Para mim, Book of Shadows sempre carregou
uma história que os créditos do disco não contam. Oficialmente, ele é o
primeiro álbum solo de Zakk Wylde, lançado em 1996, depois de sua saída da
banda de Ozzy Osbourne e um ano após o fim do breve capítulo chamado Pride
& Glory. Mas existe uma outra maneira de ouvir esse disco, uma maneira
muito mais pessoal. Quando coloco Book of Shadows para tocar, tenho a
sensação de estar diante do segundo álbum do Pride & Glory. Eu sei que não
é. Sei que o nome na capa é Zakk Wylde, sei que a formação é outra e sei que o
Pride & Glory existiu como banda apenas durante aquele período específico, mas musicalmente, emocionalmente e, principalmente, pelo espírito que atravessa
suas músicas, Book of Shadows me parece uma continuação direta daquela
história. Como se Zakk tivesse fechado uma porta, atravessado o corredor e
continuado exatamente de onde havia parado.
Essa percepção não nasce apenas da nostalgia, existe uma ligação concreta entre os dois trabalhos. James LoMenzo, baixista do
Pride & Glory, está novamente ao lado de Zakk em Book of Shadows,
enquanto Joe Vitale assume a bateria e também participa dos teclados e piano.
Zakk, por sua vez, amplia ainda mais sua participação instrumental, tocando
guitarras elétricas e acústicas, piano, teclados, harmônica e até baixo em 1,000,000
Miles Away, além de assumir os vocais. A formação é diferente daquela do
Pride & Glory, mas o núcleo musical permanece reconhecível. E, mais
importante, permanece a mesma vontade de explorar um Zakk Wylde que não
precisava viver permanentemente cercado por amplificadores no máximo e riffs
esmagadores.
Pride & Glory, lançado em 1994,
havia mostrado um Zakk Wylde completamente diferente daquele que o público conhecia
por seu trabalho com Ozzy Osbourne. Ali estavam o Blues, o Country, o Southern
Rock, o Folk e aquela enorme ligação com a música norte-americana de raízes que
sempre existiu por trás de sua personalidade de guitarrista. A experiência foi
curta, mas deixou uma marca. Quando Book of Shadows chegou dois
anos depois, Zakk não abandonou aquela descoberta,
aprofundou-a. O peso diminuiu, os espaços aumentaram e a guitarra passou a
conversar com violões, piano, harmônica e arranjos muito mais contemplativos. O
que havia sido apresentado como uma faceta no Pride & Glory
tornou-se o centro de um álbum inteiro.
Chamar Book of
Shadows simplesmente de “álbum acústico de Zakk Wylde” seria injusto.
O disco é muito mais do que isso. Há guitarras elétricas, solos, momentos de
peso e uma assinatura instrumental que continua imediatamente reconhecível. O
que muda é a relação entre força e delicadeza. Zakk Wylde não deixa de ser o
guitarrista que conhecemos. Ele apenas tira a armadura, e em vez de disputar
espaço com o amplificador, passa a deixar a música respirar.
A abertura com Between Heaven and Hell já
estabelece essa mudança de perspectiva. A voz rouca aparece sobre uma
base acústica, acompanhada por harmônica, e a música se desenvolve com uma
tranquilidade que seria difícil imaginar em um disco de Ozzy Osbourne. Ainda
existe a guitarra que denuncia imediatamente quem está tocando, mas ela
não está ali para dominar a música, e sim para servir à atmosfera. É uma
diferença pequena na aparência e gigante na essência.
Road Back Home leva essa sensação ainda mais longe. O próprio
título poderia pertencer ao universo do Pride & Glory. A estrada, a volta
para casa, a distância e a busca por algum lugar de pertencimento são temas
recorrentes na música de raízes norte-americana e sempre tiveram uma presença
forte no trabalho de Wylde. Mas aqui eles aparecem sem a necessidade de
transformar tudo em uma celebração do excesso. Existe uma melancolia muito
particular em Book of Shadows, como se Wylde estivesse tentando organizar
pensamentos que não cabiam no repertório de uma banda de Heavy Metal.
Isso também ajuda a explicar a importância de Way
Beyond Empty. A música possui uma simplicidade que contrasta com a
reputação do músico que a escreveu. Zakk Wylde havia se tornado conhecido por
solos velozes, riffs pesados e uma técnica extraordinária, mas Book of
Shadows demonstra que sua personalidade musical não dependia da velocidade, a guitarra continua sendo sua voz, só que agora essa voz pode sussurrar.
E quando ele decide aumentar a intensidade, o
efeito é ainda maior. Sold My Soul possui peso suficiente para lembrar
que o homem por trás daquele álbum continua sendo um guitarrista de Heavy
Metal, mas a construção permanece distante de uma simples faixa pesada transplantada
para um disco acústico. Blues, Southern Rock e Folk convivem naturalmente com a
linguagem de Zakk. Essa mistura foi reconhecida desde o lançamento do álbum,
frequentemente descrito como uma combinação de elementos de Blues, Country e
Folk Rock com o peso característico do guitarrista.
Há também uma diferença importante entre Book
of Shadows e muitos discos solo de guitarristas. Zakk não utiliza o álbum
como uma vitrine para demonstrar o quanto consegue tocar. Os solos estão
presentes, e alguns são extraordinários, mas eles fazem parte das músicas. Isso
é fundamental. Book of Shadows não é um disco construído em torno da
pergunta “o que Zakk Wylde consegue fazer com uma guitarra?”. A pergunta é
outra: o que Zakk Wylde consegue dizer
quando não precisa tocar como Zakk Wylde o tempo inteiro?
A resposta é surpreendentemente ampla.
Throwin' It All Away, escrita em
referência à morte de Shannon Hoon, do Blind Melon, introduz uma dimensão ainda
mais pessoal ao álbum. Hoon e Zakk haviam desenvolvido uma amizade próxima, e a
perda do vocalista acrescentou ao repertório uma carga emocional que não
depende de virtuosismo. A música é sobre ausência, perda e a dificuldade de
compreender quando alguém simplesmente não está mais ali. Dentro de um álbum já
marcado pela introspecção, ela ganha um peso particular.
Dead as Yesterday e Too Numb to
Cry seguem essa atmosfera, mas sem transformar o disco em uma coleção de
lamentações. Existe tristeza em Book of Shadows, mas também existe
estrada, memória, amor, desejo e contemplação. O título do álbum é adequado
justamente porque as músicas parecem páginas de um diário que Zakk decidiu
transformar em música. Não existe a preocupação de criar um personagem e sim uma tentativa de registrar sentimentos.
The Things You Do quebra um pouco
essa introspecção e recupera uma atmosfera mais descontraída, enquanto 1,000,000
Miles Away amplia novamente a sensação de distância que percorre o álbum. A
música também é curiosa pela participação de Zakk no baixo, reforçando a
dimensão praticamente artesanal do projeto. Em I Thank You Child, Joe
Vitale acrescenta piano e teclados, ampliando ainda mais a paleta sonora. O
disco termina, assim, muito distante da imagem do guitarrista que havia
construído sua reputação ao lado de Ozzy.
E é justamente aí que minha comparação com Pride
& Glory ganha força. Não estou dizendo que os dois discos sejam iguais.
Não são. Book of Shadows é mais introspectivo, mais acústico e mais
pessoal. Pride & Glory tinha uma energia de banda, uma presença mais
evidente do Southern Rock e uma dinâmica coletiva diferente. O que une os dois
é outra coisa: a liberdade de Zakk
Wylde para abandonar temporariamente as expectativas do Heavy Metal e mergulhar
na música que existe por trás do metal.
Em Pride & Glory, Zakk Wylde descobriu que
poderia ser um guitarrista de Heavy Metal sem precisar fazer um disco de Heavy
Metal. Em Book of Shadows, ele leva essa descoberta às últimas
consequências. É como se tivesse percebido que aquelas influências não eram um
desvio de sua carreira, eram parte fundamental de quem ele era como músico.
O próprio fato de James LoMenzo reaparecer no
projeto reforça essa sensação. Não porque isso transforme Book of Shadows
em uma reunião do Pride & Glory, mas porque estabelece uma continuidade
humana e musical entre os dois discos. O baixista havia participado daquela
experiência anterior e agora estava novamente ao lado em uma obra que
explorava terreno semelhante. Joe Vitale, por sua vez, traz uma experiência, tendo trabalhado com nomes como Eagles e Crosby, Stills & Nash,
contribuindo para que o disco tivesse uma musicalidade que vai muito além do
universo do Metal.
A produção dos irmãos Ron e Howard Albert também
merece atenção. O trabalho preserva a naturalidade dos instrumentos e permite
que os arranjos acústicos tenham espaço. Bob Clearmountain ficou responsável
pela mixagem, enquanto Mike Lewis cuidou dos arranjos e da condução das cordas.
A produção não tenta transformar o álbum em uma gravação de Heavy Metal tocada
em volume baixo, ela entende a proposta desde o início: aqui, textura, dinâmica
e atmosfera são tão importantes quanto potência.
Existe ainda uma curiosidade que torna essa
conexão com o futuro particularmente interessante. Peddlers of Death,
incluída posteriormente entre as faixas bônus, seria regravada pelo Black Label
Society em Sonic Brew, primeiro álbum da banda de Zakk. É como se Book
of Shadows estivesse situado exatamente entre dois mundos: de um lado, o
espírito do Pride & Glory; do outro, o nascimento do Black Label Society.
E, no meio deles, está Zakk Wylde tentando descobrir qual seria sua próxima casa musical.
A história, aliás, não terminou completamente em
1996. Vinte anos depois, em 2016, Zakk Wylde retomaria deliberadamente essa
mesma linguagem em Book of Shadows II. O segundo volume não possui o
mesmo caráter de descoberta do original, mas sua existência é reveladora. Zakk Wylde voltou àquele universo de violões, piano, Blues, Country, Folk e introspecção,
como quem revisita uma parte de sua identidade que nunca havia desaparecido. E
isso reforça ainda mais a sensação de continuidade entre Pride & Glory
e o primeiro Book of Shadows: aquela não era uma experiência isolada,
mas uma vertente musical que ele carregaria consigo durante toda a carreira.
É impossível ignorar também o contexto em que o
álbum surgiu. Zakk Wylde vinha de anos trabalhando com Ozzy Osbourne e acabava de
atravessar a experiência do Pride & Glory. Em vez de escolher imediatamente
o caminho mais óbvio e voltar ao Heavy Metal, ele fez um disco que exigia outra
postura do ouvinte. Book of Shadows não pede que você aumente o volume
para sentir o impacto, pede que você preste atenção.
Um disco que envelheceu tão bem. A técnica de Zakk Wylde continua impressionante, mas não é
ela que sustenta o álbum, o que permanece é a atmosfera. Há uma sensação de
estrada, de fim de tarde, de violão encostado em algum canto e de histórias
sendo contadas sem pressa, é um disco que funciona particularmente bem quando o
mundo está quieto.
Para mim, porém, existe algo ainda maior nessa relação com Pride & Glory. Quando ouço Book of Shadows, não consigo tratá-lo como uma obra completamente isolada. Aquele Zakk está ali. O mesmo músico que encontrou no Southern Rock, no Blues, no Country e no Folk uma maneira diferente de expressar sua identidade. A diferença é que agora não existe uma banda chamada Pride & Glory ao lado dele, existe Zakk Wylde, carregando aquela experiência consigo e continuando a escrever. É por isso que, mesmo sabendo que não é, Book of Shadows continua sendo, para mim, o segundo disco do Pride & Glory.
E essa contradição é uma das coisas
mais legais sobre o álbum. Oficialmente, ele é o primeiro trabalho solo de
Zakk Wylde. Historicamente, é uma ponte entre o fim do Pride & Glory e o
nascimento do Black Label Society. Musicalmente, é uma continuação natural de
uma história que havia começado dois anos antes, e, pessoalmente, é impossível
ouvi-lo sem enxergar aquela banda novamente.
Book of Shadows merece ser lembrado porque registra Zakk Wylde em um momento raro de liberdade. Ele poderia ter usado seu primeiro álbum solo para reafirmar tudo aquilo que o público já conhecia, mas preferiu mostrar aquilo que existia por trás do peso: tirou o excesso, deixou os amplificadores respirarem, colocou o violão no centro e permitiu que Blues, Country, Folk e Southern Rock ocupassem o espaço que sempre tiveram dentro de sua música. O resultado não é o segundo álbum do Pride & Glory.
Mas, para quem
ouviu aquele primeiro disco com a mesma paixão que eu, é difícil não sentir que
Zakk Wylde simplesmente virou a página e continuou escrevendo a mesma história.
Formação
Zakk Wylde: vocais, guitarras
elétricas e acústicas, piano, teclados, harmônica, backing vocals e baixo em 1,000,000
Miles Away
James LoMenzo: baixo
Joe Vitale: bateria, teclados e
piano em I Thank You Child
John Sambataro: backing vocals
em Way Beyond Empty
Tracklist
completa
1.
Between Heaven and Hell
2.
Sold My Soul
3.
Road Back Home
4.
Way Beyond Empty
5.
Throwin' It All Away
6.
What You're Look'n For
7.
Dead as Yesterday
8.
Too Numb to Cry
9.
The Things You Do
10. 1,000,000 Miles Away
11. I Thank You Child
Renato Martins São
Pedro
Southern Rock Site Brazil










