A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Mountain

 


Nota editorial | Southern Rock Site Brazil

Essa banda não pertence diretamente ao universo do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.

Antes que o Heavy Metal tivesse nome, antes que os riffs se tornassem a linguagem dominante do Rock pesado e antes que guitarristas passassem a medir sua força pela quantidade de notas disparadas por segundo, Leslie West já havia descoberto uma coisa muito mais poderosa: uma única nota, quando tocada com o timbre certo, pode derrubar uma parede.

Foi em torno dessa ideia que nasceu Mountain, uma das bandas fundamentais para compreender a evolução do Blues Rock para o Hard Rock e, posteriormente, para o Heavy Metal. Formada nos Estados Unidos em 1969 por Leslie West e pelo baixista, produtor e compositor Felix Pappalardi, a banda desenvolveu uma sonoridade monumental, baseada em guitarras saturadas, baixo pesado, bateria poderosa, vocais crus e uma profunda ligação com o Blues. O resultado era tão pesado para sua época que Mountain acabou sendo reconhecida como uma das precursoras do Heavy Metal.

Mas para entender Mountain é preciso voltar alguns anos e conhecer Leslie West antes da montanha. Nascido Leslie Weinstein, em 22 de outubro de 1945, em Nova York, West começou a ganhar reconhecimento durante os anos 1960 como guitarrista da banda The Vagrants, grupo de Long Island que transitava pelo Rhythm and Blues e pelo Rock. Os Vagrants chegaram a lançar singles e conquistaram alguma notoriedade regional, mas a importância daquela fase ultrapassaria muito o sucesso comercial que conseguiram alcançar. Foi através dos Vagrants que West cruzou seu caminho com Felix Pappalardi.

Pappalardi já era um músico e produtor respeitado, especialmente por seu trabalho com o Cream. Ele havia produzido Disraeli Gears, álbum fundamental para compreender a transformação do Blues em uma linguagem de Rock pesado, e sua experiência trabalhando com Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker seria decisiva para o som que construiria posteriormente com West. Quando West deixou os Vagrants, Pappalardi produziu seu primeiro álbum solo, lançado em 1969 e curiosamente intitulado Mountain. Pappalardi tocou baixo e participou da produção do disco, que já apresentava uma versão embrionária daquele som gigantesco que posteriormente seria desenvolvido pela banda. A parceria funcionou tão bem que os dois decidiram transformar o projeto em uma banda.

A primeira formação contou com West na guitarra e vocais, Pappalardi no baixo e vocais, N. D. Smart na bateria e Steve Knight nos teclados. A banda começou a fazer apresentações ainda em 1969 e, em pouco tempo, recebeu uma oportunidade que mudaria para sempre sua história. Mountain tinha pouquíssimos shows no currículo quando foi convidada para participar de Woodstock. A apresentação aconteceu na noite de 16 de agosto de 1969, durante o segundo dia do evento. Segundo o arquivo oficial de Woodstock, a banda subiu ao palco por volta das nove da noite e apresentou onze músicas, entre elas Blood of the Sun, Stormy Monday, Theme for an Imaginary Western, Long Red, For Yasgur's Farm, Beside the Sea, Waiting to Take You Away, Dreams of Milk and Honey, Blind Man, Dirty Shoes Blues e Southbound Train. Foi apenas a quarta apresentação da banda. Imagine a situação: um grupo praticamente desconhecido, com poucos meses de existência, subindo diante de uma multidão que se aproximava de meio milhão de pessoas e apresentando uma música que, para os padrões daquele momento, era absurdamente pesada. Mountain não apareceu no filme original de Woodstock, mas sua participação foi decisiva para a carreira. A exposição proporcionada pelo festival colocou a banda imediatamente no radar do público e da indústria musical.

Pouco depois de Woodstock, aconteceu a mudança que consolidaria a formação mais importante da primeira fase da banda. Corky Laing substituiu N. D. Smart na bateria. Laing havia sido convidado por Pappalardi e West em setembro de 1969 e entrou rapidamente na rotina da banda, chegando a tocar em um show no Boston Tea Party apenas uma semana depois. Com West, Pappalardi, Laing e Knight, Mountain encontrou sua identidade mais marcante, e que identidade. Leslie West tinha um dos timbres mais reconhecíveis da história da guitarra. Seu instrumento parecia uma parede de amplificadores em movimento. Havia peso, mas havia também espaço. Ele não precisava tocar cem notas quando duas resolviam o problema. Seu estilo era profundamente ligado ao Blues, mas levado a uma dimensão de volume e distorção que apontava diretamente para o futuro.

Pappalardi era o contraponto perfeito. Seu baixo não funcionava simplesmente como sustentação harmônica. Ele ajudava a criar o peso da banda, enquanto sua experiência como produtor contribuía para organizar aquela massa sonora. Além disso, Pappalardi dividia os vocais com West, criando uma combinação bastante particular entre a voz mais áspera de Leslie e a abordagem mais melódica de Felix. Laing acrescentava uma bateria poderosa, com forte presença do bumbo e uma maneira de tocar que preenchia os enormes espaços deixados pelas guitarras. Steve Knight, por sua vez, adicionava teclados e texturas que impediam a música de se transformar simplesmente em uma parede de riffs.

Em 1970, Mountain lançou Climbing!, seu primeiro álbum propriamente dito, e o disco trouxe a música que mudaria para sempre a trajetória da banda: Mississippi Queen. Escrita por Corky Laing, David Rea, Felix Pappalardi e Corey Pinfield, a faixa começava com aquela bateria inesquecível e imediatamente era tomada pelo riff de West. O resultado era simples, pesado e irresistível. Mississippi Queen alcançou a posição 21 na Billboard americana e se tornou o maior sucesso comercial da carreira da banda, enquanto o álbum chegou ao número 17 e recebeu certificação de ouro.

Mas reduzir Climbing! a Mississippi Queen seria uma grande. O álbum apresentava Never in My Life, Silver Paper, For Yasgur's Farm, Sittin' on a Rainbow, To My Friend e Theme for an Imaginary Western, esta última composta por Jack Bruce, parceiro de Pappalardi na história do Cream. E aqui existe uma conexão histórica maravilhosa. A música havia sido escrita por Jack Bruce e Pete Brown para o álbum solo de Bruce, mas Mountain transformou Theme for an Imaginary Western em uma de suas interpretações definitivas. A relação entre Cream e Mountain, portanto, não era simplesmente uma influência musical. Era uma espécie de continuidade. Pappalardi havia ajudado a construir o som do Cream no estúdio e agora levava aquela experiência para uma banda que empurraria o Blues Rock para territórios ainda mais pesados. Mountain estava, literalmente, carregando o bastão.

Em 1971 veio Nantucket Sleighride, segundo álbum de estúdio e um dos maiores momentos criativos da banda. O disco chegou ao número 16 nos Estados Unidos e também recebeu certificação de ouro. A faixa-título tornou-se uma das grandes composições da história da banda. Mais longa, atmosférica e progressiva que Mississippi Queen, Nantucket Sleighride mostrava que Mountain não dependia apenas da fórmula do riff pesado. Havia espaço para dinâmica, improvisação, mudanças de andamento e construção instrumental. O próprio Leslie West explicou posteriormente que queria que sua guitarra assumisse diferentes funções dentro da banda, quase como uma orquestra de Rock, utilizando seu instrumento para ocupar espaços que normalmente seriam preenchidos por diferentes instrumentos.

E nos palcos a música crescia ainda mais. Mountain Live: The Road Goes Ever On, lançado em 1972, registrou justamente essa dimensão. A versão de Nantucket Sleighride chegava a aproximadamente 17 minutos e demonstrava como a banda transformava suas composições em verdadeiras viagens instrumentais durante os shows. Ainda em 1971, Mountain lançou Flowers of Evil, um trabalho dividido entre material de estúdio e gravações ao vivo. O disco aprofundava a característica mais experimental da banda e incluía uma versão extensa de Mississippi Queen e a própria Nantucket Sleighride em sua dimensão mais expansiva.

Só que, por trás da música, as relações internas começavam a ficar complicadas. Pappalardi era um homem extremamente exigente. Sua experiência como produtor fazia com que tivesse uma visão muito definida sobre a banda e sobre a maneira como ela deveria trabalhar. Corky Laing posteriormente descreveu aqueles primeiros anos como um ambiente extremamente disciplinado, quase como um treinamento militar. A personalidade forte de Pappalardi e sua necessidade de controle acabariam contribuindo para o desgaste interno do grupo.

Em 1972, Felix Pappalardi deixou Mountain para voltar a concentrar-se na produção. A saída não significou o fim imediato da história. West e Laing seguiram por outro caminho, e foi justamente nesse momento que apareceu uma das formações mais fascinantes da história do Rock pesado. Leslie West e Corky Laing se uniram ao antigo baixista do Cream, Jack Bruce, formando West, Bruce & Laing, um power trio que parecia uma continuação natural de tudo aquilo que Pappalardi havia ajudado a construir. Os três lançaram Why Dontcha, em 1972, Whatever Turns You On, em 1973, e o álbum ao vivo Live 'n' Kickin', em 1974.

Enquanto isso, Mountain voltou a existir. Em 1973, West e Laing reconstruíram a banda com Pappalardi, o baterista Allan Schwartzberg e o tecladista e guitarrista Bob Mann, entre outros músicos que circularam pela formação. O resultado foi Twin Peaks, álbum ao vivo gravado no Japão, seguido por Avalanche, de 1974. Mas a instabilidade da formação e os conflitos internos acabaram levando a mais uma dissolução.

West então concentrou-se em sua carreira solo. Lançou The Great Fatsby, em 1975, com participação de Mick Jagger, e posteriormente The Leslie West Band, de 1976, que contou com Mick Jones, futuro guitarrista do Foreigner. Durante os anos seguintes, Leslie West enfrentou problemas pessoais e de dependência química que afetaram profundamente sua carreira. Ainda assim, a história da Mountain estava longe de terminar.

Em 1981, West e Corky Laing voltaram a se aproximar. Em 1985, Mountain retornou oficialmente com Go for Your Life, contando com Mark Clarke no baixo. Pappalardi não fazia mais parte da banda e sua ausência era definitiva. E havia uma razão dolorosa. Felix Pappalardi havia morrido em 1983, aos 43 anos, depois de ser baleado por sua esposa, Gail Collins, em seu apartamento em Manhattan. A morte encerrou tragicamente a trajetória de um dos grandes arquitetos do Rock pesado do final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

Mountain continuaria existindo em diferentes formações ao longo das décadas seguintes, quase sempre orbitando em torno de Leslie West e Corky Laing. O grupo passou por novos períodos de separação e reunião, lançou Man's World, em 1996, e Mystic Fire, em 2002, antes de chegar a Masters of War, de 2007, álbum inteiramente dedicado a releituras de músicas de Bob Dylan. Masters of War é particularmente interessante porque mostra uma Mountain que já não precisava provar sua força através de composições próprias. O grupo podia pegar material de Dylan e submetê-lo àquela linguagem pesada que havia desenvolvido décadas antes. A faixa-título recebeu participação vocal de Ozzy Osbourne, enquanto Warren Haynes apareceu em duas faixas tocando guitarra.

Enquanto Mountain continuava sua trajetória, Leslie West construiu também uma respeitada carreira solo. E foi justamente nessa fase que uma nova geração de guitarristas passou a reconhecer ainda mais claramente sua importância. West não era um virtuose no sentido tradicional. Seu instrumento não era uma demonstração de velocidade. Era uma demonstração de peso e personalidade. Seu sustain parecia interminável. Seu vibrato era enorme. Seu timbre era reconhecível imediatamente. E seu jeito de frasear vinha diretamente do Blues. Guitarristas como Eddie Van Halen e inúmeros outros músicos de Hard Rock e Heavy Metal reconheceram sua influência.

A importância de West para o Heavy Metal é justamente essa. Ele ajudou a provar que o peso poderia nascer da combinação entre Blues, volume, distorção e simplicidade, e não necessariamente da velocidade.

Em 2011, Leslie West sofreu uma grave complicação relacionada à diabetes. Durante uma viagem para um show em Biloxi, Mississippi, sua perna direita apresentou uma condição que exigiu amputação para salvar sua vida. Mesmo diante de uma situação que poderia ter encerrado definitivamente sua carreira, West voltou aos palcos e continuou gravando. Naquele mesmo período, lançou Unusual Suspects, um álbum de 2011 que reuniu uma verdadeira seleção de convidados: Slash, Joe Bonamassa, Billy Gibbons, Zakk Wylde, Dee Snider, Mark Tremonti, Johnny Winter, Peter Frampton e Brian May, entre outros.

Depois vieram Still Climbing, em 2013, e Soundcheck, em 2015, seu último álbum solo de estúdio. O título Still Climbing parecia uma declaração de princípios: Leslie West ainda estava subindo.

Mountain continuou fazendo apresentações até 2011. O final daquela turnê, entretanto, precisou ser cancelado por causa das complicações de saúde de West. Corky Laing registra que aquela acabou sendo a última turnê da formação, e os dois não voltariam a tocar juntos como Mountain depois disso.

Leslie West morreu em 23 de dezembro de 2020, aos 75 anos, depois de sofrer uma parada cardíaca. A morte encerrou a trajetória de um dos guitarristas mais importantes da história do Rock pesado, mas não apagou aquilo que ele construiu.

Porque a história de Leslie West não pode ser contada apenas através de sua técnica. Ela precisa ser contada através do som.

Antes dele, guitarristas já tocavam alto. Antes dele, guitarristas já usavam distorção. Antes dele, o Blues já havia sido transformado em Rock. Mas West juntou essas coisas de uma maneira que produziu uma nova sensação física. Sua guitarra não parecia apenas tocar música, ela parecia empurrar o ar.

E Mountain foi o veículo perfeito para isso. A banda nasceu de uma parceria entre um guitarrista profundamente ligado ao Blues e um produtor que havia acabado de ajudar a definir o som do Cream. Encontrou sua formação mais marcante com Corky Laing e Steve Knight. Passou por Woodstock quando praticamente ninguém conhecia o grupo. Gravou Climbing! e Nantucket Sleighride. Criou Mississippi Queen. Abriu caminho para o Heavy Metal. Separou-se. Voltou. Mudou de músicos. Voltou novamente. E Leslie West continuou lá.


É por isso que Mountain não deve ser tratada apenas como uma banda de Hard Rock dos anos 1970. Ela está no ponto exato em que o Blues Rock começa a ganhar músculos suficientes para se transformar em Heavy Rock e, pouco depois, em Heavy Metal.

Para quem ama Southern Rock, existe ainda uma conexão muito bonita. Mountain nunca foi uma banda de Southern Rock, mas carregava a mesma compreensão fundamental de que o Blues era uma linguagem capaz de suportar peso, volume e liberdade instrumental. E aquela combinação seria essencial para tudo o que viria depois, inclusive para várias das vertentes mais pesadas do Rock sulista. No centro de tudo estava Leslie West.Um guitarrista que não precisava correr. Ele simplesmente ligava o amplificador, encontrava o Blues dentro de uma nota e fazia aquela nota parecer uma montanha.

Formação

Leslie West - Guitarra e vocais
Felix Pappalardi - Baixo, vocais e teclados
Corky Laing - Bateria
Steve Knight - Teclados

Músicos que passaram pela banda

N. D. Smart - Bateria
Allan Schwartzberg - Bateria
Bob Mann - Guitarra, teclados e vocais de apoio
David Perry - Guitarra e vocais de apoio
Mark Clarke - Baixo e vocais
Richie Scarlett - Baixo e vocais
Randy Coven - Baixo e vocais
Noel Redding - Baixo
Elvin Bishop - Guitarra e vocais
Rev Jones - Baixo

Discografia

1970 Climbing!
1971 Nantucket Sleighride
1971 Flowers of Evil
1972 Mountain Live: The Road Goes Ever On
1973 The Best of Mountain
1974 Twin Peaks
1974 Avalanche
1985 Go for Your Life
1995 Over the Top
1996 Man's World
2002 Mystic Fire
2007 Masters of War
2010 Crossroader: An Anthology 1970–1974
2019 Live at Woodstock