O momento histórico também é importante. O
Southern Rock estava vivendo uma fase de enorme exposição, mas não era um
gênero homogêneo. De um lado havia o peso e a tradição do Lynyrd Skynyrd, a
sofisticação instrumental dos Allman Brothers e a variedade musical do Marshall
Tucker Band. De outro, bandas como Molly Hatchet, Blackfoot e o próprio .38
Special começavam a mostrar que aquela linguagem poderia caminhar em direção a
um Rock mais pesado, direto e preparado para palcos cada vez maiores. O .38
Special ainda não tinha encontrado sua fórmula, mas Special Delivery mostra uma
banda que já entendia que não precisava escolher entre suas raízes e uma possível
expansão de público.
O disco foi gravado em janeiro e fevereiro de
1978 no The Schoolhouse, em Westport, Connecticut, com trabalhos de mixagem
realizados no Hit Factory, em Nova York. Dan Hartman, que já havia trabalhado
com a banda em seu primeiro álbum, novamente assumiu a produção. A escolha é
importante porque Hartman ajudava a dar clareza ao som sem retirar da banda o
peso das guitarras. O resultado não tem a dimensão radiofônica que o .38
Special desenvolveria posteriormente. Ainda há uma sensação de banda de
estrada, de músicos tocando juntos e construindo as músicas a partir de
guitarras, baixo, bateria e vocais.
A formação também merece atenção. Donnie Van Zant
assume os vocais principais, enquanto Don Barnes e Jeff Carlisi dividem as
guitarras, com Barnes também tocando guitarra acústica de 12 cordas e
participando dos vocais de apoio. Larry Junstrom está no baixo, e Steve
Brookins e Jack Grondin formam uma dupla de bateristas. Essa configuração já
mostra que o .38 Special estava interessado em produzir um som encorpado. Não
existe apenas uma guitarra sustentando a música, a banda trabalha com camadas e
contrapontos, com Barnes e Carlisi desenvolvendo uma relação instrumental que
se tornaria uma das marcas do grupo.
É importante, entretanto, não olhar para essa
formação apenas como um precursor do .38 Special que conhecemos depois. Em
1978, Don Barnes ainda não era a voz que milhões de pessoas associariam aos
grandes sucessos da banda. A divisão de funções ainda estava em formação.
Donnie Van Zant ocupava o centro como vocalista, enquanto Barnes aparecia como
guitarrista, compositor e vocal de apoio. Quando observamos os créditos das
músicas, fica evidente que Barnes já participava intensamente do processo de
composição. Ele está envolvido em praticamente todo o repertório, seja sozinho
com outro integrante, seja em parceria com Donnie Van Zant e Jeff Carlisi. Esse
detalhe é fundamental para entender o que estava acontecendo dentro do grupo.
O .38 Special não estava simplesmente tentando
repetir o modelo de outras bandas sulistas, estava começando a descobrir uma
combinação própria entre os elementos que seus integrantes traziam de suas
experiências musicais. Donnie Van Zant oferecia a conexão emocional e cultural
com o Sul americano. Barnes e Carlisi construíam a linguagem das guitarras.
Junstrom fornecia a base grave. A dupla de bateristas acrescentava força. E Dan
Hartman ajudava a transformar tudo aquilo em um disco com clareza suficiente
para chegar a um público mais amplo.
A abertura com I'm a Fool for You já estabelece
uma das características mais interessantes do álbum. A música não é uma
composição de Donnie Van Zant ou Don Barnes, mas de John Cascella, e a presença
de Billy Powell ao piano acrescenta uma camada que imediatamente aproxima a gravação
da tradição musical sulista. Powell, então ex-integrante Lynyrd Skynyrd,
participa também de Take Me Back.
Não é necessário transformar essa participação em
uma espécie de certificado de autenticidade, o .38 Special não precisava de
Billy Powell para ser uma banda de Southern Rock, mas sua presença é
historicamente significativa porque mostra o ambiente em que o grupo estava
inserido. A música sulista daquela época era uma rede de músicos, produtores e
bandas que se encontravam, colaboravam e compartilhavam influências. O .38
Special estava dentro desse universo, mas começava a desenvolver seu próprio
sotaque.
I'm a Fool for You também mostra uma
característica que acompanha o disco inteiro: a banda não precisa de uma
produção gigantesca para soar grande. A guitarra de Barnes e a de Carlisi
ocupam espaços diferentes, o piano acrescenta movimento e os dois bateristas
ampliam a sensação de força. O resultado é direto, mas não simplista.
Em Turnin' to You, a composição passa para Don
Barnes e Jeff Carlisi, e a importância das duas guitarras começa a ficar ainda
mais evidente. A música tem uma construção mais melódica e aponta para uma
característica que se tornaria decisiva na trajetória do grupo: a capacidade de
escrever músicas que mantêm a força do Southern Rock sem depender
exclusivamente de riffs pesados.
Essa busca por equilíbrio aparece novamente em
Travelin' Man. Composição de Barnes, Carlisi e Donnie Van Zant, a música está
profundamente ligada ao imaginário da estrada, mas não precisa recorrer a uma
caricatura do Sul para estabelecer sua identidade. A guitarra permanece como
protagonista, a composição possui uma estrutura suficientemente clara para
mostrar que o grupo já pensava em música além da simples demonstração
instrumental.
Esse é um dos aspectos que tornam Special
Delivery mais interessante quando ouvido hoje: o .38 Special ainda toca como uma banda de Southern Rock, mas começa a
escrever como uma banda que quer crescer, a diferença é importante.
Não se trata de abandonar o gênero. Trata-se de
compreender quais elementos poderiam ser ampliados. As guitarras continuam
sendo fundamentais, a melodia passa a ocupar um espaço maior, os vocais
começam a ser pensados de maneira mais abrangente, os arranjos deixam de ser
apenas uma base para a guitarra e passam a construir uma identidade mais
organizada.
I Been a Mover, composta por Jeff Carlisi e
Donnie Van Zant, reforça o lado mais pesado do álbum. É uma das faixas que
melhor preservam a conexão direta com a tradição do Southern Rock. A guitarra
de Carlisi, incluindo sua participação com slide guitar em diferentes momentos
do disco, acrescenta uma textura que impede o grupo de cair em um Rock
genérico.
Mas é no segundo lado do álbum que o caminho
futuro do .38 Special fica ainda mais claro.
What Can I Do é uma das músicas fundamentais para
compreender essa transformação. Composta por Don Barnes e Donnie Van Zant, ela
trabalha uma dimensão mais melódica e emocional sem abandonar a estrutura de
Rock. Não é ainda o .38 Special dos grandes refrões que surgiriam
posteriormente, mas a direção está ali. A banda começa a descobrir que sua
força poderia estar justamente na combinação entre guitarras sulistas e
melodias capazes de permanecer na cabeça do ouvinte, e isso ganha ainda mais
importância quando lembramos o que viria depois.
Em 1979, Rockin' Into the Night aprofundaria esse
caminho. Em 1981, Wild-Eyed Southern Boys consolidaria uma nova dimensão
comercial da banda. Em 1982, Special Forces levaria o grupo ainda mais longe.
Mas nada disso surge do nada, a transformação já estava acontecendo em Special
Delivery.
O próprio catálogo oficial do .38 Special ajuda a
enxergar essa sequência: depois do álbum de estreia e de Special Delivery, vem
Rockin' Into the Night, seguido por Wild-Eyed Southern Boys e Special Forces. O
grupo estava construindo sua evolução disco após disco.
Who's Been Messin' é o exemplo mais
claro de como o processo de composição estava se ampliando. A música é
creditada a Don Barnes, Jeff Carlisi, Donnie Van Zant e Dan Hartman. A
participação do produtor como compositor mostra que o processo de criação não
estava completamente separado da produção. Hartman conhecia a banda, conhecia o
estúdio e ajudava a organizar aquela mistura de influências em uma forma mais
acessível. Mas há um ponto que precisa ser destacado: Special Delivery não soa
como um álbum excessivamente produzido.
Isso é importante porque seria muito fácil contar
essa história como se a banda já estivesse conscientemente planejando o sucesso
de arena que viria depois. Não temos motivo para fazer essa afirmação. O que
ouvimos é muito mais interessante: músicos desenvolvendo uma linguagem e
descobrindo, através das próprias músicas, quais caminhos funcionavam melhor.
A produção de Dan Hartman mantém o disco
relativamente próximo da banda. A guitarra continua com espaço, o baixo de
Junstrom não desaparece atrás das guitarras, a bateria possui peso e os vocais
permanecem naturais. Há uma sensação de conjunto que seria modificada conforme
o .38 Special avançasse na década seguinte.
Can't Keep a Good Man Down acrescenta outro
elemento importante: Edgar Winter. Ele participa com saxofone e também aparece
nos créditos do arranjo de sax.
A presença de Winter é interessante
porque reforça uma característica fundamental do Southern Rock: o gênero nunca
foi apenas guitarra distorcida e sotaque sulista. Blues, Soul, Country, Gospel,
R&B e Jazz sempre fizeram parte da mesma conversa. O saxofone amplia a textura do álbum e mostra que o .38 Special não tinha medo de
incorporar outras cores ao seu som. E novamente a banda não perde sua
identidade.
Essa é uma das maiores virtudes do álbum. Os
elementos externos não parecem estar ali apenas para demonstrar que os músicos
poderiam fazer algo diferente, eles são incorporados ao arranjo.
Take Me Back, que encerra o álbum, traz novamente
Billy Powell ao piano e fecha o disco em uma atmosfera mais contemplativa. É
uma escolha interessante para um álbum que passou boa parte de seus trinta e
poucos minutos trabalhando guitarras, peso e movimento. A presença do piano
ajuda a mostrar que a banda já compreendia a importância de variar a dinâmica
de um disco e há algo simbólico nesse encerramento.
O álbum começou apresentando uma banda que ainda
precisava afirmar quem era e termina mostrando um grupo muito mais consciente
de suas possibilidades. Não há uma transformação completa. Não estamos diante
de uma ruptura. O .38 Special ainda é claramente uma banda de Southern Rock, mas já não é exatamente a mesma banda do começo do disco.
Esse desenvolvimento também pode ser percebido na
própria composição. Donnie Van Zant continua sendo o vocalista principal e a
figura mais imediatamente associada à banda, mas Don Barnes e Jeff Carlisi
ocupam cada vez mais espaço como compositores. Larry Junstrom também participa
da composição de Can't Keep a Good Man Down. Os créditos mostram uma banda que
começa a funcionar como um organismo criativo coletivo, e não apenas como um
projeto centrado em seu vocalista.
Essa talvez seja a grande diferença entre Special
Delivery e o disco de estreia. O primeiro álbum apresenta o .38 Special, e o
segundo começa a explicar quem o .38 Special quer ser, e aí está a diferença.
Também é importante lembrar que o álbum não
precisa ser transformado em uma obra-prima para ser considerado fundamental.
Special Delivery possui limitações. Há músicas mais fortes que outras, e a
banda ainda não encontrou a consistência que alcançaria posteriormente. A
própria recepção crítica da época foi registrada em veículos como Billboard,
Record World e Music Week, o que mostra que o disco já estava sendo acompanhado
pela imprensa musical e pela indústria, embora o grande salto comercial ainda
estivesse por vir. O que importa é que o disco registra uma banda em movimento,
e, dentro da história do Southern Rock, discos assim possuem um valor especial.
O gênero havia surgido da mistura de tradições
musicais diferentes e, no final dos anos 1970, começava a enfrentar mudanças
profundas no mercado. As bandas precisavam encontrar maneiras de continuar
relevantes sem abandonar completamente aquilo que as tornava diferentes.
A banda não seria a mais pesada. Não seria a mais
virtuosa. Não seria a mais tradicional. Seria uma das que melhor conseguiriam traduzir o Southern Rock para uma linguagem
de grande alcance sem abandonar completamente suas raízes.
Special Delivery é o início desse processo.
Ouvir o álbum hoje é mais interessante do que
simplesmente recorrer aos grandes sucessos posteriores. Quando colocamos Hold
On Loosely ou Caught Up in You para tocar, já sabemos onde a banda chegou.
Aqui, ainda existe descoberta, ainda existe risco, ainda existe uma banda
tentando entender qual combinação de elementos representa melhor aquilo que
seus integrantes têm para oferecer.
O disco também guarda uma conexão particularmente
forte com a tradição sulista através de seus convidados. Billy Powell não
aparece como um convidado decorativo, seu piano está integrado às músicas.
Edgar Winter não aparece apenas para acrescentar um nome conhecido aos
créditos, seu saxofone amplia o arranjo de Can't Keep a Good Man Down. São
participações que ajudam a situar o .38 Special dentro de uma comunidade
musical muito maior.
Até a arte do álbum reforça esse espírito. A
ilustração ficou a cargo de Neon Park, enquanto Roland Young assumiu a direção
de arte e Junie Osaki o design. Park, conhecido por seu trabalho visual
associado a diversos artistas do Rock, ajudou a construir uma identidade
gráfica que também pertence àquele período específico do Rock americano. Tudo
isso ajuda a entender por que Special Delivery merece mais atenção do que
normalmente recebe. Não é apenas um álbum intermediário entre dois discos mais
conhecidos, é o segundo passo de uma banda que ainda tinha muito a conquistar.
Percebe-se que o .38 Special não precisava
abandonar o Southern Rock para alcançar um público maior, o que precisava era
aprender a organizar aquela linguagem de maneira diferente. As guitarras
continuariam presentes, a força rítmica continuaria presente, a identidade
sulista continuaria presente, o que mudaria seria a maneira de apresentar tudo
isso.
Essa transformação seria decisiva.
Porque existe diferença entre uma banda que tenta
parecer comercial e uma banda que descobre que sua própria música pode ser
comercial sem deixar de ser autêntica. O .38 Special caminharia na segunda
direção e Special Delivery é um dos primeiros documentos dessa descoberta.
Por isso, quando volto a esse álbum, não penso
nele como um simples segundo capítulo da discografia, penso nele como um ponto de passagem. Atrás dele está
o primeiro e um .38 Special, ainda procurando espaço. À frente está Rockin' Into the
Night, já apontando para uma nova fase. Mais adiante estarão Wild-Eyed Southern
Boys, Special Forces e todos os discos que fariam do grupo uma presença
constante no Rock americano.
Mas antes de tudo isso havia seis músicos em
estúdio, oito músicas e uma banda tentando descobrir o tamanho da própria
estrada. E essa estrada começava no Sul, mas não terminaria lá.
É por isso que Special Delivery merece ser cultuado. Não porque seja o
ponto máximo da carreira do .38 Special, mas porque é o momento em que a banda
começa a compreender que poderia carregar o Southern Rock para muito além das
fronteiras que o gênero havia estabelecido.
O .38 Special ainda não havia encontrado sua fórmula definitiva, mas já havia encontrado algo talvez mais importante: uma direção.
Formação da banda
Donnie Van Zant - vocais
principais
Don Barnes - guitarra elétrica,
vocais de apoio
Jeff Carlisi - guitarra
elétrica, guitarra acústica, slide guitar
Larry Junstrom - baixo
Steve Brookins - bateria
Jack Grondin - bateria
Participações especiais
Billy Powell - piano em I'm a Fool for You e Take Me Back
Edgar Winter - saxofone e
arranjo de sax em Can't Keep a Good Man Down
Carl Hall - vocais de apoio
Dale Krantz - vocais de apoio
Louise Bethune - vocais de apoio
Tracklist completa
1.
I'm a Fool for You
2.
Turnin' to You
3.
Travelin' Man
4.
I Been a Mover
5.
What Can I Do
6.
Who's Been Messin'
7.
Can't Keep a Good Man Down
8.
Take Me Back
Renato Martins São Pedro
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