A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

BLACKBERRY SMOKE – Little Piece of Dixie (2009)

 


BLACKBERRY SMOKE – Little Piece of Dixie (2009)

Quando Little Piece of Dixie chegou às lojas, em setembro de 2009, o Southern Rock vivia uma realidade muito diferente daquela que havia consagrado seus grandes nomes nas décadas de 1970 e 1980. O estilo já não ocupava espaço nas rádios, poucas gravadoras apostavam em novas bandas e praticamente todo grupo que decidia seguir esse caminho precisava conquistar seu público quilômetro após quilômetro, vivendo na estrada. Foi exatamente assim que o Blackberry Smoke construiu sua reputação.

Entre o lançamento de Bad Luck Ain't No Crime e este segundo álbum, passaram-se quase seis anos. Não foi um período de silêncio, muito pelo contrário. Charlie Starr, Paul Jackson, Richard Turner e Brit Turner transformaram a estrada em sua verdadeira escola, dividindo palcos com nomes como Lynyrd Skynyrd, Zz Top, The Marshall Tucker Band e George Jones. Em entrevistas concedidas na época, Brit Turner dizia que aquele intervalo havia sido fundamental para amadurecer a banda e evitar a temida "maldição do segundo disco". Charlie Starr, por sua vez, explicava que o grupo jamais deixou de compor ou gravar durante aqueles anos, mas enfrentou uma sequência de problemas envolvendo gravadora e distribuição que retardaram o lançamento do novo trabalho.

É exatamente por isso que Little Piece of Dixie soe tão seguro. Não existe qualquer sensação de ansiedade para provar alguma coisa. O Blackberry Smoke simplesmente toca e toca como uma banda que já havia aprendido, diante de milhares de pessoas, que boas canções precisam respirar antes de impressionar.

Produzido por Dann Huff e Justin Niebank, o álbum preserva uma característica que Charlie Starr sempre fez questão de defender: gravar a banda praticamente ao vivo dentro do estúdio. Em vez de construir músicas por camadas infinitas de overdubs, a prioridade era registrar a interação natural entre os músicos. Essa escolha aparece durante todo o disco. Há espaço para as guitarras respirarem, o baixo de Richard Turner permanece firme sem ocupar mais espaço do que precisa, enquanto Brit Turner conduz tudo com uma precisão impressionante, sem transformar técnica em exibicionismo.

Sempre enxerguei Little Piece of Dixie como o álbum em que o Blackberry Smoke descobriu que não precisava correr atrás das referências do Southern Rock, elas já faziam parte da própria linguagem da banda. Diferentemente do disco de estreia, onde a vontade de mostrar influências aparecia com mais evidência, aqui tudo soa muito mais natural. Country, Blues, Hard Rock e Southern Rock convivem como se nunca tivessem sido estilos diferentes. O ouvinte simplesmente acompanha uma sequência de músicas escritas por músicos que cresceram ouvindo essa mistura desde a infância.

"Good One Comin' On" tornou-se o cartão de visitas perfeito dessa fase. Seu sucesso abriu portas importantes para a banda e ajudou a apresentar a um público muito maior, especialmente depois da inclusão da música na trilha do filme Swing Vote. Mas o grande mérito do álbum está justamente em não depender do seu principal sucesso. "Like I Am", "Bottom of This", "Sanctified Woman", "I'd Be Lyin'" e "Restless" mantêm o mesmo nível de inspiração, sem a necessidade de buscar um hit a qualquer custo. O disco cresce pela consistência, não pela concentração de clássicos.

Outro aspecto que sempre me chamou atenção é a maneira como Charlie Starr escreve. Seus personagens estão muito longe da figura romantizada do herói sulista. São trabalhadores, gente comum, pessoas que enfrentam contas para pagar, relacionamentos complicados, frustrações, pequenas vitórias e o desejo permanente de colocar o pé na estrada para aliviar o peso da rotina. Essa honestidade aproxima a banda do cotidiano de quem escuta suas músicas. Não existe pose, existe identificação.

A produção também merece reconhecimento pela inteligência das escolhas. Dann Huff poderia facilmente transformar o Blackberry Smoke em uma banda excessivamente polida, principalmente considerando seu histórico dentro da música de Nashville. Felizmente aconteceu exatamente o contrário. O álbum possui ótima definição sonora, mas preserva a sensação de uma banda tocando junta, sem retirar a aspereza das guitarras nem o caráter orgânico da seção rítmica. O resultado envelheceu muito bem.

Existe ainda uma curiosidade que ajuda a contar a história deste disco. Muitos bancos de dados atuais relacionam Brandon Still como integrante desta gravação. Entretanto, Charlie Starr esclareceu em entrevista concedida durante o lançamento do álbum que o tecladista ainda não havia participado das sessões. Essa informação é confirmada pela própria edição original do CD, onde Brandon não aparece nem na fotografia da contracapa nem nos créditos da formação. Apenas nos relançamentos posteriores, quando já fazia parte oficialmente da banda, sua imagem e seu nome passaram a ser incorporados ao material gráfico. Parece um detalhe pequeno, mas acaba registrando duas fases completamente diferentes da história. O álbum original documenta uma banda ainda independente, com visual simples e totalmente voltada para a estrada, os relançamentos já apresentam um grupo reconhecido internacionalmente, vivendo outro momento da carreira.

O sucesso de The Whippoorwill fez muita gente voltar os olhos para este álbum anos depois. Não demorou para perceberem que praticamente toda a identidade que consagraria a banda já estava presente aqui. Talvez ainda faltasse uma composição do tamanho de "One Horse Town" ou a projeção que a parceria com Zac Brown proporcionaria dali em diante, mas a essência da banda já estava completamente formada.

Sempre volto a Little Piece of Dixie com a mesma impressão: este é um disco que nunca precisou levantar a voz para ser respeitad, ele não tenta reinventar o Southern Rock, não procura modernizar suas raízes e tampouco vive da nostalgia. Apenas registra uma banda encontrando sua própria voz depois de anos de estrada. E, olhando hoje para a trajetória, fica claro que boa parte do que a banda conquistaria na década seguinte começou exatamente aqui.

Resenha escrita por Renato Martins São Pedro

Tracklist

1.    Good One Comin' On

2.    Like I Am

3.    Bottom of This

4.    Up in Smoke

5.    Sanctified Woman

6.    Who Invented the Wheel

7.    I'd Be Lyin'

8.    Prayer for the Little Man

9.    Restless

10.   Shake Your Magnolia

11.   Freedom Song

Formação

Charlie Starr – vocal, guitarras, pedal steel e banjo

Paul Jackson – guitarras e vocais

Richard Turner – baixo e vocais

Brit Turner – bateria

Produção

Dann Huff

Justin Niebank