No início da década de 1970, o Southern Rock
começava a conquistar uma dimensão nacional. O que durante anos havia sido uma
expressão regional, construída em clubes, bares e pequenas cidades do sul dos
Estados Unidos, passava a ocupar espaços cada vez maiores dentro da indústria
fonográfica. A The Allman Brothers Band havia mostrado que o sul possuía uma
identidade musical capaz de dialogar com grandes públicos, enquanto novas
bandas surgiam trazendo diferentes interpretações daquela sonoridade. Dentro
desse cenário existe o Black Oak Arkansas.
Vindo da pequena cidade de Black Oak, no
Arkansas, o grupo havia construído sua reputação muito antes de alcançar o
sucesso comercial. Liderada pelo carismático Jim "Dandy" Mangrum, a
banda conquistou uma enorme base de fãs através de apresentações explosivas,
marcadas por energia, irreverência e uma presença de palco que transformava
cada show em um acontecimento. O Black Oak Arkansas nunca foi apenas uma banda
preocupada com técnica musical, sua força estava na personalidade, na atitude e
na capacidade de criar uma experiência que ultrapassava os limites tradicionais
de uma apresentação de Rock.
Depois de assinar com a Atco Records e lançar
seus primeiros trabalhos no início da década de 1970, o grupo passou a receber
maior atenção nacional. A mistura de Country, Boogie, Blues, Hard Rock e
elementos de Funk fazia com que a banda se diferenciasse imediatamente de seus
contemporâneos. Enquanto outros nomes do Southern Rock construíam sua
identidade principalmente através das guitarras e dos longos improvisos, o
Black Oak Arkansas apostava em uma combinação mais selvagem, apoiada pela voz
inconfundível de Jim Dandy e pelo espírito coletivo de seus músicos.
Em 1973, a banda entrou em estúdio para registrar
High on the Hog, seu quarto álbum de estúdio, novamente pela Atco Records. A
produção ficou a cargo de Tom Dowd, um dos grandes nomes da história da música
norte-americana, conhecido por seu trabalho com artistas como Aretha Franklin,
Eric Clapton, The Allman Brothers Band e inúmeros outros. Sua presença foi
fundamental para capturar a essência do Black Oak Arkansas, uma banda cuja
maior qualidade sempre esteve ligada à espontaneidade e à energia das
apresentações ao vivo.
O resultado foi um álbum que conseguiu equilibrar
dois lados aparentemente opostos do grupo. De um lado, estava a intensidade
quase caótica que havia transformado o Black Oak Arkansas em uma das maiores
atrações de palco dos Estados Unidos. De outro, havia uma preocupação maior com
arranjos, produção e composição, revelando uma banda mais madura e consciente
de suas possibilidades.
É justamente por isso que High on the Hog merece
ser lembrado. Este é o álbum em que o Black Oak Arkansas conseguiu transformar
sua personalidade excêntrica em uma declaração artística completa. O disco capturou o momento em que uma banda considerada
diferente demais para seguir fórmulas encontrou exatamente aquilo que a tornava
especial.
O grande símbolo desse período foi "Jim
Dandy". A música, originalmente gravada por LaVern Baker nos anos 1950,
recebeu uma nova vida através da interpretação de Jim "Dandy" Mangrum
e da participação marcante da vocalista Ruby Starr. O resultado foi um dos
maiores sucessos da carreira da banda e uma das gravações mais reconhecidas do
Southern Rock dos anos 1970. "Jim Dandy"
representava tudo aquilo que fazia o grupo único: atitude, irreverência,
sensualidade e uma energia impossível de ignorar.
Mas reduzir High on the Hog a esse grande sucesso
seria ignorar a riqueza do álbum. "Swimmin' in Quicksand" mostra um
lado mais pesado e elaborado da banda, combinando guitarras fortes com uma
construção que evidencia o crescimento musical do grupo. "Happy Hooker"
reforça a mistura de humor, provocação e musicalidade que sempre acompanhou o
Black Oak Arkansas, enquanto "High 'N' Dry" apresenta uma atmosfera
mais próxima do Hard Rock, revelando a versatilidade de uma formação que nunca
se limitou a um único caminho.
Outro elemento fundamental do álbum é a bateria
de Tommy Aldridge. Ainda jovem, o músico já demonstrava a força e a precisão
que futuramente o transformariam em um dos grandes bateristas do Hard Rock
mundial. Sua entrada trouxe ainda mais peso à banda, complementando perfeitamente
a energia das guitarras de Rickie Lee Reynolds e Pat Daugherty, além da
dinâmica coletiva que sempre foi uma das marcas do grupo.
A química entre os integrantes é o verdadeiro
motor de High on the Hog. O Black Oak Arkansas nunca funcionou como uma banda
baseada apenas em um grande instrumentista ou compositor, sua identidade nasceu
da soma de personalidades diferentes, reunidas em torno da figura central de
Jim Dandy. Cada músico acrescentava uma característica própria, criando uma
sonoridade que podia ser divertida, pesada, inesperada e extremamente musical
dentro do mesmo álbum.
A produção de Tom Dowd merece novamente destaque
porque conseguiu preservar justamente aquilo que fazia a banda funcionar. Em
vez de tentar controlar ou suavizar seus excessos, o produtor entendeu que a
autenticidade do Black Oak Arkansas estava na liberdade. As guitarras
permanecem agressivas, os vocais carregam personalidade e os arranjos mantêm
aquela sensação de uma banda pronta para dominar um palco diante de milhares de
pessoas.
O impacto de High on the Hog foi significativo. O
álbum alcançou grande repercussão comercial, ajudou a consolidar o nome do
Black Oak Arkansas em todo o território norte-americano e abriu caminho para
apresentações em grandes arenas. Mais importante do que números, entretanto,
foi a confirmação de que havia espaço dentro do Southern Rock para uma
abordagem diferente, menos previsível e mais próxima do espírito rebelde que
sempre definiu o Rock and Roll.
Enquanto outras bandas do movimento buscavam
representar a tradição musical do sul através do Blues, do Country e das
guitarras, o Black Oak Arkansas representava outro lado daquela cultura: a
irreverência, a celebração e a liberdade de não se encaixar perfeitamente em
nenhuma categoria. Essa característica, que poderia ser uma limitação para
muitos artistas, tornou-se justamente sua maior força.
High
on the Hog permanece como um dos registros fundamentais da carreira do Black
Oak Arkansas e um dos álbuns mais representativos da diversidade existente
dentro do Southern Rock. É um trabalho que captura uma banda no auge de sua
criatividade, transformando personalidade em música e provando que
autenticidade continua sendo um dos elementos mais poderosos da história do
Rock.
Formação da banda
Jim "Dandy" Mangrum - vocal e harmônica
Rickie Lee Reynolds - guitarra
Pat Daugherty - baixo
Tommy Aldridge - bateria
Stanley Knight - guitarra
Wayne Evans - bateria e percussão
Participação especial
Ruby Starr - vocal em "Jim Dandy"
Tracklist
1.
Swamp Girl
2.
Why Shouldn't I?
3.
Movin'
4.
Happy Hooker
5.
Red Hot Lovin'
6.
Jim Dandy
7.
High 'N' Dry
8.
Back Door Man
9.
Moonshine Sonata
10. Mad Man
11. Moonshine Sonata (Reprise)
Renato Martins São Pedro
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