Charlie
Daniels Band – Fire on the Mountain (1974)
Em 1974, o Southern Rock vivia uma de suas fases
mais criativas. O sucesso da Allman Brothers Band havia aberto as portas para
uma nova geração de artistas, o Lynyrd Skynyrd conquistava o país com Second
Helping e o estilo deixava de ser um fenômeno regional para se transformar
em um dos movimentos mais importantes do Rock americano. Foi exatamente nesse
cenário que Charlie Daniels lançou Fire on the Mountain, o álbum que
consolidou de vez seu nome entre os grandes representantes da música sulista.
Charlie Daniels já era um músico respeitadíssimo
muito antes desse disco chegar às lojas. Como instrumentista de estúdio, havia
participado de gravações de artistas como Bob Dylan, Leonard Cohen e Ringo Starr.
Experiência nunca lhe faltou. O que ainda faltava era um álbum que apresentasse
ao grande público a verdadeira força da Charlie Daniels Band. Fire on the
Mountain cumpriu esse papel com absoluta naturalidade.
Produzido por Paul Hornsby nos lendários Capricorn
Studios, em Macon, Geórgia, o disco captura uma banda vivendo um momento raro
de sintonia. Não existe um instrumento tentando se sobressair ao outro. Tudo
funciona como uma engrenagem perfeitamente ajustada. As guitarras dividem
espaço com o violino de Charlie Daniels sem competir entre si, enquanto a
cozinha segura cada canção com firmeza e precisão. O resultado é um álbum
orgânico, que cinquenta anos depois continua soando vivo e atual.
Se há uma música capaz de simbolizar não apenas este disco, mas todo um movimento, ela atende pelo nome de "The South's Gonna Do It Again". Charlie Daniels escreveu muito mais do que um sucesso. Escreveu uma declaração de orgulho. Ao citar The Marshall Tucker Band, Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, Zz Top, Grinderswitch e Barefoot Jerry, eternizou em uma única canção os artistas que estavam construindo a identidade do Southern Rock enquanto ela ainda era escrita. Poucas músicas conseguem representar tão bem uma época. Mas Fire on the Mountain jamais viveu à sombra de seu maior clássico.
Logo na abertura, "Caballo Diablo"
deixa claro que a banda veio para tocar sem qualquer concessão. "Long
Haired Country Boy" tornou-se um dos grandes hinos da carreira de Charlie
Daniels, reforçado pela participação especial de Dickey Betts no dobro, uma
combinação que amplia ainda mais a atmosfera rural da canção. "Trudy"
mantém o alto nível do álbum com uma interpretação cheia de personalidade,
enquanto "Georgia" e "Feeling Free" mostram uma banda
confortável em transitar entre o Country, o Blues e o Rock sem jamais perder
sua identidade.
Outro detalhe torna este álbum ainda mais
especial. As duas últimas faixas não foram gravadas em estúdio. "No Place
to Go" e a clássica "Orange Blossom Special" registram a Charlie
Daniels Band ao vivo no War Memorial Auditorium, em Nashville, em 4 de outubro
de 1974. A escolha foi brilhante. Charlie Daniels sempre acreditou que sua
banda alcançava o máximo de sua força diante do público, e esse encerramento
funciona quase como um convite para que o ouvinte saia do estúdio e entre
definitivamente em um show da Charlie Daniels Band.
Sempre enxerguei Fire on the Mountain como
um divisor de águas na carreira de Charlie Daniels. Honey in the Rock e Way
Down Yonder já mostravam uma banda cheia de personalidade, mas foi aqui que
tudo se encaixou. As composições ganharam ainda mais consistência, a produção
encontrou o equilíbrio perfeito entre peso e espontaneidade, e a banda passou a
soar exatamente como seria lembrada nas décadas seguintes.
Outro aspecto que sempre me chamou atenção é a
honestidade deste disco. Charlie Daniels nunca tentou adaptar sua música ao
mercado. Não procurou suavizar o Country, endurecer o Rock ou transformar o
Southern Rock em produto de rádio. Gravou exatamente o álbum que queria gravar.
Por isso que Fire on the Mountain atravessa gerações sem perder relevância. Sua autenticidade continua intacta.
Mais do que um grande álbum, Fire on the
Mountain ajudou a consolidar a identidade da Charlie Daniels Band e
preparou o terreno para a extraordinária sequência formada por Nightrider,
Saddle Tramp e, alguns anos depois, Million Mile Reflections. É
uma obra fundamental para compreender a evolução do Southern Rock durante a
década de 1970 e presença obrigatória em qualquer coleção dedicada à música
produzida no sul dos Estados Unidos.
Resenha
escrita por Renato Martins São Pedro
Tracklist
1.
Caballo Diablo
2.
Long Haired Country Boy
3.
Trudy
4.
Georgia
5.
Feeling Free
6.
The South's Gonna Do It Again
7.
New York City, King Size Rosewood Bed
8.
No Place to Go (Live)
9.
Orange Blossom Special (Live)
Formação
Charlie Daniels - vocal, violino, guitarras,
banjo
Barry Barnes - guitarras, vocais
Joel "Taz" DiGregorio - teclados,
vocais
Mark Fitzgerald - baixo
Gary Allen - bateria e percussão
Fred Edwards - bateria
Participações
especiais
Dickey Betts - dobro em "Long Haired Country
Boy"
Jaimie Nichol - congas em "Feeling
Free", "New York City, King Size Rosewood Bed" e "No Place
to Go"
Produção
Paul Hornsby









