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Os créditos dos discos contam outra história

 


As conexões escondidas nos encartes revelam uma rede de músicos, bandas e amizades que ajudou a construir o Southern Rock.

Por Renato Martins São Pedro

Eu estava folheando uma antiga edição da Gritz Magazine, de 2005, uma revista que guardo com carinho desde a época em que fui assinante e o genial Michael Buffalo Smith havia escrito sobre as conexões entre grandes músicos e bandas do Southern Rock E isso me fez parar por alguns minutos e pensar: “Espera aí, deixa eu conferir tudo isso.” Fui atrás dos meus discos, abri os créditos, confrontei informações e reencontrei histórias que sempre estiveram ali, escondidas nos encartes dos álbuns. E quanto mais eu conferia, mais interessante ficava perceber quantos nomes importantes atravessaram aquelas gravações.

É aí que começa uma das coisas que mais gosto nessa música: descobrir quem está por trás de uma gravação. Você coloca um disco de Southern Rock para tocar, acompanha a primeira faixa, a segunda, a terceira e, em algum momento, pega o encarte para conferir os músicos. De repente aparece um nome conhecido, alguém que você já ouviu em dezenas de outros discos, um músico de outra banda que entrou no estúdio para tocar uma guitarra, um órgão, uma percussão, cantar, escrever ou simplesmente deixar sua assinatura naquela gravação. Para quem gosta de pesquisar a história por trás dos discos, esses encontros são pequenos tesouros.

O Southern Rock dos anos 70 foi construído também dessa maneira. As bandas estavam na estrada, dividiam palcos, estúdios, produtores, amizades e influências, e muita coisa dessa proximidade acabou registrada nos discos. Charlie Daniels foi um colaborador importante do The Marshall Tucker Band e participou de diferentes gravações de estúdio do grupo. Jaimoe, do The Allman Brothers Band, também aparece em trabalhos do Marshall Tucker Band, enquanto outros nomes importantes do blues e do rock sulista cruzaram os mesmos estúdios e deixaram suas marcas em discos que hoje são considerados clássicos.

E aí aparece um nome que amplia essa história de maneira espetacular: Al Kooper. O homem que tocou com Bob Dylan, ajudou a fundar o Blood, Sweat & Tears e participou de trabalhos fundamentais do rock americano foi também uma peça decisiva na história do Lynyrd Skynyrd. Kooper produziu Pronounced ’Lĕh-’nérd ’Skin-’nérd e colocou suas próprias mãos em várias faixas. Tocou órgão, Mellotron, baixo, mandolim e participou dos vocais de apoio. Aquele sujeito que já carregava uma grande história dentro do rock estava ali, no estúdio, ajudando a construir um dos discos fundamentais do Southern Rock.

Quando você começa a seguir essas conexões, os créditos dos álbuns passam a contar uma história paralela àquela registrada nas capas. Jaimoe também aparece em trabalhos do Wet WillieZakk Wylde muitos anos depois, colocou sua guitarra em uma gravação do BlackfootKid Rock em uma música do Skynyrd. Músicos circulavam entre bandas, compositores colaboravam com outros artistas e grandes nomes entravam em estúdios para acrescentar algo à música de amigos e parceiros. Cada crédito abre uma nova porta e, atrás dela, aparece outra história. Um disco nunca termina na última faixa. Você olha o encarte, pesquisa um nome, descobre uma participação, vai atrás de outro álbum e, quando percebe, está diante de uma rede gigantesca de músicos que se encontravam de maneira natural. O Southern Rock tinha essa característica muito forte: ninguém precisava ficar preso ao próprio grupo, a música circulava, os músicos circulavam e as ideias viajavam junto.

Tantos discos daquela época continuam revelando detalhes para quem escuta com atenção. Você conhece o álbum há anos, mas um dia descobre uma participação que tinha passado despercebida e aquela informação muda a maneira como você escuta determinada faixa. Para um fã que gosta de história, créditos e encartes, isso é praticamente uma segunda audição.
Esses encontros ajudam a explicar uma parte importante da força do Southern Rock, a história não foi construída apenas pelas bandas que aparecem nas capas dos discos, mas também por todos aqueles músicos que entraram em estúdio, pegaram um instrumento, escreveram uma música ou emprestaram a voz e deixaram sua marca. Quando grandes artistas colaboram entre si, o disco deixa de ser apenas um registro de uma banda e passa a ser também um pedaço da história de uma comunidade musical inteira.

Adoro abrir um disco antigo, olhar os créditos e descobrir quem estava ali. Cada nome pode levar a outra história, outra banda, outro disco e outra descoberta. E a minha velha Gritz Magazine de 2005 conseguiu fazer comigo hoje: me fez fechar a revista, abrir os discos e voltar a mergulhar nessa história que nunca termina.