As poderosas emissoras mexicanas que atravessaram
a noite americana e ajudaram a espalhar a música pelo rádio.
por Renato Martins
São Pedro
Imagine uma estrada americana, tarde da noite, um
carro antigo e aquele rádio AM no painel. O sujeito vai girando o dial,
passando por chiados, vozes que aparecem e desaparecem, até encontrar uma
estação tocando música. O locutor começa a falar e vem a surpresa: a
transmissão está chegando do México!
Eu adoro esse universo! Sou jornalista, radialista e tenho uma grande paixão
pela história do rádio. Aqueles aparelhos antigos, os mostradores iluminados,
os botões de sintonia, os microfones, as mesas de som... Tudo isso me fascina.
E pensar que uma voz podia sair de uma pequena cidade mexicana e chegar a
ouvintes espalhados por boa parte dos Estados Unidos é uma coisa sensacional.
Pois foi exatamente esse o universo das chamadas border blasters, emissoras
instaladas no México que, a partir dos anos 1930, utilizaram transmissores de
altíssima potência para alcançar o público americano. Uma das mais conhecidas
foi a XERF, de Ciudad Acuña, que começou a transmitir em 1947 e se tornaria uma
referência nesse tipo de radiodifusão.
E olha que história boa! Essas rádios ajudaram a espalhar o country e, com o
passar dos anos, também abriram espaço para o rhythm and blues, o blues e o
rock and roll. Músicas, artistas e locutores atravessavam fronteiras sem precisar
de passaporte. Décadas antes da internet, um transmissor poderoso e um bom
receptor já conseguiam aproximar pessoas que estavam a centenas de quilômetros
de distância.
O mais gostoso, para mim, é imaginar a experiência de quem estava do outro
lado. Nada de procurar uma música pelo nome e apertar o play, era girar o dial,
encontrar uma estação e descobrir o que estava tocando. E, se a música fosse
boa, torcer para o sinal não desaparecer no meio!
Hoje temos uma facilidade maravilhosa para ouvir música, e eu aproveito muito
isso também, mas continuo encantado com aquele mundo dos rádios AM, das vozes
dos locutores e das emissoras que chegavam de tão longe. O rádio tinha, e
continua tendo, uma coisa que nenhuma tecnologia conseguiu substituir: a companhia
de uma voz.
E pensar que, numa estrada americana, em plena madrugada, essa companhia podia
estar vindo lá do outro lado da fronteira mexicana.
Que história bonita da comunicação e da música.









