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Lynyrd Skynyrd - Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd (1973)

 


Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd (1973)

Existem discos que apresentam uma banda ao mundo, outros apresentam um novo estilo musical, e existem aqueles raríssimos casos em que uma estreia consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd, lançado em 1973, pertence a essa última categoria. O primeiro álbum do Lynyrd Skynyrd não apenas revelou um grupo extraordinário vindo de Jacksonville, na Flórida, como estabeleceu um padrão que ajudaria a definir o Southern Rock nas décadas seguintes.

Embora o gênero já estivesse em pleno desenvolvimento graças ao trabalho de nomes como The Allman Brothers Band, o Lynyrd Skynyrd trouxe uma abordagem própria. O blues, o country e o rock continuavam presentes, mas agora dividiam espaço com guitarras mais agressivas, letras profundamente ligadas ao cotidiano do sul dos Estados Unidos e uma identidade construída muito antes de a banda entrar em estúdio.

Essa maturidade não surgiu por acaso. Ronnie Van Zant, Gary Rossington, Allen Collins, Leon Wilkeson, Billy Powell e Bob Burns passaram anos tocando em pequenos clubes, ginásios e bares do sudeste americano. O repertório do primeiro disco foi lapidado ao vivo durante esse período. Quando chegou a oportunidade de gravar, aquelas músicas já haviam enfrentado centenas de plateias diferentes. Não eram composições recém-escritas para um álbum de estreia, eram canções que já haviam sido testadas, ajustadas e amadurecidas na estrada.

O encontro com o produtor Al Kooper foi decisivo. Encantado com a força da banda ao vivo, ele insistiu em produzi-la e soube compreender algo fundamental: o Lynyrd Skynyrd não precisava ser reinventado dentro do estúdio. Precisava apenas que sua personalidade fosse registrada da forma mais fiel possível e essa decisão fez toda a diferença. O disco preserva a espontaneidade de uma banda acostumada aos palcos, mas apresenta um cuidado de produção que valoriza cada instrumento sem retirar sua energia natural.

Sempre enxerguei esse como um dos maiores méritos de Pronounced. Em nenhum momento o álbum transmite a sensação de uma banda procurando uma identidade, pelo contrário. Desde os primeiros minutos fica evidente que aqueles músicos sabiam exatamente quem eram. A segurança das interpretações impressiona justamente por se tratar de uma estreia. É difícil lembrar de outro primeiro álbum na história do Southern Rock que soe tão seguro, tão confiante e tão completo.

As três guitarras formam uma assinatura sonora que se tornaria uma das marcas registradas da banda. Gary Rossington, Allen Collins e Ed King, que participou das gravações substituindo Leon Wilkeson no baixo antes de assumir definitivamente uma das guitarras da banda, criam uma conversa permanente entre bases, melodias e solos. Não existe disputa por protagonismo. Existe construção coletiva. Cada intervenção parece surgir exatamente no momento em que a música pede, sem excessos ou demonstrações gratuitas de virtuosismo.

Ronnie Van Zant também merece destaque especial. Sua voz nunca dependeu de grandes acrobacias vocais para emocionar. Seu talento estava na interpretação. Cantava como quem conhecia profundamente cada personagem de suas histórias. Essa autenticidade aproxima o ouvinte das letras e ajuda a explicar por que músicas aparentemente simples adquiriram um caráter quase universal.

É praticamente impossível falar deste álbum sem mencionar "Tuesday's Gone", "Simple Man", "Gimme Three Steps" e, principalmente, "Free Bird". O curioso é que nenhuma delas soa deslocada dentro do conjunto. Embora tenham alcançado vida própria ao longo das décadas, continuam funcionando como partes de uma obra cuidadosamente construída. "Free Bird", naturalmente, tornou-se um dos maiores hinos da história do rock, mas seu impacto cresce justamente porque encerra um álbum que já vinha mantendo um nível impressionante do início ao fim. O lendário solo final não representa um momento isolado de inspiração, é a conclusão perfeita de uma jornada musical iniciada cerca de quarenta minutos antes.

Outro aspecto que sempre me chamou atenção é o equilíbrio entre peso e sensibilidade. A banda jamais precisou escolher entre um lado ou outro. A mesma banda capaz de produzir riffs marcantes também criava melodias delicadas, arranjos elegantes de piano e momentos de grande introspecção. Essa combinação se transformaria em uma de suas principais características ao longo da carreira, mas já aparece plenamente desenvolvida aqui.

Curiosamente, o álbum não foi recebido de forma explosiva pela crítica em seu lançamento. Seu reconhecimento aconteceu de maneira gradual, impulsionado pelas turnês e pelo crescente sucesso de "Free Bird" nas rádios americanas. Com o passar dos anos, a percepção mudou completamente. O que inicialmente era visto como uma excelente estreia passou a ser reconhecido como um dos discos fundamentais da história do rock produzido nos Estados Unidos.

Dentro da discografia, Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd representa o nascimento de uma identidade que permaneceria viva nos álbuns seguintes. Dentro da história do Southern Rock, seu papel é ainda maior. É um daqueles trabalhos que ajudaram a estabelecer os parâmetros pelos quais inúmeras bandas seriam avaliadas dali em diante.

Poucos discos conseguem atravessar mais de cinco décadas mantendo intacta sua capacidade de emocionar, impressionar e servir de referência para novas gerações. O primeiro álbum faz isso com uma naturalidade admirável. Não porque tenha envelhecido bem, mas porque nasceu clássico.

Resenha escrita por Renato Martins São Pedro

Tracklist

I Ain't the One

Tuesday's Gone

Gimme Three Steps

Simple Man

Things Goin' On

Mississippi Kid

Poison Whiskey

Free Bird

Formação

Ronnie Van Zant: vocal

Gary Rossington: guitarra

Allen Collins: guitarra

Ed King: guitarra e baixo em parte das gravações

Billy Powell: piano

Bob Burns: bateria

Leon Wilkeson: baixo

Produção

Produzido por Al Kooper.