Blackberry Smoke - The Whippoorwill (2012)
Atlanta, Geórgia, início dos anos 2000. Uma banda
chamada Blackberry Smoke começa a construir sua história tocando a música que
seus integrantes amavam, percorrendo clubes, bares e palcos pequenos enquanto
acumulavam experiência à custa de estrada. Não havia atalho, o grupo precisou
tocar, tocar novamente e tocar mais uma vez até transformar suas influências em
uma identidade própria. Quando The Whippoorwill chegou às lojas, em 14 de
agosto de 2012, o Blackberry Smoke já havia lançado Bad Luck Ain't No Crime e Little
Piece of Dixie, mas ainda estava diante de uma oportunidade decisiva. O
terceiro álbum seria o momento em que aquela banda de Atlanta deixaria de ser
apenas uma promessa do Southern Rock contemporâneo para se tornar uma das
principais responsáveis pela continuidade do gênero no século XXI.
Não simplesmente porque contém algumas das
melhores músicas da carreira do Blackberry Smoke, nem porque apresenta uma
banda tecnicamente afiada, mas importância deste disco está no equilíbrio que o
grupo encontrou entre tradição e personalidade. O Southern Rock já possuía uma
história quando Charlie Starr, Paul Jackson, Richard Turner, Brit Turner e
Brandon Still entraram em estúdio. O desafio não era repetir Lynyrd Skynyrd,
The Allman Brothers Band, The Marshall Tucker Band ou qualquer outro nome que
tivesse aberto aquela estrada décadas antes, o desafio era mostrar que aquela
linguagem ainda poderia dizer alguma coisa em 2012. The Whippoorwill é a
resposta do Blackberry Smoke.
A trajetória até ali ajuda a entender por que o
disco possui tanta segurança. O Blackberry Smoke havia sido formado em Atlanta
em 2000 e construiu sua reputação principalmente no palco. A banda desenvolveu
uma rotina de turnês extremamente intensa, chegando a realizar mais de 250
apresentações por ano. Essa experiência é perceptível no álbum. Há uma
diferença entre uma banda que conhece o Southern Rock por seus discos favoritos
e outra que aprendeu a tocá-lo diante de públicos diferentes, noite após noite.
O Blackberry Smoke já havia passado dessa segunda etapa. Quando entrou em
estúdio para The Whippoorwill, sabia exatamente o que queria que aquela música
fosse.
A formação era particularmente importante para
esse resultado. Charlie Starr assumia vocais e guitarra, Paul Jackson dividia
as guitarras e os vocais, Richard Turner segurava o baixo e também contribuía
nos vocais, Brandon Still acrescentava piano e órgão, enquanto Brit Turner
comandava a bateria. Era uma formação que permitia ao grupo trabalhar com todos
os elementos essenciais do Southern Rock sem transformar o álbum em uma
reprodução arqueológica dos anos 1970. As guitarras estavam lá,
mas também havia órgão, piano, banjo, pedal steel, harmonias vocais e uma seção
rítmica capaz de transitar entre o Rock, o Country, o Blues e o Gospel.
O momento da banda também coincidiu com uma
mudança importante em sua trajetória profissional. The Whippoorwill foi o
primeiro álbum do Blackberry Smoke lançado pela Southern Ground Records, selo
associado a Zac Brown. O próprio Zac Brown participou da produção ao lado da
banda, Clay Cook e Matt Mangano. Essa parceria não transformou o Blackberry
Smoke em uma banda de Country comercial. O que aconteceu foi mais interessante:
a estrutura proporcionada pelo novo selo permitiu que o grupo apresentasse sua
música para um público muito maior sem abandonar aquilo que o havia levado até
ali. O resultado foi significativo. O álbum chegou ao número 8 da parada
Country da Billboard e também entrou no Top 40 da Billboard 200.
A produção merece atenção justamente porque não
tenta polir o Blackberry Smoke até que ele deixe de soar como uma banda de
Southern Rock. O disco mantém uma sensação orgânica, com guitarras que ocupam
espaço, teclados que acrescentam textura e uma bateria que não precisa ser
excessivamente tratada para produzir impacto. A produção compartilhada entre
Blackberry Smoke, Zac Brown, Clay Cook e Matt Mangano preserva a sensação de
banda tocando junta. A mixagem ficou a cargo de Matt Wallace e Mike Fraser,
enquanto Stephen Marcussen realizou a masterização.
Six Ways to Sunday abre o álbum com uma confiança
quase provocadora. A guitarra entra imediatamente, o ritmo se estabelece e
Charlie Starr canta com aquela voz que se tornaria uma das grandes marcas do
Southern Rock contemporâneo. A música tem humor, sensualidade e uma espécie de
arrogância bem-humorada, mas cumpre uma função muito mais importante dentro do
disco: apresenta o Blackberry Smoke como uma banda que conhece perfeitamente os
códigos do gênero e não tem medo de utilizá-los. A referência ao passado está
evidente, inclusive na construção da guitarra, mas a execução é suficientemente
própria para que a música não dependa de sua influência para funcionar.
Logo depois, Pretty Little Lie e Everybody Knows
She's Mine mostram outra característica importante do álbum: o Blackberry Smoke
sabe fazer músicas imediatamente acessíveis sem transformá-las em produtos
descartáveis. Existe melodia, existem refrões fortes e existe uma capacidade de comunicação, mas a banda mantém aquela aspereza que impede o
repertório de cair na produção excessivamente limpa do Country mainstream. O
Rock continua presente na estrutura, e o Southern Rock permanece como
linguagem, não como fantasia estética.
Mas é em One Horse Town que The Whippoorwill
começa a revelar sua verdadeira dimensão. A música abandona a imagem fácil do
Sul como território de festas, estradas e cerveja e olha para uma realidade
muito menos confortável. Charlie Starr e seus parceiros de composição descrevem
uma pequena cidade onde os filhos crescem repetindo a vida dos pais, onde os
sonhos são limitados pelo lugar onde se nasceu e onde permanecer pode ser tão
difícil quanto partir. A música não apresenta uma solução fácil para esse
conflito e essa ausência de resposta que lhe dá força.
Esse é um dos momentos em que o Blackberry Smoke
se distancia definitivamente de uma simples banda de revival. One Horse Town
poderia ter sido apenas mais uma história sobre uma cidade pequena e seus
habitantes. Em vez disso, transforma o cenário em uma reflexão sobre escolhas,
família, fracasso, responsabilidade e a dificuldade de escapar do destino que
outras pessoas imaginaram para você. O Washington Post destacou justamente
esses retratos de pequenas cidades como alguns dos momentos mais contundentes
do álbum, enquanto outras análises apontaram a música como um dos grandes
centros emocionais do trabalho.
Essa humanidade também aparece em Ain't Much Left
of Me. O personagem não é apresentado como um herói invencível, ele está
cansado, marcado pelas escolhas que fez e consciente de que carregou mais peso
do que gostaria. O Southern Rock sempre teve personagens assim, mas o
Blackberry Smoke os trata com uma proximidade que impede a caricatura. O homem
das músicas de Charlie Starr não é um estereótipo de cowboy ou um personagem
criado para decorar uma camiseta, é alguém que trabalha, erra, ama, perde e
tenta continuar.
É essa dimensão que faz a faixa-título ganhar
tanta importância. The Whippoorwill é uma música sobre perda, saudade e
recomeço, construída com uma delicadeza que contrasta com a energia de boa
parte do álbum. Piano, órgão, guitarra e a voz de Charlie Starr criam um
ambiente quase noturno. A música não precisa de grandes explosões para produzir
impacto, apenas cresce pela emoção e pela maneira como Starr deixa sua voz
carregar o peso daquilo que está sendo contado. A faixa foi destacada por
diferentes críticos como um dos pontos altos do disco, justamente por revelar
um Blackberry Smoke mais melancólico e contemplativo.
E aqui está uma das grandes qualidades do álbum:
o Blackberry Smoke não confunde Southern Rock com velocidade. O gênero sempre
teve espaço para baladas, Gospel, Country, Blues e momentos de contemplação, o
que a banda faz em The Whippoorwill é recuperar essa amplitude. One Horse Town
e The Whippoorwill não são exceções que interrompem um disco de Rock, são
fundamentais para explicar a identidade do disco.
Lucky Seven recupera a malandragem e o espírito
de estrada, enquanto Leave a Scar assume uma postura mais desafiadora. A música
funciona quase como uma declaração de princípios para uma banda que estava
justamente tentando deixar sua própria marca. O título é especialmente
apropriado para aquele momento da carreira. O Blackberry Smoke não precisava
mudar o mundo, e sim deixar uma cicatriz suficientemente profunda para
provar que havia passado por ali.
Crimson Moon, coescrita com Zac Brown e Matt
Mangano, acrescenta outra tonalidade ao repertório, aproximando Country e
Southern Rock sem criar uma divisão entre os dois. Esse trânsito constante é
uma das razões pelas quais The Whippoorwill encontrou espaço tanto nas paradas
Country quanto nas de Rock. A banda não estava tentando escolher entre dois
públicos, sua música já existia justamente naquele território intermediário.
Shakin' Hands with the Holy Ghost e Sleeping Dogs
também mostram como o Blackberry Smoke trabalha com referências tradicionais
sem transformá-las em peças de museu. Órgão, guitarras, harmonias e a voz rouca
de Starr fazem parte de uma tradição reconhecível, mas o conjunto possui uma
energia contemporânea. A banda não toca como se estivesse em 1974, toca como
uma banda de 2012 que conhece profundamente 1974.
Essa distinção é importante porque uma das
maiores ameaças ao Southern Rock contemporâneo sempre foi transformar identidade
em caricatura. O gênero possui símbolos tão fortes que seria fácil produzir
músicas repletas de guitarras, referências ao Sul, estradas e pequenas cidades
sem dizer absolutamente nada. The Whippoorwill escapa disso porque, por trás da
estética, existe composição. Existe personagem, conflito e xiste uma
tentativa real de contar alguma coisa.
Até mesmo as músicas mais festivas carregam essa
segurança. Six Ways to Sunday e Everybody Knows She's Mine sabem exatamente o
que estão fazendo, não precisam pedir desculpas pela diversão. O Southern Rock
também nasceu da celebração, do bar, da estrada, do encontro entre amigos e da
vontade de tocar alto. O Blackberry Smoke entende que profundidade e diversão
não são conceitos incompatíveis. Um disco pode falar sobre fracasso em uma
música e celebrar a vida na seguinte sem perder coerência.
Essa liberdade vem, em grande parte, da
experiência de palco. O Blackberry Smoke já havia construído sua reputação
tocando ao lado de nomes como The Marshall Tucker Band, George Jones, Lynyrd Skynyrd e ZZ TOP. Essa convivência com artistas de diferentes gerações ajudou a
colocar a banda dentro de uma linhagem real, não apenas imaginária, eles não
estavam simplesmente estudando o Southern Rock, estavam participando da sua
continuidade.
Também é importante lembrar que The Whippoorwill
não surgiu em um momento particularmente fácil para o gênero. O Southern Rock
já não ocupava o espaço cultural que havia conquistado nos anos 1970, enquanto
o Country mainstream caminhava cada vez mais para uma produção pop. O
Blackberry Smoke apareceu em uma posição interessante: podia dialogar com o
Country sem se tornar Country de rádio e podia fazer Southern Rock sem viver
exclusivamente de nostalgia. Essa independência estética ajudou o grupo a
construir uma identidade que permaneceria forte nos anos seguintes.
A própria recepção crítica da época captou essa
característica. O AllMusic observou que a banda conseguia unir Country e Rock
de maneira tão natural que os dois gêneros pareciam existir simultaneamente,
enquanto o Washington Post destacou a combinação entre realismo áspero e charme
Country. Outras análises foram menos generosas com algumas das referências mais
tradicionais do repertório, mas mesmo as críticas reconheceram a qualidade da
execução e a capacidade da banda de transformar influências conhecidas em algo
convincente.
O encerramento com Up the Road é particularmente
adequado. Depois de atravessar festas, romances, pequenas cidades,
arrependimentos, fé, liberdade e solidão, o disco termina olhando novamente
para a estrada. É como se a viagem não pudesse realmente terminar. O Blackberry
Smoke poderia ter fechado o álbum com uma grande celebração, mas preferiu deixar o
ouvinte diante de uma estrada aberta.
Uma estrada que vem do passado, passa por Atlanta
e continua adiante. Atrás dela estão Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band,
The Marshall Tucker Band, ZZ TOP, The Black Crowes e toda uma tradição de músicos
que provaram que o Sul dos Estados Unidos poderia produzir uma música com
identidade própria. À frente está uma banda como o Blackberry Smoke,
encarregada de mostrar que essa linguagem não precisava morrer junto com sua
primeira geração.
The Whippoorwill merece ser lembrado porque foi o
disco em que o Blackberry Smoke deixou de pedir licença para ocupar esse lugar.
A banda não reinventou o Southern Rock, e nem precisava, sua conquista foi
outra, mostrando que ainda era
possível fazer Southern Rock com verdade, personalidade e relevância, sem
transformar o passado em fantasia e sem abandonar aquilo que tornou o gênero tão especial.
Quando Charlie Starr canta sobre a pequena
cidade, sobre os erros cometidos, sobre a vontade de partir ou sobre aquilo que
ficou para trás, o Sul deixa de ser cenário e passa a ser personagem. Quando as
guitarras entram, a tradição aparece, quando o órgão de Brandon Still se junta
à banda, quando Brit Turner empurra o ritmo e quando Richard Turner e Paul
Jackson fecham a estrutura, o passado encontra uma banda que está plenamente
viva.
E é isso que faz The Whippoorwill tão importante
dentro da história do Blackberry Smoke e do próprio Southern Rock. O disco não olha para trás para reviver uma
época, olha para trás para descobrir o que ainda pode ser feito com tudo
aquilo que aquela época deixou.
Formação da banda
Charlie Starr: vocais, guitarra,
pedal steel e banjo
Paul Jackson: guitarra e vocais
Richard Turner: baixo e vocais
Brandon Still: piano e órgão
Brit Turner: bateria e percussão
Músicos adicionais
Clay Cook: percussão e
harmônio
Matt Mangano: guitarra acústica
Maureen Murphy, Lo Carter e Kyla Jade:
backing vocals
Sarah Dugas: backing vocals
Arnold McCuller: backing vocals
Brendan Wallace: gaita de foles
Tracklist completa
1.
Six Ways to Sunday
2.
Pretty Little Lie
3.
Everybody Knows She's Mine
4.
One Horse Town
5.
Ain't Much Left of Me
6.
The Whippoorwill
7.
Lucky Seven
8.
Leave a Scar
9.
Crimson Moon
10. Ain't Got the Blues
11. Sleeping Dogs
12. Shakin' Hands with the Holy Ghost
13. Up the Road
Southern Rock Site Brazil









