender qual combinação de elementos representa melhor aquilo que seus integrantes têm para oferecer.

O disco também guarda uma conexão particularmente forte com a tradição sulista através de seus convidados. Billy Powell não aparece como um convidado decorativo, seu piano está integrado às músicas. Edgar Winter não aparece apenas para acrescentar um nome conhecido aos créditos, seu saxofone amplia o arranjo de Can't Keep a Good Man Down. São participações que ajudam a situar o .38 Special dentro de uma comunidade musical muito maior.

Até a arte do álbum reforça esse espírito. A ilustração ficou a cargo de Neon Park, enquanto Roland Young assumiu a direção de arte e Junie Osaki o design. Park, conhecido por seu trabalho visual associado a diversos artistas do Rock, ajudou a construir uma identidade gráfica que também pertence àquele período específico do Rock americano. Tudo isso ajuda a entender por que Special Delivery merece mais atenção do que normalmente recebe. Não é apenas um álbum intermediário entre dois discos mais conhecidos, é o segundo passo de uma banda que ainda tinha muito a conquistar.

Percebe-se que o .38 Special não precisava abandonar o Southern Rock para alcançar um público maior, o que precisava era aprender a organizar aquela linguagem de maneira diferente. As guitarras continuariam presentes, a força rítmica continuaria presente, a identidade sulista continuaria presente, o que mudaria seria a maneira de apresentar tudo isso.

Essa transformação seria decisiva.

Porque existe diferença entre uma banda que tenta parecer comercial e uma banda que descobre que sua própria música pode ser comercial sem deixar de ser autêntica. O .38 Special caminharia na segunda direção e Special Delivery é um dos primeiros documentos dessa descoberta.

Por isso, quando volto a esse álbum, não penso nele como um simples segundo capítulo da discografia, penso nele como um ponto de passagem. Atrás dele está o primeiro e um .38 Special, ainda procurando espaço. À frente está Rockin' Into the Night, já apontando para uma nova fase. Mais adiante estarão Wild-Eyed Southern Boys, Special Forces e todos os discos que fariam do grupo uma presença constante no Rock americano.

Mas antes de tudo isso havia seis músicos em estúdio, oito músicas e uma banda tentando descobrir o tamanho da própria estrada. E essa estrada começava no Sul, mas não terminaria lá.

É por isso que Special Delivery merece ser cultuado. Não porque seja o ponto máximo da carreira do .38 Special, mas porque é o momento em que a banda começa a compreender que poderia carregar o Southern Rock para muito além das fronteiras que o gênero havia estabelecido.

O .38 Special ainda não havia encontrado sua fórmula definitiva, mas já havia encontrado algo talvez mais importante: uma direção.

Formação da banda

Donnie Van Zant - vocais principais
Don Barnes - guitarra elétrica, vocais de apoio
Jeff Carlisi - guitarra elétrica, guitarra acústica, slide guitar
Larry Junstrom - baixo
Steve Brookins - bateria
Jack Grondin - bateria

Participações especiais

Billy Powell - piano em I'm a Fool for You e Take Me Back
Edgar Winter - saxofone e arranjo de sax em Can't Keep a Good Man Down
Carl Hall - vocais de apoio
Dale Krantz - vocais de apoio
Louise Bethune - vocais de apoio

Tracklist completa

1.    I'm a Fool for You

2.    Turnin' to You

3.    Travelin' Man

4.    I Been a Mover

5.    What Can I Do

6.    Who's Been Messin'

7.    Can't Keep a Good Man Down

8.    Take Me Back

Renato Martins São Pedro

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