O gospel das igrejas do Sul dos Estados Unidos
ajudou a formar a identidade emocional do Southern Rock e também a criar o
espírito de irmandade que marcou suas bandas.
Por Renato Martins São Pedro
Muita gente conhece o Southern Rock pelas
guitarras, pelas estradas, pelos solos intermináveis e pela sensação de
liberdade. Mas pouca gente percebe que uma das raízes mais profundas desse som
nasceu dentro das igrejas do sul dos Estados Unidos.
Antes dos palcos, dos bares e das bandas lotando arenas, existiam os cultos de
domingo, com suas Igrejas pequenas, simples e cheias de emoção, onde o gospel
era cantado com a alma aberta. Foi ali que o sul aprendeu a transformar dor em
música. O peso emocional do Southern Rock vem muito desse ambiente. A forma
intensa como Van Zant cantava, a espiritualidade quase transcendental
do The Allman Brothers Band e o
sentimento presente nas músicas do Charlie Daniels, tudo isso carrega ecos do
gospel sulista, do soul e do blues nascidos dentro das comunidades negras
americanas. Uma das coisas mais legais dentro do Southern Rock é o senso de
irmandade que sempre existiu entre as bandas. Diferente de muitos outros
estilos do rock, onde rivalidades, egos e disputas viraram parte da cultura, no
Southern Rock quase sempre existiu respeito mútuo e isso não aconteceu por
acaso.
Muitas dessas bandas cresceram literalmente juntas. Frequentavam as mesmas
igrejas, os mesmos bares, os mesmos estúdios e as mesmas estradas. Um músico
conhecia o outro desde adolescente, um integrante fazia jam com a banda
vizinha, um produtor ajudava outra banda a gravar. O sucesso de uma acabava
abrindo portas para várias outras. The Allman Brothers Band, Lynyrd
Skynyrd, The
Marshall Tucker Band, Wet
Willie, Blackfoot, Molly Hatchet, The Outlaws, The Charlie Daniels Band… cada
grupo criou sua própria identidade, seu próprio público e sua própria história,
mas quase sempre existiu entre eles um sentimento de família musical.
Charlie Daniels foi um dos maiores símbolos disso. Em “South’s Gonna Do
It Again”, ele praticamente transforma a música numa celebração coletiva do
Southern Rock, citando bandas amigas e exaltando toda aquela cena musical do
sul dos EUA. Molly Hatchet também sempre carregou muito esse espírito de
homenagem e pertencimento dentro das suas letras, entrevistas e postura. O
Southern Rock nunca pareceu uma competição, parecia uma comunidade. Um estilo
que soa tão verdadeiro até hoje.
O Southern Rock não nasceu em laboratório, nasceu da fé, da dor, da esperança,
das amizades construídas na estrada e da necessidade humana de colocar
sentimento pra fora através da música.










