ZZ TOP - XXX (1999)
Eu conheci o ZZ TOP de um jeito completamente
diferente do que imaginaria hoje. Em 1998, durante uma viagem aos Estados
Unidos, fui a um show da banda a convite dos meus primos. Eu praticamente não
conhecia ZZ TOP. Não tinha acompanhado a trajetória do trio, não conhecia sua
discografia e muito menos fazia ideia da dimensão que aquela banda tinha dentro
do Rock americano. Fui ao show porque fui convidado. Saí dele com uma
descoberta que mudaria minha vida musical para sempre.
Foi naquela noite que eu conheci o Southern Rock.
O ZZ TOP estava fazendo alguns shows esporádicos naquela época pois acabara de
gravar o álbum que viria a se chamar XXX. O disco só seria lançado em setembro
de 1999, mas duas de suas músicas já faziam parte do repertório ao vivo. Uma
delas era Fearless Boogie. A outra era Poke Chop Sandwich. Eu não sabia que
eram músicas novas, não sabia que fariam parte de um futuro álbum, para mim,
naquele momento, eram simplesmente duas músicas de uma banda que eu estava descobrindo
diante de um palco americano. E existe uma ironia nisso: Fearless Boogie,
que continua sendo uma das melhores coisas de XXX, foi uma das
músicas que me fez sair daquele show ainda mais fascinado pelo ZZ TOP. Poke
Chop Sandwich, por outro lado, também estava ali, mas eu ainda não tinha como
imaginar o quanto aquela música me incomodaria quando finalmente conhecesse o
disco.
O problema é que havia outra dificuldade naquela descoberta. Em 1998, eu estava nos Estados Unidos como estrangeiro e não tinha acesso fácil ao catálogo que queria conhecer. Não existia por lá nada equivalente à nossa Galeria do Rock. A Galeria do Rock é uma particularidade nossa, e continua sendo. No Brasil, um apaixonado por música pode entrar em um lugar como aquele e encontrar uma quantidade absurda de discos, bandas, estilos e gravações que dificilmente encontraria em uma loja convencional. Nos Estados Unidos, pelo menos para alguém na minha situação naquele momento, a realidade era bem diferente. O acesso estava muito mais concentrado nas grandes lojas e hipermercados que ainda mantinham seções de discos. Até meus primos, que continuaram vivendo lá, não tinham em 1998 a facilidade de acesso que nós desenvolvemos por aqui através de lojas especializadas, sebos, colecionadores e, posteriormente, lojas online. Então voltei das férias com uma descoberta enorme na cabeça, mas ainda sem ter como reconstruí-la completamente através dos discos.
Foi no Brasil que isso começou a mudar.
De volta para casa, pude finalmente correr atrás
do catálogo do ZZ TOP. Comecei a comprar os discos anteriores, conhecer a
história, entender de onde vinha aquela mistura de Blues, Boogie, Rock, Country
e aquela maneira absolutamente absurda texana de tocar guitarra. E quanto mais eu
conhecia a banda, mais extraordinário se tornava aquilo que havia acontecido
naquele palco em 1998. Eu tinha descoberto uma banda gigantesca sem saber que
ela era gigantesca. E, mais importante, tinha descoberto uma sonoridade que
abriria uma porta para praticamente tudo aquilo que eu viria a amar dentro do
Southern Rock.
Foi nesse contexto que chegou XXX.
E a decepção foi... GIGANTE!
Lançado em 28 de setembro de 1999, XXX comemorava os 30 anos do ZZ TOP. Era o décimo terceiro álbum de estúdio da banda, ainda com a formação clássica de Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard, e chegava depois de Antenna e Rhythmeen, numa fase em que o trio tentava encontrar uma maneira de continuar relevante sem simplesmente repetir o passado. O álbum tinha oito músicas de estúdio e um bloco final com gravações ao vivo, recuperando uma estrutura que remetia a Fandango!. E aqui está o problema: eu queria desesperadamente gostar de XXX.
Não era um disco qualquer chegando às minhas
mãos, era um novo álbum do ZZ TOP, a banda que tinha acabado de me apresentar
uma parte inteira da música americana. Eu vinha de uma sequência de descobertas
incríveis. Estava mergulhando naquele catálogo e encontrando discos como Tres
Hombres, Fandango!, Tejas, Degüello, Eliminator e Recycler. Cada
álbum revelava uma faceta diferente daquele trio de Houston. Mesmo quando a
banda mudava de direção, havia personalidade. Havia música. Havia aquela combinação
de guitarra, baixo e bateria que parecia simples na superfície, mas possuía uma
identidade impossível de confundir.
XXX não me deu essa sensação.
E não digo isso porque é um álbum
diferente dos clássicos, ZZ TOP sempre mudou. Essa é uma das razões pelas quais
a banda sobreviveu por tantas décadas. Eliminator foi uma ruptura gigantesca em
relação ao ZZ TOP dos anos 1970, Afterburner levou ainda mais longe a
experimentação com sintetizadores e tecnologia. Mesmo assim, havia uma
personalidade muito forte por trás de tudo. A banda podia mudar a roupa, mas
continuava sendo ZZ TOP.
Em XXX, pela primeira vez na minha experiência
com o grupo, tive a sensação de que a tecnologia e os efeitos estavam chegando
antes da música.
A crítica especializada percebeu exatamente esse
problema. Stephen Thomas Erlewine, do AllMusic, foi brutal ao avaliar o álbum,
apontando a falta de espontaneidade, energia e prazer na execução e criticando
a produção excessivamente controlada. Para ele, a banda parecia incapaz de deixar
a música respirar organicamente. A crítica brasileira do Whiplash também
destacou o excesso de efeitos na guitarra de Billy Gibbons e afirmou que isso
roubava uma espontaneidade que havia sido uma das marcas registradas do trio.
E eu concordo com boa parte dessa leitura.
Poke Chop Sandwich é o primeiro grande problema.
Eu tinha ouvido aquela música ao vivo em 1998 sem saber que era inédita e,
naquele contexto, ela funcionava. Havia o palco, o volume, a presença física do
trio e aquela máquina de Blues e Boogie que era impossível ignorar. No disco,
porém, a experiência é completamente diferente. O que poderia ser uma faixa
divertida e agressiva acaba parecendo excessivamente construída. O peso não vem
naturalmente, a guitarra não parece empurrar a música e a produção ocupa um
espaço que deveria pertencer à banda.
A própria crítica do AllMusic fez uma comparação
particularmente dura ao afirmar que o boogie da música soava como uma versão
enfraquecida de Pearl Necklace. Não precisamos concordar com cada palavra da
crítica, mas é difícil ignorar o diagnóstico central: o ZZ TOP estava tentando reproduzir uma atitude que antes surgia
naturalmente.
Crucifixx-A-Flatt torna essa sensação ainda mais
evidente. A tentativa de incorporar elementos eletrônicos e próximos do Hip Hop
poderia ser vista como uma continuação da vocação experimental da banda. O
problema é que, neste caso, a experiência não produz uma nova linguagem
convincente. O resultado soa datado e excessivamente preso à tecnologia de sua
época. O ZZ TOP sempre foi uma banda moderna dentro de suas próprias tradições,
mas aqui a modernidade envelheceu muito mais rápido que a música.
E isso é especialmente cruel em um disco de 1999.
XXX deveria representar os trinta anos de uma banda que havia sobrevivido a praticamente tudo, o título celebrava três décadas de carreira, era uma oportunidade para olhar para aquela trajetória e mostrar por que o trio continuava sendo especial. Em vez disso, parte do disco transmite a impressão de uma banda tentando provar que ainda sabia acompanhar o tempo. O ZZ TOP nunca precisou acompanhar o tempo, o tempo é que sempre precisou acompanhar o ZZ TOP.
Essa é, para mim, a grande diferença.
Fearless Boogie, entretanto, é a exceção que
torna o álbum ainda mais frustrante. A música funciona porque ali a banda
parece lembrar quem é. O riff é direto, a guitarra tem atitude, a bateria de
Frank Beard empurra a música e Dusty Hill segura tudo com aquela economia
característica. É uma música que não precisa de uma grande produção para
funcionar, e foi por isso que ela tenha me marcado tanto
naquela noite de 1998.
Existe algo quase circular nisso. Eu ouvi Fearless
Boogie ao vivo antes de conhecer sua origem, depois descobri que ela estava em XXX, e quando finalmente ouvi o disco inteiro, foi justamente ela que me fez pensar:
“É isso, era isso que eu tinha ouvido naquele palco.”
O problema é que uma grande música não consegue
salvar um álbum inteiro.
36-22-36 possui elementos interessantes e Made
into a Movie é uma das faixas que mais se aproxima de uma composição
tradicional dentro do disco. A balada oferece um momento de respiro e mostra
que o trio ainda sabia trabalhar com dinâmica, mas quando o álbum tenta se
aventurar em territórios mais experimentais, especialmente em Beatbox e Dreadmonboogaloo,
a distância entre a intenção e o resultado fica cada vez maior. O repertório
parece menos interessado em construir músicas memoráveis e mais preocupado em
criar uma atmosfera tecnológica que, quase três décadas depois, denuncia
imediatamente sua época.
O ZZ TOP era uma banda que havia envelhecido
muito melhor do que sua tecnologia.
As gravações dos anos 1970 continuam soando
vivas. Tres Hombres continua tendo sujeira. Degüello continua tendo personalidade.
Eliminator continua sendo um documento poderoso de uma banda que abraçou a
tecnologia e a transformou em identidade. XXX, em contrapartida, frequentemente
soa como um produto de seu momento.
A segunda metade do álbum, formada pelas
gravações ao vivo, ajuda a explicar o problema e a diferença é imediata. Quando
o trio está diante de um público, algumas das limitações desaparecem. Sinpusher,
Hey Mr. Millionaire e Belt Buckle ganham uma energia que falta em parte do
material de estúdio. Let Me Be Your Teddy Bear, com Dusty Hill nos vocais,
acrescenta ainda outra personalidade ao conjunto. O bloco ao vivo mostra aquilo
que o disco de estúdio muitas vezes não consegue capturar: ZZ TOP é uma banda que precisa respirar.
Não por acaso, uma crítica brasileira publicada
na época observou justamente que a força do ZZ TOP no palco poderia ter sido
muito melhor aproveitada no estúdio.
E isso me leva novamente àquela noite de 1998.
Eu não tinha como saber que XXX seria um disco
que eu não gostaria. Não tinha como saber sequer que aquelas músicas que ouvi
no show eram novas. Eu estava simplesmente diante de três músicos que pareciam
ter descoberto uma fórmula impossível de quebrar. Billy Gibbons com aquela
guitarra inconfundível, Dusty Hill como a presença silenciosa e fundamental do
baixo e Frank Beard segurando tudo atrás da bateria. Eu não conhecia a história
deles, não conhecia os discos, não conhecia os personagens, mas conheci aquela
música.
E aquela música me pegou.
Foi ali que comecei a entender que o Rock
americano poderia ser muito mais amplo do que aquilo que eu conhecia até então.
Foi ali que o Blues começou a ganhar outro significado para mim. Foi ali que o
Southern Rock deixou de ser apenas um nome e passou a ser uma paixão.
Por isso, existe uma contradição muito particular
na minha relação com XXX.
Eu não gosto desse
disco.
E não tenho problema algum em dizer isso.
Na realidade, depois de tantos anos ouvindo ZZ
TOP, minha opinião ficou ainda mais firme. Quanto mais conheci a banda, mais
evidente se tornou para mim que XXX é um ponto fora da curva. Não porque o ZZ
TOP estivesse proibido de experimentar. A capacidade de
experimentar sempre foi uma das maiores qualidades da banda, o problema é que
aqui a experimentação raramente produz músicas que tenham a mesma força das
melhores fases do trio.
E isso também explica por que a crítica negativa
em torno do álbum é tão compreensível. AllMusic foi extremamente duro. A
crítica brasileira do Whiplash também. Outras análises foram mais generosas, e
algumas reconheceram que ainda havia bons momentos e que a banda mantinha sua
identidade básica. A própria recepção não foi absolutamente unânime contra o
álbum.
Mas não preciso de unanimidade para sustentar
minha opinião.
XXX é um disco que não me convenceu.
E, ao mesmo tempo, é um disco importante para
mim.
Porque existe uma coisa que só compreendi muitos
anos depois: uma decepção também pode
fazer parte de uma história de amor pela música.
Se XXX tivesse sido tão extraordinário quanto os
discos que eu estava descobrindo naquele momento, provavelmente eu simplesmente
o teria colocado ao lado dos outros e seguido adiante. Mas a decepção me fez
voltar aos discos anteriores, me fez perceber o tamanho do catálogo que existia
antes dele e me fez entender que aquele álbum era uma exceção, não a regra.
E ainda bem.
Porque, se todo o catálogo do ZZ TOP tivesse
seguido a linha de XXX, eu provavelmente não teria desenvolvido a paixão pelo
Southern Rock que nasceu naquela viagem de 1998.
E se eu não tivesse me apaixonado pelo Southern
Rock, o Southern Rock Site Brazil
jamais teria aberto suas portas em 2000.
Essa é a ironia que transforma XXX em algo muito
maior do que um disco de que eu não gosto. Ele está, de alguma maneira torta,
dentro da história do site. Está dentro da história da minha relação com o
Southern Rock. Está dentro daquela viagem aos Estados Unidos. Está dentro
daquele show que eu fui assistir sem conhecer direito a banda. Está dentro da
descoberta de Fearless Boogie. Está dentro da minha volta ao Brasil e da
corrida atrás dos discos que eu ainda não conhecia.
XXX foi uma decepção.
Mas foi uma decepção que aconteceu depois da descoberta.
Hoje, olhando para o álbum com a distância de
tantos anos, consigo reconhecer sua importância histórica. O ZZ TOP estava
comemorando três décadas de existência. O trio continuava junto. Billy Gibbons,
Dusty Hill e Frank Beard ainda eram uma das formações mais sólidas e
reconhecíveis do Rock. O disco documenta uma banda tentando encontrar seu lugar
na virada do milênio, e isso por si só já o torna um registro relevante.
Mas relevância histórica e qualidade artística
são coisas diferentes.
XXX merece ser lembrado.
Eu só não tenho vontade de colocá-lo para tocar.
Essafoi a maneira mais honesta que
encontrei de encerrar esta resenha. Não quero transformar minha opinião em
verdade absoluta. Também não quero fingir que gosto de um disco simplesmente
porque ele foi feito por uma banda que amo. Amar ZZ TOP também significa reconhecer quando o ZZ TOP não acerta.
E, para mim, XXX é esse momento.
Um ponto fora da curva.
Um álbum que chegou depois de uma das maiores
descobertas musicais da minha vida e que, justamente por não estar à altura
dela, acabou reforçando tudo aquilo que veio antes.
Porque eu não me apaixonei pelo Southern Rock por
causa de XXX.
Eu me apaixonei
apesar dele.
E ainda bem que o catálogo anterior era tão
extraordinário que um único tropeço jamais poderia apagar a estrada que o ZZ
TOP havia construído.
Formação da banda
Billy Gibbons: guitarra e vocais
Dusty Hill: baixo, teclados,
vocais e vocais principais em (Let Me Be Your) Teddy Bear
Frank Beard: bateria e percussão
Tracklist completa
1.
Poke Chop Sandwich
2.
Crucifixx-A-Flatt
3.
Fearless Boogie
4.
36-22-36
5.
Made into a Movie
6.
Beatbox
7.
Trippin'
8.
Dreadmonboogaloo
9.
Introduction by Ross Mitchell
10. Sinpusher
11. (Let Me Be Your) Teddy Bear
12. Hey Mr. Millionaire
13. Belt Buckle
Renato Martins São
Pedro
Southern Rock Site Brazil










