Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo
do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou
atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse
contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Formado em Germantown, Maryland, no início dos
anos 1990, o Clutch construiu
uma das trajetórias mais particulares do Rock pesado americano. Neil Fallon nos
vocais e guitarra, Tim Sult na guitarra, Dan Maines no baixo e Jean-Paul Gaster
na bateria formaram o núcleo que atravessaria décadas praticamente sem
alterações, transformando uma banda que nasceu dentro da efervescente cena
alternativa dos Estados Unidos em uma instituição cultuada por fãs de Hard
Rock, Heavy Rock, Blues Rock, Stoner Rock e toda uma linhagem de música pesada
construída muito mais sobre riffs, groove e personalidade do que sobre fórmulas
comerciais.
A história começou com músicos que já se
conheciam da época de escola e que rapidamente perceberam que havia alguma
coisa diferente naquela combinação. Antes de adotarem definitivamente o nome Clutch, o grupo chegou a utilizar
outros nomes, até encontrar uma identidade própria que também refletia o
interesse dos integrantes por carros e pela cultura automobilística. Neil
Fallon entrou no lugar de Roger Smalls ainda nos primeiros tempos e passou a
ocupar uma posição que se tornaria fundamental para a personalidade da banda.
Desde o começo, o Clutch escolheu a estrada como uma espécie de escola. A banda
passou a tocar constantemente, construindo público show após show, enquanto sua
música escapava das classificações mais fáceis. O primeiro lançamento
importante foi o EP Passive Restraints, lançado pela Earache, que chamou a
atenção para aquele quarteto de Maryland e abriu caminho para um contrato com a
EastWest Records.
Em 1993 veio Transnational Speedway League:
Anthems, Anecdotes, and Undeniable Truths, o primeiro álbum completo, ainda
carregado daquela energia pesada e agressiva que aproximava o grupo da cena
alternativa e do Metal dos anos 1990. Dois anos depois, Clutch ampliou
consideravelmente o alcance da banda. O disco trouxe maior exposição e colocou
o grupo diante de um público mais amplo, embora o Clutch nunca tenha se transformado em uma banda convencional de
rádio.
A década de 1990 seria justamente o período em
que o Clutch aprenderia a
sobreviver dentro de uma indústria que nunca conseguiu enquadrá-lo
completamente. The Elephant Riders, lançado em 1998 pela Columbia, levou a
banda para uma gravadora ainda maior, enquanto Jam Room, de 1999, representou
praticamente o movimento contrário, sendo lançado de maneira independente. Em
vez de seguir uma linha previsível, o grupo continuava ampliando seu
vocabulário musical, incorporando Blues, Funk, psicodelia, boogie e elementos
de música americana ao peso dos riffs.
Em 2001, Pure Rock Fury levou o Clutch para a Atlantic Records e
apresentou uma banda mais direta, mas ainda absolutamente fiel à sua
personalidade. A faixa Careful With That Mic acabou recebendo atenção especial
nas rádios de Rock dos Estados Unidos, enquanto outras músicas do disco também
ganharam espaço. O sucesso, porém, não transformou o grupo em produto de massa.
Pouco depois, a Atlantic abandonou a banda, e o Clutch precisou novamente decidir se continuaria ou não.
A resposta veio através da própria estrada.
Depois do período difícil, a banda lançou registros ao vivo e materiais de
arquivo de maneira independente e encontrou um novo caminho com Blast Tyrant,
de 2004. O álbum representou uma espécie de renascimento artístico para o
grupo. O peso continuava presente, mas o groove havia ganhado ainda mais
importância, e músicas como The Mob Goes Wild ajudaram a consolidar uma nova
fase. O Clutch deixava cada vez
mais claro que não precisava disputar espaço com nenhuma outra banda, seu
público já sabia exatamente onde encontrá-lo.
Robot Hive/Exodus, de 2005, trouxe a primeira
alteração significativa na formação desde os primeiros anos, com a entrada do
tecladista Mick Schauer. A partir dali, o Clutch aprofundaria ainda mais sua relação com Blues, Soul, Rock
clássico e música americana. Em 2007, From Beale Street to Oblivion reforçou essa
característica e trouxe Electric Worry, uma das músicas mais conhecidas de sua
carreira. O próprio título já dizia muito sobre a direção da banda: Memphis,
Blues, estrada, peso e Rock'n'Roll convivendo no mesmo universo.
Depois de Strange Cousins from the West, de 2009,
o Clutch entrou em uma fase de
enorme estabilidade artística. A criação da Weathermaker Music deu à banda
maior controle sobre seu próprio catálogo e permitiu que o grupo trabalhasse
sem depender das grandes gravadoras que haviam marcado boa parte de sua
história anterior. Earth Rocker, lançado em 2013, trouxe uma sonoridade mais
direta, rápida e pesada, enquanto Psychic Warfare, de 2015, manteve essa
energia e alcançou uma das melhores posições comerciais da carreira do grupo.
É em Psychic Warfare que aparece uma
das demonstrações mais divertidas daquela conexão do Clutch com o imaginário sulista americano. A Quick Death in Texas
coloca a banda diante do Texas, misturando humor, Blues, boogie e Rock pesado
em uma história que transforma o estado em cenário para uma situação nada
confortável. A música se tornou uma das faixas mais marcantes daquela fase e
ajuda a mostrar por que o Clutch
consegue dialogar tão naturalmente com elementos que fazem parte do universo do
Southern Rock, mesmo sem ser uma banda de Southern Rock.
O interessante é que, mesmo depois de mais de
duas décadas de carreira, o Clutch
nunca deixou de funcionar como uma banda de palco. Neil Fallon já explicou que
tocar ao vivo sempre esteve no centro da identidade do grupo. Antes mesmo de
qualquer reconhecimento maior, os quatro integrantes estavam dispostos a entrar
em uma van e tocar para cem ou cento e cinquenta pessoas. Essa mentalidade
ajudou a criar uma das bases de fãs mais fiéis do Rock pesado americano.
Book of Bad Decisions, de 2018, mostrou que a
fórmula continuava longe de estar esgotada. Em vez de simplesmente repetir o
passado, o Clutch continuou
misturando Hard Rock, Blues, boogie, psicodelia e elementos da tradição musical
americana. A banda havia chegado a um ponto em que não precisava mais provar
nada para ninguém. Bastava continuar fazendo aquilo que sempre fez melhor:
escrever riffs fortes, criar grooves irresistíveis e colocar quatro músicos
extremamente entrosados em cima de um palco.
Em 2022 veio Sunrise on Slaughter Beach, o décimo
terceiro álbum de estúdio, mantendo essa trajetória de longevidade
impressionante. O disco reafirmou a capacidade do Clutch de continuar produzindo material novo sem depender apenas
da nostalgia de seus clássicos.
Ao longo de sua história, o Clutch também construiu uma relação
especial com o público brasileiro. A primeira apresentação no Brasil aconteceu
em 3 de agosto de 2014, no Cine Joia, em São Paulo, durante o Converse Rubber
Tracks Live. Dez anos depois, a banda voltou à capital paulista para outra
apresentação, mostrando que sua reputação no país havia crescido
consideravelmente.
Hoje, o Clutch
permanece como uma das bandas mais respeitadas de sua geração. Neil Fallon, Tim
Sult, Dan Maines e Jean-Paul Gaster atravessaram mudanças de mercado, contratos
com grandes gravadoras, crises da indústria fonográfica e transformações
profundas no Rock sem perder a identidade. O catálogo também continua recebendo
tratamento cuidadoso pela própria banda, com reedições e projetos especiais,
incluindo novas versões de trabalhos importantes de sua carreira.
Mais do que pertencer a um gênero específico, o Clutch criou um território próprio. É
pesado sem depender do Metal, bluesy sem ser uma banda de Blues, psicodélico
sem abandonar o Rock'n'Roll e americano sem precisar seguir as regras do
Southern Rock. Essa mistur faz sua presença no arquivo do Southern
Rock Site Brazil fazer sentido. Porque, quando o assunto é música de estrada,
riffs, groove, Blues, boogie e aquele velho espírito de tocar alto e seguir em
frente, o Clutch está
definitivamente em casa.
Formação principal
Neil Fallon: vocais, guitarra e outros
instrumentos
Tim Sult: guitarra
Dan Maines: baixo
Jean-Paul Gaster: bateria
Discografia de estúdio
Transnational Speedway League: Anthems,
Anecdotes, and Undeniable Truths (1993)
Clutch (1995)
The Elephant Riders (1998)
Jam Room (1999)
Pure Rock Fury (2001)
Blast Tyrant (2004)
Robot Hive/Exodus (2005)
From Beale Street to Oblivion (2007)
Strange Cousins from the West (2009)
Earth Rocker (2013)
Psychic Warfare (2015)
Book of Bad Decisions (2018)
Sunrise on Slaughter Beach (2022)










