Existe uma história paralela do Rock americano
que não aparece nos livros mais conhecidos, não ocupa as capas das grandes
revistas e não costuma fazer parte das retrospectivas sobre os anos 1970. É a
história das bandas que tocaram centenas de vezes em clubes, abriram shows para
artistas importantes, construíram uma identidade própria, gravaram demos e
pequenos lançamentos, mas nunca conseguiram transformar todo aquele trabalho em
um contrato fonográfico capaz de colocá-las diante de um público nacional. O Ultra,
de San Antonio, Texas, pertence exatamente a essa história. Seu álbum homônimo,
lançado originalmente em 2000 a partir de gravações realizadas entre 1975 e
1977, é um dos documentos mais interessantes dessa realidade. Mais do que uma
coleção de gravações recuperadas do passado, Ultra é a prova de que sucesso
comercial e qualidade artística nunca caminharam necessariamente juntos. A
banda existiu durante uma época especialmente fértil para o Rock americano,
construiu uma reputação regional, dividiu palcos com artistas de projeção
nacional e deixou material suficiente para revelar uma identidade musical
bastante definida. O problema é que essa história ficou praticamente invisível
durante mais de duas décadas.
A história começa em 1974, quando o vocalista Don
Evans e o guitarrista Galen Niles formaram o Ultra depois do fim do Homer,
banda anterior que também fazia parte da cena musical de San Antonio. A
formação foi completada por Larry McGuffin na segunda guitarra, Scott Stephens
no baixo e Tom Schleuning na bateria. A escolha de trabalhar com dois
guitarristas acabou se tornando o centro da identidade musical do grupo. Niles
e McGuffin desenvolveram uma linguagem baseada em riffs, harmonias e solos que
colocava o Ultra em algum lugar entre o Hard Rock, o Blues texano, o Boogie e
aquilo que hoje reconhecemos claramente como Southern Rock pesado. Não era uma
banda interessada em escolher uma única influência e construir toda sua
identidade a partir dela. O Ultra estava inserido naquele ambiente musical do meio
dos anos 1970 em que fronteiras entre estilos eram muito mais abertas,
permitindo que uma banda do Texas carregasse simultaneamente o peso do Hard
Rock, a cadência do Blues, a força do Boogie e elementos que posteriormente
seriam associados ao Heavy Metal.
É nessa mistura que faz Ultra soar tão
particular. O disco não apresenta uma banda tentando imitar aquilo que estava
fazendo sucesso naquele momento, ele apresenta músicos que já haviam encontrado
uma linguagem própria e simplesmente não tiveram a oportunidade de registrá-la
dentro das estruturas tradicionais da indústria fonográfica. Quando Mutants
abre a compilação, as guitarras entram com força e imediatamente colocam Galen
Niles e Larry McGuffin no centro da narrativa. O mais interessante, porém, não
é apenas a quantidade de guitarra, mas a maneira como os dois músicos ocupam o
mesmo espaço sem transformar a música em uma disputa desorganizada. Existe uma
arquitetura naquele som, os riffs conversam, os solos aparecem como extensões
das composições e a seção rítmica mantém tudo em movimento com uma segurança
que denuncia uma banda acostumada ao palco.
Android reforça essa característica e acrescenta
uma atmosfera mais pesada. A guitarra continua sendo o elemento dominante, mas
a composição possui uma construção que permite perceber por que o Ultra pode
ser colocado naquele território musical que separa o Hard Rock do Heavy Rock
que surgiria com ainda mais força nos anos seguintes. É importante, entretanto,
não transformar essa observação em uma classificação retroativa. O Ultra não
era uma banda de Heavy Metal, e também não era simplesmente uma banda de Blues
Rock. O que encontramos é uma formação que absorvia diferentes linguagens e as
transformava em algo próprio. Essa região intermediária é justamente onde
reside boa parte do interesse do álbum.
Battery continua trabalhando nessa combinação e
revela outro componente fundamental: Don Evans. Sua voz possui força e aspereza
suficientes para atravessar a parede de guitarras criada por Niles e McGuffin,
mas sem desaparecer atrás dos instrumentos. A presença de Evans impede que Ultra
se transforme em uma simples demonstração de virtuosismo, existe uma banda ali,
e não apenas dois guitarristas tentando mostrar quem toca mais. Scott Stephens
e Tom Schleuning formam uma base firme, deixando espaço para as guitarras sem
se tornarem meros coadjuvantes. A bateria mantém aquela pulsação pesada que dá
às músicas uma sensação de movimento constante, enquanto o baixo estabelece o
chão sobre o qual as guitarras podem trabalhar.
Essa característica acompanha praticamente toda a
coleção. Ten Years Since amplia o espaço para os instrumentos e mostra que o
Ultra sabia construir tensão sem depender apenas da velocidade. Lamp Black,
White Fight é mais direta, enquanto Windjammer oferece novamente espaço para o
trabalho instrumental. O repertório possui variedade suficiente para evitar a
sensação de que estamos diante de 16 versões da mesma música. E essa variedade
é importante porque demonstra que havia composição por trás daquela força
instrumental. As faixas reunidas no álbum são atribuídas principalmente a Don
Evans, Galen Niles e Larry McGuffin, reforçando a importância dos três na
construção da identidade criativa do grupo.
Diggin' Deep mantém o peso das guitarras e o
groove característico da banda, enquanto Circe permite que o Ultra trabalhe com
uma atmosfera mais longa e desenvolvida. É nesse tipo de faixa que fica ainda
mais claro que o grupo não dependia exclusivamente da fórmula mais direta do
Boogie, havia espaço para criar ambientes e explorar diferentes intensidades. Seasons
Pass e City on Ice seguem por caminhos distintos, mas continuam reconhecíveis
dentro da mesma identidade. O mérito está justamente nessa capacidade de variar
sem perder o fio condutor. As guitarras permanecem no centro, o baixo e a
bateria sustentam o conjunto e Don Evans mantém a personalidade vocal que dá
unidade ao material.
A história por trás dessas gravações torna tudo
ainda mais impressionante. O Ultra não era uma banda desconhecida dentro de seu
próprio circuito. O grupo passou anos tocando e chegou a dividir o palco com
artistas que possuíam projeção muito maior. Entre os nomes que cruzaram o
caminho da banda estavam Alvin Lee, Pat Travers, Blackfoot, Legs Diamond, Moxy
e Be-Bop Deluxe. Isso muda completamente a percepção sobre a banda. Não estamos
falando de músicos isolados, tocando em uma garagem e sonhando com um contrato, o Ultra tinha experiência de palco, tinha repertório, tinha estrada e havia
conseguido construir uma reputação regional suficientemente forte para ser
chamado para abrir apresentações de artistas que estavam circulando pelo país. O
problema estava em outro lugar, a indústria fonográfica simplesmente não abriu
a porta.
Apesar das centenas de quilômetros percorridos em
turnês e dos anos de atividade a partir de San Antonio, o Ultra não conseguiu
chamar a atenção das grandes gravadoras com distribuição nacional. Durante sua
existência, chegou a produzir apenas um EP promocional de cinco músicas em
pequena escala, e a banda encerrou suas atividades em 1978. Essa é uma das
partes mais fascinantes da história porque desmonta aquela ideia confortável de
que as melhores bandas sempre encontram seu caminho até o público. Nem sempre
encontram. Uma banda podia ser boa, podia tocar muito, podia ter repertório,
podia fazer estrada e podia dividir palco com artistas importantes e, ainda
assim, desaparecer completamente do radar. O Ultra desapareceu, as músicas,
não.
Mais de duas décadas depois, as gravações foram
recuperadas e reunidas em uma coleção simplesmente chamada Ultra. O intervalo
entre a gravação e a publicação é parte essencial da história. Quando aquelas
músicas finalmente chegaram ao público em 2000, o contexto musical era
completamente diferente daquele em que haviam sido gravadas. O Rock dos anos
1970 havia sido redescoberto por novas gerações, e uma série de cenas surgidas
nas décadas seguintes havia recuperado justamente aquele tipo de guitarra
pesada, de riffs densos e de produção pouco polida que caracterizava muitas
gravações independentes da década de 1970.
O Ultra, de certa maneira, encontrou seu público
tarde demais, e isso muda completamente a maneira de ouvir o álbum.
The Desert é um dos momentos em que essa dimensão
fica particularmente evidente. A faixa trabalha com um clima mais amplo e
mostra que a banda sabia criar atmosfera sem abandonar seu peso. Souled There
With Care devolve o foco ao groove, enquanto Man on the Street mantém a coleção
avançando com a mesma segurança. Get Away segue essa linha e demonstra como o
grupo conseguia ser direto sem cair na simplicidade. A sequência mostra uma
banda que conhecia muito bem seu território musical, mesmo sem ter tido a
oportunidade de construir uma discografia oficial capaz de documentar sua
evolução.
Compass, com mais de cinco minutos, oferece outro
momento especialmente interessante. Uma banda como o Ultra precisava de espaço
para suas guitarras, não necessariamente espaço vazio, mas tempo para
desenvolver ideias. A duração maior permite que Niles e McGuffin trabalhem
dentro da estrutura da composição sem que tudo precise acontecer imediatamente.
É uma faixa que ajuda a compreender que a dupla de guitarristas não estava ali
apenas para aumentar o volume, existia uma linguagem construída entre os dois.
Hot N Cold encerra a coleção mantendo a energia
que aparece desde a abertura. E esse fechamento também reforça uma
característica importante do álbum: mesmo sendo uma compilação montada décadas
depois, Ultra possui uma coerência sonora impressionante. As 16 músicas
pertencem claramente ao mesmo universo. Não há a sensação de que estamos
juntando gravações de fases completamente diferentes ou tentando fabricar
artificialmente a história de uma banda perdida, o que existe é o registro de
um grupo que possuía uma identidade definida durante o curto período em que
esteve ativo.
O Ultra era realmente uma banda boa, e essa conclusão não depende da nostalgia ou da tentativa de transformar toda banda obscura dos anos 1970 em uma obra-prima perdida, as próprias gravações sustentam essa avaliação.
O Texas está presente não apenas na origem
geográfica da banda, mas na maneira como o Rock é tocado. Existe aquela
sensação de música construída para grandes distâncias, estradas, bares, clubes
e palcos. A guitarra tem peso, o baixo tem presença, a bateria empurra e o
vocal não pede licença. É Rock que parece ter sido feito para ser ouvido alto.
A dupla de guitarras aproxima o grupo de outras formações que fizeram do
instrumento uma espécie de assinatura, mas o Ultra não desaparece dentro dessas
referências, há uma personalidade própria, e isso ajuda a colocar o Ultra
dentro de uma história maior.
Quando falamos sobre o Southern Rock, é natural
que a narrativa se concentre nas bandas que tiveram exposição nacional e
construíram catálogos extensos. Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, ZZ
TOP, Molly Hatchet, The Outlaws, Blackfoot e tantas outras deixaram registros
suficientes para que suas histórias fossem preservadas, mas o Southern Rock
também foi feito por dezenas de bandas que nunca chegaram ao segundo LP, que
nunca tiveram contrato importante, que permaneceram em circuitos regionais e
que acabaram desaparecendo quando a oportunidade não apareceu. O Ultra pertence
a esse universo, e permite enxergar esse lado da história com uma clareza rara.
A banda não teve tempo suficiente para construir uma discografia capaz de mostrar sua evolução completa. Não sabemos até onde teria chegado se tivesse recebido uma oportunidade maior, o material que sobreviveu já é suficiente para demonstrar o potencial do grupo. Temos cinco músicos que encontraram uma linguagem própria, temos repertório, temos experiência de palco e temos gravações que permaneceram escondidas durante décadas antes de finalmente receberem uma segunda oportunidade.
Quando essas gravações reaparecem em 2000, o Ultra já não precisa competir com ninguém, não precisa disputar espaço nas rádios, não precisa convencer uma gravadora, não precisa abrir shows para uma banda maior. O tempo fez o trabalho que a indústria não havia feito. O álbum chega ao ouvinte sem a obrigação de vender nada além da própria música. A música se sustenta.
A qualidade das guitarras é provavelmente o
primeiro elemento que chama atenção, mas não deveria ser o único. O grande
mérito do Ultra está na integração entre os músicos. Galen Niles e Larry
McGuffin são excelentes, mas não funcionariam da mesma maneira sem Scott
Stephens e Tom Schleuning. Da mesma forma, o vocal de Don Evans é fundamental
para impedir que as composições se transformem em meras plataformas
instrumentais. A força do conjunto é maior que a soma das partes.
Esse é um ponto importante porque existe uma
quantidade enorme de gravações obscuras dos anos 1970 que chamam atenção
durante alguns minutos justamente pelo trabalho de guitarra, mas depois se
tornam repetitivas. Ultra escapa dessa armadilha porque as músicas possuem
identidade suficiente para sobreviver além dos solos. E isso também explica por
que o álbum envelheceu tão bem.
Não existe nele uma dependência excessiva de
tendências específicas. A produção é claramente de sua época, naturalmente, mas
o material não depende de efeitos ou truques de estúdio. A base é simples: boas
composições, guitarras fortes, uma seção rítmica competente e um vocalista
capaz de sustentar aquela sonoridade. São elementos que não envelhecem.
O mais curioso é que, quando ouvimos Ultra hoje,
podemos perceber conexões com bandas e estilos que só ganhariam forma comercial
muitos anos depois. Mas isso deve ser tratado com cuidado, o Ultra não
antecipou conscientemente o futuro, não há razão para inventar uma narrativa de
visionários incompreendidos. Eles eram músicos de seu tempo, tocando aquilo que
fazia sentido dentro do ambiente musical em que estavam inseridos. O fato de
sua música continuar funcionando décadas depois é consequência da qualidade do
material, não de alguma suposta previsão do futuro. Essa honestidade histórica
é importante, o Ultra não precisa ser transformado em uma banda lendária que
nunca foi, sua história real já é suficientemente interessante.
Uma banda formada em San Antonio em 1974, com
dois guitarristas trabalhando em conjunto, que passou anos na estrada, abriu
para artistas importantes, gravou material entre 1975 e 1977, encerrou suas
atividades em 1978 e só teve suas principais gravações reunidas e publicadas
oficialmente em 2000. É uma trajetória curta, mas cheia de elementos que ajudam
a compreender como funcionava a cena do Rock americano fora dos grandes centros
da indústria.
E o Texas é fundamental nessa história.
San Antonio não era Nova York, Los Angeles ou
Londres. Uma banda podia construir uma reputação enorme dentro de sua região e
continuar praticamente invisível para o mercado nacional. O Ultra viveu
exatamente essa realidade. O circuito local podia sustentar uma banda durante
algum tempo, mas transformar essa reputação regional em uma carreira
fonográfica era outro desafio.
Isso explica por que tantas bandas daquele
período desapareceram. E explica por que discos como Ultra são tão importantes
para quem gosta de pesquisar a história do Rock para além dos nomes conhecidos.
Eles mostram o que ficou de fora, mostram que a história do gênero não pode ser
contada apenas através dos discos que chegaram às lojas em grande escala.
Existe uma quantidade de material que sobreviveu em pequenos selos,
demos, gravações promocionais e arquivos particulares. Quando esse material
reaparece, ele não necessariamente muda a história oficial, mas amplia nossa
compreensão dela.
Ultra faz exatamente isso, ele não substitui
ninguém e não precisa, ele simplesmente acrescenta uma peça que estava
faltando, e essa peça é pesada.
As guitarras de Galen Niles e Larry McGuffin carregam boa parte da identidade do grupo, mas a música nunca perde seu caráter de banda. A cozinha formada por Scott Stephens e Tom Schleuning mantém o conjunto firme, enquanto Don Evans oferece a personalidade vocal necessária para transformar riffs em músicas. O resultado é uma sonoridade que pode ser associada ao Hard Rock, ao Boogie Rock, ao Blues texano e ao Southern Rock, sem precisar ficar presa a uma única definição.
Quando Mutants começa, temos uma banda pesada.
Quando Compass se desenvolve, temos uma banda capaz de criar espaço. Quando The
Desert constrói sua atmosfera, temos uma banda que entende dinâmica. Quando Hot
N Cold encerra o álbum, temos a certeza de que aquelas músicas pertencem ao
mesmo grupo.
No final, a grande história não é a de uma banda que "poderia ter sido". Essa é uma narrativa impossível de comprovar, a história que podemos contar é melhor: a de uma banda que foi boa, trabalhou, gravou, tocou e deixou um material que permaneceu escondido por décadas até que alguém finalmente entendesse que aquilo merecia ser ouvido.
Formação
Don Evans - vocais
Galen Niles - guitarra
Larry McGuffin - guitarra
Scott Stephens - baixo
Tom Schleuning - bateria
As gravações reunidas em Ultra foram realizadas
em San Antonio entre 1975 e 1977.
Tracklist completa
1.
Mutants
2.
Android
3.
Battery
4.
Ten Years Since
5.
Lamp Black, White Fight
6.
Windjammer
7.
Diggin' Deep
8.
Circe
9.
Seasons Pass
10. City on Ice
11. The Desert
12. Souled There With Care
13. Man on the Street
14. Get Away
15. Compass
16. Hot N Cold
Renato Martins São Pedro
Southern Rock Site Brazil










