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Cracker Blues - Prata do Carrasco (2014)

 


São Paulo pode parecer um lugar improvável para o nascimento de uma banda tão profundamente ligada ao Blues, ao Country e ao Southern Rock. Mas é dessa aparente contradição que a Cracker Blues extrai uma de suas maiores forças. Formada na capital paulista no fim dos anos 1990, a banda construiu sua identidade a partir de referências que atravessaram o Mississippi, o Texas e o Sul dos Estados Unidos, mas encontrou uma maneira própria de transformar esse repertório cultural em música brasileira. Prata do Carrasco, lançado em 2014, representa o momento em que essa identidade ganha forma mais definitiva. Depois de anos de estrada e do primeiro álbum, Entre o México e o Inferno, de 2009, a Cracker Blues já não precisava provar que conhecia suas raízes, era hora de transformá-las em linguagem própria.

Essa é a razão principal pela qual Prata do Carrasco merece ser lembrado. O álbum não vale apenas pela qualidade de suas músicas ou pela competência dos quatro músicos que o gravaram, seu significado está na maneira como a Cracker Blues absorve uma tradição musical estrangeira sem se tornar uma simples reprodução dela. O Blues Texano, o Country, o Southern Rock, o Blues acústico e o Rock aparecem como elementos de uma linguagem muito mais ampla, mas as letras em português, os personagens, o humor, a atmosfera e a maneira de contar histórias pertencem à banda. O resultado é uma música que olha para a estrada norte-americana, para os velhos westerns e para a tradição do Blues, mas fala a partir de São Paulo.

A história da Cracker Blues começou justamente pelo contato profundo com essa tradição. Antes de consolidar seu repertório autoral, o grupo passou por músicas de Robert Johnson, ZZ TOP, The Allman Brothers Band, Jimi Hendrix, Stevie Ray Vaughan, Sonny Boy Williamson II e Eric Sardinas, entre outros nomes fundamentais. Essa experiência aparece no DNA da banda, especialmente na utilização da guitarra slide e na combinação entre Blues, Rock e Country. O primeiro álbum, Entre o México e o Inferno, já havia levado esse universo para composições próprias em português, Prata do Carrasco dá o passo seguinte: em vez de apenas estabelecer as credenciais da banda, transforma essas influências em uma identidade ainda mais coesa.

A formação responsável por essa transformação é um quarteto particularmente bem resolvido. Paulo Coruja assume vocais e gaita, Marceleza “Bottleneck” trabalha guitarra, dobro e violão, Paulo Krüger segura o baixo e Jeferson Gaúcho fica responsável pela bateria, percussão e backing vocals. É uma formação que permite à banda explorar tanto o peso elétrico quanto as possibilidades acústicas de sua música. A guitarra slide de Marceleza é uma das assinaturas mais evidentes, mas não funciona como mero ornamento estilístico, ela cria movimento, tensão e atmosfera, enquanto a gaita de Coruja acrescenta ao conjunto aquela sensação de estrada e poeira que atravessa boa parte do repertório. O resultado é pesado quando precisa ser, acústico quando a música pede e sempre muito atento ao espaço que cada instrumento ocupa.

A produção de Edu Gomes, responsável pela gravação, mixagem e produção geral, preserva justamente essa característica orgânica, não existe a necessidade de esconder a banda atrás de uma produção excessivamente elaborada. Prata do Carrasco funciona porque seus instrumentos respiram e porque a personalidade dos músicos permanece no centro da gravação. A masterização ficou a cargo de Daniel “Lanchinho”, enquanto os arranjos foram desenvolvidos pela própria Cracker Blues. A capa e o projeto visual também nasceram de dentro da banda, com Paulo Coruja responsável pela ilustração e layout final e Jeferson Gaúcho pelo logotipo. Música e imagem, portanto, caminham na mesma direção.

Essa direção aponta para um universo muito particular. A Cracker Blues gosta da estrada, mas não da estrada turística. Seus personagens estão fugindo de alguma coisa, carregando problemas, procurando um lugar para desaparecer ou simplesmente tentando sobreviver ao próximo quilômetro. A atmosfera dos westerns cinematográficos está presente na estética do grupo, com chapéus, botas e coletes, mas também aparece nas letras e nos arranjos. A banda constrói uma espécie de faroeste particular, só que filtrado pela experiência brasileira e pela imaginação de músicos que fizeram sua história no circuito paulistano.

Trem do Inferno ao Paraguai deixa essa proposta evidente desde os primeiros minutos. A música coloca o ouvinte em movimento imediatamente, com uma narrativa de fuga, perseguição e sobrevivência. Não é apenas uma faixa de abertura eficiente, ela estabelece o universo conceitual do álbum. A estrada aparece como necessidade, não como passeio, o personagem precisa seguir porque ficar significa enfrentar aquilo de que está tentando escapar. O calor, os mosquitos, os abutres e o destino rumo ao Paraguai formam uma paisagem quase cinematográfica, mas a linguagem continua brasileira, direta e cheia de personalidade.

Em Canto Obscuro de um Bar, a estrada dá lugar ao ambiente fechado e noturno. A Cracker Blues desloca sua narrativa para dentro de um espaço onde histórias se cruzam, copos se encontram e personagens carregam seus próprios fantasmas. Essa alternância entre estrada, bar, fuga e solidão ajuda a criar a unidade do álbum. Não estamos diante de onze músicas simplesmente reunidas em uma sequência, existe um universo comum conectando essas histórias, mesmo quando os arranjos mudam de direção. O próprio repertório revela essa variedade, passando por Chorando Sobre Cafeína, Toada para o Cão Ernesto, Caveira Chicana, A Discreta Arte do Mau Olhado e Lágrima para Ernest Borgnine antes de chegar a momentos ainda mais acústicos.

Outro mérito está na maneira como Paulo Coruja utiliza a voz. Não existe uma tentativa de reproduzir artificialmente algum cantor norte-americano, sua interpretação tem aspereza, peso e personalidade suficientes para sustentar as histórias do disco sem perder a inteligibilidade das letras. A gaita desempenha papel igualmente importante, funcionando em diálogo permanente com as guitarras. É uma característica que aproxima a Cracker Blues da tradição mais antiga do Blues, mas que também se encaixa naturalmente no Blues Rock mais pesado desenvolvido pela banda. A imprensa especializada chegou a destacar justamente essa combinação entre a voz, a gaita e o trabalho de slide como elementos fundamentais da identidade do grupo.

E é nesse ponto que Prata do Carrasco encontra o Southern Rock. A banda não precisa reproduzir a fórmula de nenhuma das grandes formações do gênero para dialogar com sua tradição. A presença de guitarras, o sentido de estrada, a mistura de Blues com Country, a narrativa de personagens errantes e a liberdade dos arranjos colocam a Cracker Blues dentro de uma mesma família musical. Referências a ZZ TOP e Lynyrd Skynyrd podem ser identificadas no universo sonoro que alimenta a banda, mas o disco não depende delas para existir, a Cracker Blues absorveu essas influências e as colocou dentro de uma estrutura própria, em português e com uma identidade brasileira muito clara.

Óleo talvez seja um dos melhores exemplos dessa relação entre música e movimento. A estrada volta a assumir o protagonismo, mas agora como elemento permanente da existência. É uma imagem recorrente no Blues e no Southern Rock, mas a Cracker Blues não a trata como clichê, a estrada aqui é desgaste, distância, combustível, tempo e liberdade. É aquilo que mantém o personagem vivo e, ao mesmo tempo, aquilo que o impede de encontrar repouso e esse conflito é uma das características que dão profundidade ao repertório do álbum.

Na outra ponta do disco está Ciganos Velhos & Músicas Tristes, encerramento que reduz a velocidade e deixa o ambiente acústico assumir o controle. Violão, slide e gaita constroem uma paisagem muito diferente daquela encontrada nos momentos mais pesados do álbum. A música tem uma atmosfera de despedida, como se depois de toda a poeira levantada ao longo do caminho finalmente chegasse a hora de sentar, respirar e olhar para trás. O efeito é especialmente interessante porque demonstra que a força da Cracker Blues nunca dependeu exclusivamente do volume, a banda consegue criar peso também através do silêncio, da textura e da escolha dos instrumentos.

Essa diversidade ajuda a explicar por que Prata do Carrasco envelheceu bem em doze anos. O álbum está ligado a uma tradição musical específica, mas não depende de uma época ou de uma tendência. Blues, Country, Southern Rock e Rock and Roll são linguagens que atravessam décadas porque estão fundamentadas em experiências humanas universais: estrada, solidão, desejo, conflito, perda, bebida, amizade, fuga e sobrevivência. A Cracker Blues entende isso e transforma esses elementos em histórias próprias. Por isso o disco não soa como uma tentativa de recriar o passado, ele soa como uma banda brasileira conversando com o passado para construir seu próprio presente.

Também é significativo que a banda tenha construído essa trajetória a partir de São Paulo. A Cracker Blues se desenvolveu em uma cidade que pouco tem a ver geograficamente com o Delta do Mississippi ou com as paisagens rurais do Sul dos Estados Unidos, mas que possui uma tradição igualmente forte de absorção e transformação de referências musicais estrangeiras. A experiência da banda nos palcos, em bares, festivais, unidades do SESC e eventos como a Virada Cultural, além da abertura de shows para artistas internacionais, ajudou a transformar aquelas influências de estúdio em uma linguagem de palco. Prata do Carrasco é, nesse sentido, também um retrato de uma banda acostumada a tocar.

O álbum tem apenas onze músicas e pouco mais de trinta e sete minutos, mas consegue construir um mundo inteiro nesse espaço. A sequência começa com uma fuga e termina com uma melancolia acústica. Entre uma coisa e outra, passam bares, estradas, personagens, caveiras, cachorros, óleo, mau olhado e referências cinematográficas. É um repertório que poderia facilmente cair na caricatura se fosse tratado apenas como estética. A Cracker Blues escapa dessa armadilha porque existe música por trás da imagem e, principalmente, porque existe uma compreensão verdadeira da tradição que está sendo utilizada.

Prata do Carrasco merece ser lembrado, portanto, como um dos trabalhos que ajudam a mostrar que o Blues, o Country e o Southern Rock podem ganhar novas identidades quando encontram músicos dispostos a absorver suas raízes sem simplesmente copiá-las. A Cracker Blues conhece o idioma musical que escolheu falar, mas não se limita a repetir aquilo que já foi feito, ela acrescenta sotaque, personagens, humor, paisagens e histórias próprias. O resultado é um disco brasileiro de Blues Rock que não precisa esconder suas influências e, ao mesmo tempo, não depende delas para justificar sua existência.

Quando Ciganos Velhos & Músicas Tristes chega ao fim, a sensação não é de que uma coleção de músicas terminou, e sim de que uma viagem acabou por alguns minutos. A estrada continua lá, em algum lugar, esperando pelo próximo acorde, pelo próximo personagem e pela próxima história. E a melhor definição para Prata do Carrasco: um disco em que a Cracker Blues encontrou sua própria estrada e mostrou que não precisava atravessar o oceano para pertencer a uma tradição que aprendeu a amar. bastava fazer aquilo que toda grande banda precisa fazer: transformar suas influências em identidade.

Formação da banda

Paulo Coruja: vocais e gaita
Marceleza “Bottleneck”: guitarra, dobro e violão
Paulo Krüger: baixo e backing vocals
Jeferson Gaúcho: bateria, percussão e backing vocals

Produção, gravação e mixagem: Edu Gomes
Masterização: Daniel “Lanchinho”
Arranjos: Cracker Blues
Capa e layout: Paulo Coruja
Logotipo: Jeferson Gaúcho
Fotos: Victor Daguano

Tracklist completa

1.    Trem do Inferno ao Paraguai

2.    Canto Obscuro de um Bar

3.    Chorando Sobre Cafeína

4.    Toada para o Cão Ernesto

5.    Caveira Chicana

6.    A Discreta Arte do Mau Olhado

7.    Lágrima para Ernest Borgnine

8.    Jaula Enferrujada

9.    O Chão Sob Minhas Botas

10. Óleo

11.    Ciganos Velhos & Músicas Tristes

Renato Martins São Pedro

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