Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo
do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou
atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse
contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Originários de Durango, no México, o grupo
começou sua história como Xippos Rock e acabou se tornando um dos nomes
fundamentais da chamada Onda Chicana, movimento que levou a psicodelia, o
Garage Rock, o Hard Rock e a contracultura para uma nova geração de músicos
mexicanos. À frente dessa história esteve Armando Nava, guitarrista, cantor,
compositor e multi-instrumentista que permaneceu como principal figura de
continuidade da banda ao longo das décadas.
A história começou no início dos anos 1960,
quando estudantes de Durango formaram o Xippos Rock. Armando Nava entrou ainda
jovem e rapidamente assumiu importância dentro do grupo. Naquele período, a
realidade era bem diferente da que encontrariam posteriormente. Os músicos nem
sequer dispunham de todo o equipamento necessário e chegaram a tocar com
guitarras acústicas adaptadas e uma cadeira de aço fazendo as vezes de bateria.
O repertório inicial era formado principalmente por versões de bandas mexicanas
de Rock'n'Roll.
A mudança decisiva aconteceu quando a banda
começou a se deslocar em direção à região de Tijuana. Durante uma passagem pelo
Texas, Armando Nava teve contato com os primeiros discos dos Beatles,
experiência que transformaria completamente os rumos musicais do grupo. A
influência britânica passou a conviver com as referências do Rock americano, e
os músicos começaram a trabalhar com repertório em inglês. Foi nesse período
que o nome Xippos Rock deu lugar a Dug
Dug's, uma abreviação de Durango, Durango, a terra natal da banda.
Tijuana foi fundamental para a formação da
identidade dos Dug Dug's. A
cidade, localizada na fronteira com os Estados Unidos, proporcionava contato
direto com uma quantidade de música e cultura que dificilmente chegava ao
restante do México com a mesma velocidade. O grupo passou a tocar regularmente
em bares e clubes, inclusive como banda residente, e construiu uma reputação
que ultrapassou rapidamente os limites da cidade.
Mais importante ainda, os Dug Dug's passaram a fazer algo que seria fundamental para a
história do Rock mexicano: começaram a apresentar tanto versões quanto músicas
próprias em inglês. A combinação de influências britânicas e americanas com a
realidade mexicana ajudou a formar uma nova linguagem que posteriormente seria
associada à Onda Chicana. O movimento reuniria diversos grupos que, cada um à
sua maneira, tentavam construir um Rock mexicano conectado ao que estava
acontecendo no restante do mundo.
Em meados dos anos 1960, os Dug Dug's chegaram à Cidade do México
e começaram a conquistar espaço em clubes e programas de televisão. A banda
também passou por mudanças de formação, até que Armando Nava e Jorge de la
Torre se consolidaram como figuras centrais. O grupo gravou singles para a RCA
e ganhou visibilidade nacional, inclusive trabalhando com versões de músicas
estrangeiras e material próprio.
A aventura internacional veio pouco depois. Em
1968, os Dug Dug's viajaram para
Nova York, onde tiveram contato direto com o circuito musical americano e
chegaram a registrar material em estúdio. A experiência, embora não tenha
resultado imediatamente no sucesso que esperavam, foi importante para
consolidar a visão musical de Armando Nava. Quando retornaram ao México, a
banda estava cada vez mais interessada em psicodelia, experimentação e em desenvolver
uma identidade própria.
Foi nessa fase que os Dug Dug's entraram definitivamente na história do Rock mexicano. O
primeiro álbum, Dug Dug's, chegou em 1971 pela RCA Victor, reunindo músicas
cantadas em inglês e uma sonoridade marcada pela psicodelia, pelo Garage Rock e
pelo Rock pesado. O disco trouxe músicas como Lost in My World, World of Love e
Eclipse, que se tornariam referências dentro do catálogo da banda.
O ano de 1971 foi particularmente importante
porque os Dug Dug's participaram
do Festival de Rock y Ruedas de Avándaro, realizado nos dias 11 e 12 de
setembro daquele ano. O festival se transformou em um dos grandes
acontecimentos da história cultural mexicana e em um marco da contracultura
latino-americana. Os Dug Dug's
estavam entre os grupos que ajudaram a definir aquele momento do Rock mexicano.
Depois de Dug Dug's, a banda entrou em uma fase
de transformação. Smog, lançado em 1972, aprofundou o lado experimental e
psicodélico, aproximando o grupo também de elementos do Rock progressivo. O
momento histórico, porém, havia mudado. Depois de Avándaro, o Rock mexicano
passou a enfrentar forte repressão e dificuldades para conseguir espaço nos
meios de comunicação e nos grandes palcos. A cena foi empurrada para a
clandestinidade, e bandas como os Dug
Dug's precisaram encontrar novas maneiras de continuar trabalhando.
Nesse novo ambiente, a banda também mudou sua
relação com o idioma. Se os primeiros trabalhos haviam explorado fortemente o
inglês, Smog já apontava para uma presença maior do espanhol. Cambia, cambia,
de 1975, aprofundou essa transformação, enquanto El loco, de 1978, encerrou
aquele primeiro grande ciclo fonográfico dos Dug Dug's. A trajetória desses discos mostra uma banda que nunca
ficou parada em uma única fórmula e que acompanhou as transformações da cena
mexicana ao mesmo tempo em que tentava preservar sua identidade.
Armando Nava, entretanto, não abandonou o
projeto. Ao longo das décadas seguintes, os Dug Dug's passaram por inúmeras mudanças de formação, mas Nava
permaneceu como o principal elo entre as diferentes fases. O grupo continuou
ligado à Cidade do México e voltou a se apresentar em diferentes momentos,
mantendo viva uma história que já havia começado muitos anos antes em Durango.
O reconhecimento histórico dos Dug Dug's também cresceu com o passar
do tempo. O que durante os anos 1960 e 1970 era visto como parte de uma cena
jovem e contracultural passou a ser reconhecido como um dos capítulos
fundamentais da história do Rock mexicano. Instituições culturais mexicanas passaram
a revisitar a obra do grupo e de outros nomes da Onda Chicana, destacando sua
importância na construção de uma identidade própria para o Rock produzido no
país.
A influência dos Dug Dug's ultrapassou as fronteiras mexicanas. A banda chegou a
levar seu Rock psicodélico para países como Estados Unidos, Holanda, Alemanha,
Bélgica e Japão, mostrando que aquela experiência nascida em Durango e
amadurecida em Tijuana havia encontrado uma linguagem capaz de dialogar com
públicos muito diferentes.
O grupo também ganhou uma nova vida para gerações
que nem sequer haviam acompanhado sua fase clássica. Músicas como Lost in My
World voltaram a circular em produções audiovisuais internacionais, ajudando a
apresentar os Dug Dug's a novos
ouvintes. O catálogo passou por reedições e compilações, enquanto a história da
banda continuou sendo recuperada por pesquisadores, colecionadores e
apaixonados pelo Rock latino-americano.
A história dos Dug Dug's é, portanto, muito maior do que a de uma banda
psicodélica mexicana dos anos 1960. É a história de músicos que atravessaram
uma fronteira cultural, descobriram o Rock britânico e americano, incorporaram
essas influências à própria realidade, ajudaram a criar a Onda Chicana e
sobreviveram a um dos períodos mais difíceis para o Rock mexicano. Armando Nava
tornou-se o guardião dessa história, mantendo o nome Dug Dug's vivo através de sucessivas gerações.
Para o Southern Rock Site Brazil, a presença dos Dug Dug's faz sentido justamente por
essa ligação com as raízes do Rock americano e com uma geração que entendia o
Rock como linguagem de liberdade, descoberta e identidade. Eles não são uma
banda de Southern Rock. São uma peça importante de um mapa muito maior, aquele
em que Blues, Garage, psicodelia, Hard Rock, Rock'n'Roll e música americana
atravessaram fronteiras e encontraram novas formas de existir.
Formação clássica
Armando Nava: guitarra, vocais, teclados e outros
instrumentos
Jorge Luján: guitarra e vocais
Jorge de la Torre: vocais
Sergio Orrante: bateria
Moisés Muñoz: baixo
Discografia de estúdio
Dug Dug's (1971)
Smog (1972)
Cambia, cambia (1975)
El loco (1978)










