O Texas já havia produzido algumas das maiores
revoluções da música pesada quando o Pantera decidiu fazer a sua. Em 1990,
porém, o mundo do Heavy Metal estava mudando rapidamente. O Thrash Metal havia
levado velocidade, agressividade e precisão técnica para outro patamar,
enquanto o som tradicional dos anos 1980 começava a perder espaço diante de uma
nova geração de bandas que queria peso, atitude e, acima de tudo,
personalidade. Foi nesse cenário que o Pantera apareceu com Cowboys from Hell,
um álbum que não apenas reposicionou a banda, mas ajudou a criar uma nova
maneira de entender o peso dentro do Metal. Lançado em 24 de julho de 1990 pela
Atco Records, o disco marcou o início da fase que transformaria o Pantera em
uma das bandas mais importantes da música pesada dos anos 1990.
A importância de Cowboys from Hell começa antes de sua primeira música. O Pantera não era uma banda nova
quando entrou em estúdio para gravá-lo. Formado em Arlington, Texas, no início
dos anos 1980, o grupo havia lançado quatro álbuns antes daquele momento e
passara boa parte da década trabalhando dentro do universo do Glam Metal e do
Heavy Metal tradicional. A chegada de Phil Anselmo em 1987 já havia provocado
uma mudança significativa, perceptível em Power Metal, de 1988, mas
ainda faltava encontrar a forma definitiva daquela nova identidade. O grupo
precisava abandonar de vez aquilo que já não representava seus integrantes e
descobrir o que poderia existir no lugar. Cowboys from Hell foi essa
descoberta.
Essa transformação não aconteceu de uma hora para
outra. Dimebag Darrell e Vinnie Paul Abbott já estavam desenvolvendo, dentro do
próprio Pantera, uma maneira muito particular de tocar. O guitarrista não
dependia apenas da velocidade para demonstrar sua técnica. Seus riffs tinham
peso, desenho e personalidade, enquanto Vinnie Paul compreendia a bateria como
parte fundamental da construção das músicas, utilizando o bumbo e a caixa para
criar uma sensação quase física de impacto. Rex Brown oferecia a sustentação
necessária para que guitarra e bateria pudessem trabalhar com liberdade, e Phil
Anselmo trouxe uma voz que se afastava completamente do registro agudo e
teatral associado aos primeiros anos da banda. Quando esses quatro elementos
finalmente se encontraram, o Pantera deixou de procurar uma identidade. Passou
a possuir uma.
A produção de Terry Date foi decisiva nesse
processo. O produtor, que já havia trabalhado com bandas importantes do Metal,
encontrou no Pantera uma combinação incomum de técnica e brutalidade e soube
preservar aquilo que fazia o grupo soar diferente. Cowboys from Hell foi
gravado no Pantego Sound Studio, no Texas, com a mixagem realizada no Carriage
House, em Connecticut, e masterização de Howie Weinberg no Masterdisk, em Nova
York. Foi também o primeiro de uma longa sequência de trabalhos de Terry Date
com o Pantera. A relação entre produtor e banda seria fundamental para os
discos seguintes e para a consolidação daquele som.
A guitarra de Dimebag Darrell é, naturalmente, um
dos grandes acontecimentos do álbum. Mas é importante entender por que ela soa
tão diferente. Dimebag não abandonou a técnica, Cowboys from
Hell é repleto de solos rápidos, precisos e complexos. O que mudou foi a
maneira como a técnica passou a servir à música. Os riffs ganharam prioridade,
os espaços entre os ataques se tornaram tão importantes quanto as notas e a
guitarra passou a funcionar como uma máquina de pressão. Em Cowboys from
Hell, Primal Concrete Sledge e Domination, essa
característica aparece com enorme clareza. A velocidade continua presente, mas
agora ela está subordinada ao peso.
O álbum começa a apontar para
aquilo que posteriormente seria chamado de Groove Metal. A banda não
abandonou completamente a agressividade do Thrash, mas encontrou uma maneira de
desacelerar determinados movimentos, aumentar o peso dos riffs e criar uma
sensação rítmica que fazia o ouvinte sentir a música fisicamente. A Texas State
Historical Association descreve essa linguagem desenvolvida pela banda como uma
fusão de elementos de Thrash e Groove, o chamado “power groove”, que se
tornaria uma das marcas do Pantera. O grupo ainda aperfeiçoaria essa fórmula em
Vulgar Display of Power, mas suas bases estão claramente estabelecidas
aqui.
A faixa-título apresenta essa revolução de
maneira quase didática. Cowboys from Hell começa com um riff que não
precisa de velocidade para anunciar perigo, existe uma cadência pesada, seca e
ameaçadora. Phil Anselmo entra como alguém que não está pedindo espaço, mas
tomando posse dele. O título também é mais importante do que uma simples frase
de efeito. O Pantera era uma banda do Texas, e a imagem do cowboy funcionava
como uma maneira de transformar a identidade regional em atitude. Só que esses
não eram cowboys românticos de filme antigo. Eram os “cowboys do inferno”, uma
versão urbana, agressiva e contemporânea daquele arquétipo.
A própria capa reforça essa ideia. A fotografia
utilizada mostra o Cosmopolitan Saloon, em Telluride, Colorado, em uma imagem
de 1910, com os integrantes inseridos digitalmente sobre a cena
histórica. É uma representação visual perfeita da proposta do álbum: o passado
americano está presente, mas foi invadido por uma banda que pertence a outra
época. O grupo pega um símbolo do velho Oeste e o transforma em identidade de
Metal.
Se Cowboys from Hell apresenta a nova
identidade, Primal Concrete Sledge mostra como ela poderia ser ainda
mais agressiva. Com pouco mais de dois minutos, a música não desperdiça espaço.
O riff é direto, a bateria empurra tudo para frente e a estrutura parece
construída para funcionar como uma pancada contínua. É uma demonstração de que
o Pantera havia entendido algo fundamental: peso não depende da duração de uma
música, mas da capacidade de cada elemento ocupar seu lugar com máxima
eficiência.
Psycho Holiday amplia essa linguagem sem abandonar o senso de
composição. O riff possui uma força quase contagiante, enquanto a letra
mergulha em desgaste, excesso e fuga. Já Heresy leva o álbum para uma
dimensão ainda mais pesada, trabalhando com uma combinação de velocidade e
densidade que antecipa muito do que o Pantera faria nos anos seguintes. Não são
músicas que simplesmente tentam ser mais pesadas do que as outras bandas, elas
demonstram que o grupo havia encontrado uma forma particular de organizar o
peso.
Então chega Cemetery Gates, e o álbum
mostra que sua força não estava limitada à brutalidade. Com mais de sete
minutos, a música é construída sobre contrastes. O início é melódico,
introspectivo e quase contemplativo, antes que a banda amplie gradualmente a
intensidade. Phil Anselmo demonstra uma extensão vocal que seria menos
explorada nos discos posteriores, enquanto Dimebag encontra espaço para um dos
solos mais memoráveis de sua carreira. A música funciona porque o Pantera
entende que peso também nasce do contraste. Sem delicadeza, não existe
brutalidade verdadeira, sem silêncio, o ruído perde impacto.
Essa capacidade de alternar atmosferas impede que
Cowboys from Hell seja reduzido a um exercício de força. Domination
volta a esmagar o ouvinte com um riff gigantesco, Shattered recupera
elementos mais próximos do Heavy Metal tradicional, enquanto Clash with
Reality, Medicine Man e Message in Blood continuam
desenvolvendo a linguagem que o grupo havia encontrado. The Sleep
oferece outro momento de tensão e atmosfera, antes de The Art of Shredding
encerrar o álbum reafirmando a importância de Dimebag como guitarrista. A
variedade está presente, mas nunca compromete a unidade do disco.
Outro aspecto importante é Phil Anselmo. O
vocalista não chegou para simplesmente preencher uma posição, sua
entrada ajudou a abrir uma nova possibilidade para a banda. Em Cowboys from
Hell, ele ainda conserva recursos vocais que desapareceriam ou seriam
transformados posteriormente, mas já possui a agressividade, o fraseado e a
presença que fariam dele uma das vozes mais reconhecíveis do Metal dos anos
1990. Ele não tenta competir com a guitarra de Dimebag, sua voz se encaixa no
riff e funciona como mais um instrumento de impacto.
O álbum ainda possui momentos de
transição. O Pantera estava encontrando sua linguagem enquanto a gravava. Isso
explica por que algumas músicas ainda carregam traços do Heavy Metal dos anos
1980, enquanto outras apontam diretamente para o futuro. Essa característica
não é uma fraqueza, é o que torna o disco
historicamente fascinante. Estamos ouvindo uma banda atravessar uma fronteira.
O sucesso não veio imediatamente na proporção que
sua importância histórica faria imaginar. O álbum foi lançado em 1990 e
inicialmente teve alcance limitado nas paradas, chegando posteriormente ao
número 27 da parada Heatseekers da Billboard. Sua reedição de 2010 alcançou o
número 117 da Billboard 200. O mais importante, porém, foi o efeito acumulado. Cowboys
from Hell foi o primeiro álbum do Pantera a conquistar projeção realmente
ampla e acabou recebendo certificação de platina nos Estados Unidos.
O que aconteceu depois é parte fundamental de sua
história. Em 1992, Vulgar Display of Power levaria aquela linguagem
ainda mais longe, consolidando o som do Pantera e ampliando enormemente seu
público. Mas Vulgar Display of Power só poderia existir porque Cowboys
from Hell abriu a porta. O primeiro mostrou que aquela combinação de riffs
esmagadores, bateria precisa, vocais agressivos e groove poderia funcionar em
escala internacional, o segundo transformaria essa descoberta em uma linguagem
definitiva.
Por isso, chamar Cowboys from Hell
simplesmente de “clássico do Metal” é pouco. O álbum representa uma mudança de
direção dentro de uma banda que teve coragem de abandonar uma fórmula comercial
na qual já estava estabelecida para reconstruir sua carreira praticamente do
zero. O Pantera poderia ter continuado tentando sobreviver dentro do Heavy
Metal dos anos 1980. Em vez disso, decidiu descobrir o que aconteceria se
levasse suas guitarras, sua bateria e sua identidade texana para um território
completamente novo.
É essa a razão pela qual Cowboys from Hell
merece ser lembrado. Não porque tenha
sido o primeiro álbum do Pantera, mas porque foi o disco em que o Pantera
finalmente se tornou o Pantera. Dimebag Darrell, Vinnie Paul, Rex Brown
e Phil Anselmo encontraram ali uma linguagem que seria desenvolvida nos anos
seguintes e que influenciaria uma grande quantidade de bandas. O disco não
inventou sozinho o Groove Metal, nem surgiu isolado de tudo o que havia sido
feito antes. Ele absorveu o Thrash, o Heavy Metal, o Hard Rock e até a musica sulista americana e reorganizou esses elementos dentro de uma
identidade que ninguém confundiria com outra banda.
Quando o riff de Cowboys from Hell começa,
portanto, não estamos ouvindo a abertura de um grande álbum de Metal, estamos
ouvindo uma banda deixando para trás uma década inteira e entrando em outra. O
cowboy da capa não está olhando para o passado, está atravessando a porta. E o
que encontra do outro lado é uma das sonoridades mais influentes, agressivas e
imediatamente reconhecíveis que o Heavy Metal produziria nos anos 1990.
Cowboys from Hell é o momento em que
quatro músicos do Texas descobriram que não precisavam seguir a corrente, bastava criar uma corrente própria.
Formação
da banda
Phil
Anselmo: vocais
Dimebag Darrell: guitarra
Rex Brown: baixo
Vinnie Paul: bateria
Tracklist
completa
1.
Cowboys from Hell
2.
Primal Concrete Sledge
3.
Psycho Holiday
4.
Heresy
5.
Cemetery Gates
6.
Domination
7.
Shattered
8.
Clash with Reality
9.
Medicine Man
10. Message in Blood
11. The Sleep
12. The Art of Shredding
Renato
Martins São Pedro
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