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Nocturn

 


Quando cinco músicos de Hamburgo decidiram formar uma banda em 1994, a intenção não era simplesmente montar mais um grupo de Rock. Nocturn nasceu com uma proposta bastante definida: tocar seu próprio Southern Rock e Blues Rock, absorvendo a linguagem das bandas americanas que aqueles músicos admiravam e transformando essas influências em repertório próprio. A escolha das referências já dizia muito sobre o caminho que pretendiam seguir. The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, ZZ TOP, Stevie Ray Vaughan, Molly Hatchet e Doc Holliday estavam entre os nomes que alimentavam a formação musical do grupo.

No começo, entretanto, o Nocturn precisava construir uma identidade antes de se aventurar completamente no repertório autoral. A banda passou a montar um repertório extenso baseado em músicas de seus ídolos e, pouco a pouco, começou a acrescentar suas próprias composições. Em 1995 aconteceu a estreia ao vivo, no clube Logo, em Hamburgo, diante de mais de 250 pessoas. O primeiro show durou mais de duas horas e estabeleceu uma relação com o público que seria fundamental para os anos seguintes. Pouco antes da apresentação, o grupo também havia gravado na Radio Hamburg um pequeno material acústico para divulgação, incluindo uma versão de uma música dos Allman Brothers e uma gravação de Carolina, uma das primeiras composições próprias do Nocturn.

A banda começou a circular pelos clubes do norte da Alemanha e, em 1996, entrou no estúdio para registrar uma demo de três músicas. A gravação foi feita praticamente ao vivo e em apenas um dia, preservando justamente aquilo que parecia ser uma das características mais importantes do Nocturn: a energia de uma banda tocando junta, sem excesso de produção. No ano seguinte, o grupo ampliou sua área de atuação, passando por diferentes cidades alemãs e participando inclusive de festivais ao ar livre.

1998 seria um ano decisivo. O Nocturn recebeu o convite para abrir para .38 Special na Große Freiheit 36, em Hamburgo, mas a turnê acabou cancelada. Poucos meses depois, entretanto, surgiu uma oportunidade ainda maior. Em novembro, a banda foi escolhida como atração de abertura para Molly Hatchet, novamente na Große Freiheit 36, diante de aproximadamente 800 pessoas. O desempenho chamou a atenção inclusive dos próprios americanos, que já haviam elogiado o som do grupo durante a passagem de som. Para uma banda independente alemã que havia começado tocando covers em clubes poucos anos antes, aquele momento representava uma espécie de confirmação de que o trabalho estava funcionando.

Depois dessa apresentação, o Nocturn voltou ao estúdio. Em 1999, gravou quatro novas composições próprias e recuperou os três títulos da antiga demo de 1996, através de overdubs e novas mixagens. O resultado foi um CD de sete músicas, enquanto a banda continuava fazendo shows pelo circuito alemão. O grupo chegou inclusive a tocar no Bluesgarage, em Hannover-Isernhagen, uma casa que também receberia Molly Hatchet durante sua turnê de 2000.

O ano 2000 trouxe outra daquelas noites que explicam por que bandas como o Nocturn merecem ser resgatadas. Em Hamburgo, o grupo dividiu o palco com Lizard, banda alemã de Southern Rock, e Doc Holliday, uma das grandes referências americanas do gênero. Para os integrantes do Nocturn, Doc Holliday não era apenas mais uma banda para dividir o palco, era uma de suas grandes influências. O grupo inclusive tocava músicas de Doc Holliday em seu repertório e teve a oportunidade de conhecer pessoalmente músicos que haviam inspirado sua própria formação.

A relação com Doc Holliday continuaria. No segundo semestre de 2001, o Nocturn foi convidado para participar da turnê europeia da banda americana e de Lizard, fazendo apresentações em Hannover e Hamburgo. Para uma banda alemã dedicada ao Southern Rock, aquilo representava uma conquista enorme: não apenas tocar músicas do gênero, mas ser chamada para dividir a estrada com alguns dos artistas que haviam ajudado a construir aquela linguagem.

Enquanto a presença ao vivo crescia, o Nocturn também trabalhava para finalmente colocar em um álbum toda a produção própria acumulada durante aqueles anos. Em 2000, o grupo voltou várias vezes ao estúdio e registrou outras músicas, incluindo uma faixa acústica gravada no estúdio doméstico do tecladista. Ao final do processo, havia material suficiente para um álbum completo de 12 faixas. O trabalho passou então pela masterização e pela preparação da arte e do encarte.

O resultado finalmente apareceu em 2001, quando o CD do Nocturn recebeu uma prensagem oficial com arte reformulada. O lançamento recebeu avaliações positivas de revistas, webzines e outros músicos, e a banda continuou trabalhando intensamente no circuito alemão.

A música Good as Gone acabou se tornando uma das marcas mais reconhecíveis desse repertório. A própria banda a apresenta como uma música de Southern Rock, com um refrão marcante, e a faixa chegou ao 15º lugar no Southern Rock Chart do SoundClick muitos anos depois, quando o material voltou a circular pela internet.

O Nocturn também conseguiu uma presença interessante fora da Alemanha. O grupo relata ter recebido execução em rádios locais e internacionais, inclusive na França e no Brasil, e em 2002 participou novamente de apresentações especiais, desta vez acompanhando a banda americana Rebel Storm. Aquele período representou provavelmente o ponto de maior atividade da história do grupo.

O mais interessante nessa trajetória é que o Nocturn nunca tentou esconder sua identidade. A banda era alemã, mas sua música vinha diretamente de uma tradição criada milhares de quilômetros dali. Não havia qualquer tentativa de transformar o grupo em uma caricatura sulista, eles simplesmente amavam aquele som, estudaram seus mestres, tocaram suas músicas, escreveram as próprias e foram conquistando espaço dentro do circuito europeu.

Estamos acostumados a pensar no Southern Rock como uma história exclusivamente americana, especialmente quando falamos de seus grandes nomes, mas o gênero atravessou fronteiras. Bandas europeias passaram a descobrir Lynyrd Skynyrd, Molly Hatchet, Doc Holliday, The Allman Brothers Band e ZZ TOP, incorporaram aquela linguagem e começaram a construir suas próprias interpretações. O Nocturn pertence exatamente a essa história.

A banda não teve uma longa discografia, não alcançou o mercado americano e não se transformou em um nome conhecido mundialmente, mas conseguiu algo que, para uma formação independente, era extraordinário: tocou ao lado de algumas das bandas que admirava, construiu um repertório próprio, lançou seu próprio CD e deixou registrada uma pequena história do Southern Rock europeu.

Cinco músicos de Hamburgo, em uma noite de 1998, entrando no palco da Große Freiheit 36 para abrir para Molly Hatchet.

Poucos anos antes, eles estavam tocando músicas dos seus ídolos em clubes alemães, agora estavam dividindo o palco com um deles.

Para quem gosta de garimpar a história do Southern Rock, isso vale muito, porque o Nocturn prova que aquele som não ficou preso ao Sul dos Estados Unidos, ele atravessou o Atlântico, encontrou músicos em Hamburgo e ganhou uma nova vida nas mãos de uma banda que acreditou que Southern Rock também podia ser feito na Alemanha.

Nocturn. Hamburgo, Alemanha. Southern Rock de coração.

Discografia

Nocturn
CD oficial com 12 faixas, lançado em 2001
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