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Elias Hulk

 


Nota editorial | Southern Rock Site Brazil

Essa banda não pertence diretamente ao universo do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.

A Elias Hulk surgiu em Bournemouth, no litoral sul da Inglaterra, durante os últimos anos da década de 1960, período em que o Blues britânico atravessava uma transformação decisiva. A influência dos músicos norte-americanos permanecia presente, mas as bandas começavam a ampliar o volume dos amplificadores, explorar improvisações mais longas e incorporar elementos psicodélicos ao repertório. Foi nesse ambiente que a Elias Hulk desenvolveu uma sonoridade marcada por guitarras intensas, mudanças de andamento e uma abordagem pouco convencional do Blues Rock.

As origens do grupo remontam a 1968, quando o guitarrista Peter Grenville Fraser, conhecido como Gren Fraser, e o baixista James Haines participaram de projetos musicais na região de Bournemouth. Os dois haviam integrado a Free Love e posteriormente trabalharam como The Parkers, formação ligada ao Blues Rock que chegou a participar de um festival gratuito em Le Havre, na França. O desenvolvimento dessas experiências levou à organização de uma banda mais pesada, inicialmente estruturada em torno das guitarras e de uma base rítmica influenciada pelo Blues.

A formação que consolidou a Elias Hulk reuniu Peter Thorpe nos vocais, Neil Tatum na guitarra solo, Gren Fraser na guitarra, James Haines no baixo e Bernard James na bateria. Thorpe já possuía experiência como vocalista da Harvey Wells Soul Band, grupo de Rhythm and Blues que havia participado de apresentações com nomes como Small Faces, Status Quo e Spooky Tooth. Tatum, por sua vez, foi recrutado por meio de um anúncio na imprensa musical, completando a configuração de cinco integrantes que gravaria o principal trabalho da banda.

A Elias Hulk passou a se apresentar no circuito de clubes e espaços alternativos do sul da Inglaterra, desenvolvendo um repertório que combinava composições próprias, improvisações e a influência de grupos ligados ao Blues britânico. A utilização de duas guitarras oferecia possibilidades de interação instrumental, enquanto os vocais de Thorpe acrescentavam uma interpretação intensa e diretamente relacionada às tradições do Rhythm and Blues.

O grupo também encontrou espaço em ambientes ligados à contracultura, onde apresentações prolongadas e experiências musicais menos convencionais faziam parte da programação. Esse contexto favoreceu o desenvolvimento de uma identidade que não se limitava ao Hard Rock em formação, a Elias Hulk incorporava mudanças rítmicas, passagens psicodélicas e uma liberdade instrumental que a aproximava de outras bandas britânicas situadas entre o Blues Rock, o Rock progressivo inicial e o Hard Rock.

Em 1970, os músicos tiveram a oportunidade de registrar material de demonstração no Strawberry Studios, em Stockport. O estúdio havia sido desenvolvido por Peter Tattersall e Eric Stewart, então conhecido por sua passagem pelo The Mindbenders e que posteriormente alcançaria reconhecimento internacional como integrante do 10cc. Stewart participou da realização das gravações, oferecendo à Elias Hulk uma experiência profissional importante naquele estágio da carreira.

As demos chegaram ao produtor Miki Dallon, músico e empresário ligado à Young Blood Records. Dallon demonstrou interesse pelo grupo e ofereceu um contrato para a gravação de um álbum. A gravadora trabalhava com artistas de diferentes vertentes do Rock britânico, e a Elias Hulk passou a integrar seu catálogo num momento em que a indústria fonográfica procurava acompanhar o crescimento do mercado de Rock pesado.

As sessões de Unchained aconteceram no Pye Studios, em Londres, com produção de Miki Dallon e trabalho técnico de Dave Hunt e Larry Bartlett. A banda gravou o repertório em aproximadamente dois dias, utilizando uma disposição de instrumentos semelhante à de suas apresentações. A proposta preservou a interação entre os músicos, com espaço para solos, variações de andamento e a energia característica das performances ao vivo.

O álbum chegou ao mercado em novembro de 1970, reunindo oito composições: Anthology of Dreams, Nightmare, Been Around Too Long, Yesterday's Trip, We Can Fly, Free, Delhi Blues e Ain't Got You. O repertório apresentava a Elias Hulk como uma banda interessada em explorar diferentes possibilidades dentro do Rock pesado, sem abandonar a estrutura instrumental herdada do Blues.

A abertura com Anthology of Dreams estabelecia uma atmosfera de tensão, com guitarras e mudanças de dinâmica que antecipavam características presentes ao longo do disco. Nightmare reforçava o peso da banda, enquanto Been Around Too Long e Yesterday's Trip demonstravam a importância das passagens instrumentais e das alterações rítmicas. Em We Can Fly, a formação encontrava espaço para uma abordagem mais extensa, sustentada pela interação entre guitarras, baixo e bateria.

A presença do Blues também se manifestava em Free e Ain't Got You, composições que aproximavam a Elias Hulk das raízes musicais de seus integrantes. Já Delhi Blues acrescentava uma dimensão psicodélica ao repertório, refletindo o interesse de músicos britânicos daquele período por estruturas menos convencionais e influências que ultrapassavam os limites tradicionais do Rock.

A sonoridade de Unchained apresenta características compartilhadas com trabalhos de grupos como Leaf Hound, Steamhammer, Killing Floor e outras formações britânicas que exploraram a transição entre o Blues Rock e o Hard Rock. Entretanto, a Elias Hulk desenvolveu uma abordagem própria, marcada pela intensidade das guitarras e por arranjos que alternavam momentos diretos com passagens de maior liberdade instrumental.

A edição britânica original de Unchained foi lançada pela Young Blood Records, com uma capa ilustrada por Peter Lee. O desenho apresentava uma figura monstruosa em uma composição visual que dialogava com o nome da banda. A edição alemã utilizou uma apresentação diferente, baseada em fotografias dos músicos sobre fundo azul, demonstrando que o álbum recebeu tratamentos gráficos distintos conforme o mercado.

Apesar de ter recebido críticas favoráveis, Unchained não contou com uma campanha promocional consistente. A ausência de divulgação comprometeu sua circulação comercial, enquanto a banda enfrentava dificuldades para manter uma agenda regular de apresentações e desenvolver repertório para um possível segundo álbum. O resultado foi uma trajetória inicial bastante curta, encerrada quando os músicos começaram a seguir caminhos diferentes no final de 1970 e início de 1971.

Depois da dissolução, Peter Thorpe e Gren Fraser continuaram trabalhando juntos por um período. Os dois se estabeleceram em Huddersfield e participaram da Kcreed, projeto que também contou com o baixista Dave Hewitt, posteriormente integrante do Babe Ruth. A experiência não teve continuidade prolongada, e os músicos passaram por outras formações antes de retornarem ao sul da Inglaterra.

Gren Fraser desenvolveu atividades com grupos como Rudy and the Zipps e Lion, formação associada à cantora Jenny Haan, ex-Babe Ruth. Peter Thorpe participou de projetos ligados à cena alternativa britânica, incluindo Magic Muscle, e posteriormente trabalhou com a Raising the Dead. Durante os anos seguintes, também viveu na Espanha, onde voltou a cantar em apresentações de repertório variado.

Neil Tatum continuou sua trajetória musical em diferentes formações regionais, enquanto Bernard James permaneceu ligado ao circuito de músicos de Bournemouth. James também se tornou conhecido por sua atividade comercial no setor de instrumentos musicais, mantendo contato com integrantes da cena local durante décadas.

Com o passar dos anos, Unchained passou a despertar interesse entre colecionadores de Rock britânico obscuro. A escassez das prensagens originais, associada à sonoridade do álbum e ao curto período de atividade da banda, contribuiu para sua valorização no mercado especializado. O disco tornou-se um registro procurado por colecionadores interessados na transição entre o Blues Rock psicodélico e o Hard Rock do início dos anos 1970.

Em 1990, a See for Miles Records recuperou Unchained em LP e CD, preservando as oito músicas do lançamento original. A edição em CD, identificada pelo número de catálogo SEE CD 286, permitiu que o repertório alcançasse novos ouvintes duas décadas depois de sua gravação. Outras reedições surgiram posteriormente, ampliando a circulação de um álbum que havia recebido atenção comercial limitada em seu lançamento.

A história da Elias Hulk ganhou um novo capítulo em 2008, quando Bernard James promoveu uma reunião com antigos companheiros. O projeto reuniu James Haines, Gren Fraser e Phil Clough, músico que havia participado da trajetória inicial da banda antes da formação consolidada de Unchained. O reencontro resultou no EP Unfinished Business, composto por três músicas gravadas no Listen Inn Studios, em Dorset.

A retomada não representou uma reconstrução integral da formação de 1970. A ausência de Peter Thorpe e Neil Tatum alterou a configuração instrumental e vocal do grupo, enquanto as novas gravações apresentaram uma abordagem diferente daquela registrada no álbum original. Ainda assim, o projeto demonstrou o interesse dos músicos em recuperar uma história interrompida décadas antes.

Uma nova reunião ocorreu em 2011, desta vez sem Gren Fraser. Bernard James, James Haines e Phil Clough entraram no Atomic Studios, em Londres, para trabalhar em material adicional. As sessões resultaram em seis músicas, posteriormente disponibilizadas em 2012 sob o título Elias Hulk Extended Play. O lançamento ampliou a discografia do grupo, embora Unchained tenha permanecido como seu único álbum completo de estúdio.

Os anos seguintes trouxeram perdas importantes para a história da Elias Hulk. Peter Thorpe morreu em janeiro de 2021, e Neil Tatum faleceu em dezembro de 2022. No mesmo período, Bernard James voltou a manter contato com antigos integrantes e participou de tentativas de desenvolver novas gravações. Os planos, entretanto, não resultaram em outro lançamento.

A morte de Bernard James, em 24 de maio de 2024, encerrou a possibilidade de uma nova reunião envolvendo o baterista, que havia desempenhado papel fundamental tanto na formação original quanto nas iniciativas de recuperação da banda. Sua atuação também contribuiu para preservar fotografias, registros e informações sobre a Elias Hulk, material que posteriormente ajudou a documentar sua trajetória.

A Elias Hulk ocupa um espaço particular na história do Rock britânico. Sua existência inicial foi breve, e a ausência de uma carreira discográfica extensa impediu que o grupo alcançasse reconhecimento semelhante ao de outros representantes do período. Entretanto, Unchained registra uma fase de transformação musical em que bandas independentes exploravam a combinação entre Blues, psicodelia e guitarras pesadas, contribuindo para o desenvolvimento de uma linguagem que se consolidaria ao longo da década de 1970.

A redescoberta do álbum e as gravações realizadas décadas depois permitiram preservar diferentes etapas dessa trajetória. Mais do que uma curiosidade do colecionismo, a Elias Hulk representa o trabalho de músicos que participaram diretamente de uma das fases mais importantes da evolução do Rock britânico, deixando um registro que continua relevante para a compreensão das origens do Hard Rock e de suas relações com o Blues.

Formação clássica

Peter Thorpe: vocais
Neil Tatum: guitarra solo
Grenville Fraser: guitarra
James Haines: baixo
Bernard James: bateria

Outros integrantes associados à trajetória

Phil Clough: guitarra e participação nas reuniões posteriores
Bill Napier: guitarra em formação inicial

Produção de Unchained

Miki Dallon: produção
Dave Hunt e Larry Bartlett: engenharia de gravação
Pye Studios, Londres, Inglaterra: gravação
Peter Lee: ilustração da capa britânica original

Discografia

1970 – Unchained (Young Blood Records)
2008 – Unfinished Business (EP)
2012 – Elias Hulk Extended Play (EP)

Reedição histórica

1990 – Unchained (See for Miles Records, SEE CD 286)