Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo
do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou
atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse
contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Quando
o Blues começou a atravessar o Atlântico e conquistar uma geração de jovens
músicos britânicos, em meados dos anos 1960, Londres se transformou em um dos
grandes centros de redescoberta daquela música. Foi nesse ambiente que nasceu,
em 1965, o Savoy Brown, uma
banda que mergulharia profundamente no Blues americano e ajudaria a
transformá-lo em uma das bases do Rock pesado que dominaria os palcos durante a
década seguinte.
No
centro dessa história estava Kim
Simmonds, guitarrista que se tornaria a figura permanente do grupo. Ao
seu redor passariam dezenas de músicos ao longo das décadas, fazendo do Savoy
Brown uma das formações mais mutáveis da história do Blues Rock. As formações
mudavam, os vocalistas mudavam e a sonoridade atravessava diferentes fases, mas
Simmonds permanecia como o elo entre todas elas.
O
primeiro álbum, Shake Down, chegou em 1967 e já deixava clara a proposta. O
Savoy Brown não queria simplesmente usar o Blues como uma influência dentro do
Rock britânico, a banda queria tocar Blues. Riffs, guitarras, gaita, piano e
estruturas tradicionais estavam no centro da música, mas recebiam a energia de
uma banda de Rock formada por músicos jovens que haviam descoberto aqueles sons
através dos discos importados dos Estados Unidos.
A
banda encontrou nos Estados Unidos o público que precisava. Depois de construir
uma reputação na Inglaterra, o Savoy Brown passou a excursionar intensamente
pelo mercado americano e acabou estabelecendo uma relação tão forte com o país
que sua carreira passou a ser muito mais associada aos Estados Unidos do que à
própria Inglaterra. O circuito americano estava vivendo justamente uma explosão
de interesse por Blues Rock, e o Savoy Brown encontrou seu espaço entre
artistas que estavam levando aquela linguagem para clubes, teatros e, cada vez
mais, grandes palcos.
A
formação da banda mudava constantemente, mas algumas dessas mudanças acabariam
produzindo grandes consequências para a história do Rock. Entre os músicos que
passaram pelo Savoy Brown estava Lonesome
Dave Peverett, guitarrista e vocalista que se tornaria uma das figuras
fundamentais do Blues Rock britânico. Ao lado dele estavam Roger Earl, na bateria, e Tony Stevens, no baixo.
No
final de 1970, Peverett, Earl e Stevens deixaram o Savoy Brown. Ao lado do
guitarrista Rod Price, os três
formariam, no início de 1971, uma nova banda chamada Foghat. A relação entre os dois grupos é, portanto, muito mais
profunda do que uma simples coincidência de músicos. O Foghat nasceu
diretamente da experiência daqueles três integrantes dentro do Savoy Brown e
levou para sua nova formação aquela mesma paixão pelo Blues, mas com uma
abordagem ainda mais pesada, direta e voltada ao Rock and Roll e ao Boogie.
Essa
passagem é fundamental para compreender a importância histórica do Savoy Brown.
A banda não apenas ajudou a popularizar o Blues Rock britânico nos Estados Unidos, ela também funcionou como um verdadeiro viveiro de músicos que encontrariam
novos caminhos. O surgimento do Foghat é o exemplo mais evidente dessa
influência.
Enquanto
o Foghat começava a construir sua própria identidade, o Savoy Brown seguia seu
caminho. A década de 1970 seria seu período de maior reconhecimento, com álbuns
como Looking In, de 1970, Street Corner Talking, de 1971, e Hellbound Train, de
1972. A banda se tornava cada vez mais pesada sem abandonar suas raízes no
Blues, acompanhando uma transformação que também acontecia em outras partes do
Rock.
O
Savoy Brown estava inserido em uma cena musical que incluía nomes como The Allman Brothers Band, ZZ TOP, Foghat e diversas outras formações que encontravam no Blues uma
linguagem comum. A banda britânica não fazia Southern Rock, mas circulava pelo
mesmo universo musical em que o Blues começava a se transformar em algo maior.
A
conexão com o público americano se tornou tão forte que o Savoy Brown passou
boa parte de sua carreira excursionando pelos Estados Unidos. A banda encontrou
ali uma audiência particularmente receptiva ao seu estilo e construiu uma
reputação baseada principalmente no palco. Seus shows eram intensos, altos e
profundamente enraizados no Blues, características que ajudaram a aproximá-la
do público que também acompanhava o crescimento do Southern Rock e do Hard
Rock.
Outro
aspecto importante da história está na quantidade de
músicos que passaram pela banda. Miller
Anderson, Dave Walker, Hughie Flint, Lonesome Dave Peverett, Roger
Earl e Tony Stevens estão
entre os nomes associados às diferentes formações e cada um trouxe uma
personalidade diferente, mas todos ajudaram a manter a banda em movimento.
Kim
Simmonds permaneceu como o centro dessa história. Enquanto outras bandas de sua
geração encerraram suas atividades ou desapareceram quando o interesse
comercial pelo Blues Rock diminuiu, Simmonds continuou reconstruindo o Savoy
Brown. A banda atravessou o Punk, a New Wave, o Heavy Metal, o Grunge e todas
as transformações da indústria musical sem abandonar sua essência.
Isso
fez do Savoy Brown uma espécie de sobrevivente do Blues Rock britânico. A banda
nunca precisou seguir tendências para continuar existindo, seu compromisso
sempre foi com a guitarra, o Blues e aquela combinação simples e poderosa entre
músicos tocando juntos.
Ao
longo das décadas seguintes, o grupo continuou gravando e excursionando. A
formação mudou inúmeras vezes, mas Simmonds permaneceu no comando, mantendo
vivo um nome que já havia atravessado mais de meio século de história do Rock.
A
importância do Savoy Brown, entretanto, vai muito além de sua própria
discografia. A banda faz parte de uma cadeia histórica que começa no Blues
americano, passa pela redescoberta britânica dos anos 1960 e chega ao Blues
Rock, ao Boogie e ao Hard Rock que dominariam os Estados Unidos nos anos 1970.
E
poucas conexões demonstram isso tão claramente quanto o nascimento do Foghat.
Não
estamos falando de uma banda de Southern Rock, e não precisamos transformá-la
em uma para justificar sua presença aqui. O Southern Rock nasceu de outra
combinação de influências e de uma realidade cultural própria do Sul dos
Estados Unidos, mas o Blues que alimentou o Savoy Brown também alimentou The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, ZZ TOP, Molly Hatchet e tantas outras bandas. A linguagem era
compartilhada, ainda que cada cena encontrasse sua própria maneira de
interpretá-la.
Por
isso o Savoy Brown merece estar no acervo do Southern Rock Site Brazil.
Porque conhecer a história do Southern Rock também significa conhecer as estradas que levaram até ele, e uma dessas estradas passa inevitavelmente por Londres, pelo Blues americano redescoberto por jovens britânicos, por Kim Simmonds e por uma banda chamada Savoy Brown.
Formação inicial
Kim
Simmonds - Guitarra
Brice Portius - Vocais
John O'Leary - Gaita
Bob Hall - Piano
Ray Chappell - Baixo
Leo Manning - Bateria
Discografia de estúdio selecionada
1967
Shake Down
1969 A Step Further
1970 Looking In
1971 Street Corner Talking
1972 Hellbound Train
1973 Lion's Share
1974 Boogie Brothers
1975 Wire Fire
1976 Skin 'n' Bone
1978 Savage Return
1981 Savoy Brown Rock 'n' Roll Warriors
1985 Slow Train
1990 Make Me Sweat
1992 Let It Ride
1995 Blues, Balls & Boogie
2003 Strange Dreams
2011 Voodoo Moon
2015 Witchy Feelin'
2019 City Night
2020 Ain't Done Yet
2022 Blues Without Borders
2023 Ain't Done Yet... Again










