Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
Essa banda não pertence diretamente ao universo do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.
Quando o revival do Hard Rock dos anos 1970
ganhou força no início do século XXI, muitas bandas passaram a revisitar os
sons de uma época em que riffs, amplificadores valvulados, fuzz e psicodelia
ainda caminhavam juntos. Algumas fizeram isso como simples exercício de
nostalgia. Outras entenderam que aquelas referências poderiam servir como ponto
de partida para algo novo. A KADAVAR,
formada em Berlim em 2010, pertence claramente ao segundo grupo.
Com uma sonoridade construída sobre Hard Rock,
Psychedelic Rock, Stoner Rock, Doom e elementos de Space Rock, a banda alemã
desenvolveu uma identidade que remete imediatamente à década de 1970, mas nunca
ficou presa a ela. Black Sabbath, Led Zeppelin, Hawkwind e outras referências
do Rock pesado e psicodélico estão presentes na linguagem do grupo, mas a
KADAVAR sempre procurou transformar essas influências em uma música própria,
marcada por guitarras carregadas de fuzz, baixos encorpados, bateria poderosa e
uma atmosfera que oscila entre o peso e a viagem psicodélica.
A história começou em 2010, quando o baterista Christoph "Tiger" Bartelt e
o guitarrista Philipp
"Mammut" Lippitz começaram a tocar juntos em Berlim. A
formação se completou com a chegada de Christoph
"Lupus" Lindemann, inicialmente no baixo e nos vocais. Pouco
depois, Lupus passou para a guitarra, enquanto Mammut assumiu definitivamente o
baixo. O trio estava formado e começava a construir aquela combinação de Hard
Rock setentista, psicodelia e peso que se tornaria a assinatura da banda.
Antes mesmo do primeiro álbum, a KADAVAR começou
a divulgar seu trabalho de maneira independente. Em 2011, lançou um CD single
contendo Forgotten Past e Black Sun, duas músicas que já
revelavam a estética sonora que seria desenvolvida no primeiro disco. O grupo
também começou a ganhar espaço no circuito underground europeu, dividindo
palcos com nomes importantes da cena Stoner e Doom.
O primeiro álbum, simplesmente intitulado Kadavar,
chegou em 2012 e apresentou uma banda que parecia ter atravessado um túnel do
tempo diretamente para a Berlim contemporânea. O disco reunia riffs pesados,
solos psicodélicos, vocais carregados de reverberação e uma produção que
preservava deliberadamente a sensação orgânica dos equipamentos analógicos. All
Our Thoughts, Black Sun, Creature of the Demon, Come Back
Life e Forgotten Past ajudaram a transformar o álbum em uma
referência imediata dentro do revival do Heavy Rock europeu.
O mais interessante, entretanto, era que a
KADAVAR não tentava esconder suas influências. A banda parecia
entender que a força daquele tipo de música estava justamente na capacidade de
recuperar uma linguagem que havia sido deixada de lado pela produção moderna. O
peso vinha dos riffs, não de camadas infinitas de estúdio. A atmosfera vinha da
interação entre os músicos, não de efeitos digitais utilizados para preencher
espaços.
Em 2013, a história da formação sofreu sua
primeira grande mudança. Philipp
"Mammut" Lippitz deixou o grupo e foi substituído no baixo
pelo francês Simon "Dragon"
Bouteloup. A entrada de Dragon estabeleceu aquela que seria a formação
mais reconhecida da primeira grande fase da banda: Lupus, Tiger e Dragon. No mesmo ano, a KADAVAR lançou Abra
Kadavar, álbum que aprofundou a psicodelia e ampliou o alcance de seu Heavy
Rock.
Abra Kadavar confirmou que o primeiro álbum não havia sido um
acidente. A banda tinha encontrado uma fórmula própria, mas não pretendia
simplesmente repeti-la. As músicas ficaram mais elaboradas e os arranjos
passaram a explorar com maior liberdade os contrastes entre peso, melodia e
psicodelia.
Em 2014, a banda registrou Live in Antwerp,
documento importante da reputação que começava a construir nos palcos europeus.
A KADAVAR sempre foi especialmente forte ao vivo, e a formação em trio fazia
com que cada integrante ocupasse um espaço enorme dentro da música. Lupus precisava
sustentar simultaneamente guitarra e vocais, Dragon mantinha o peso do baixo
enquanto se movimentava constantemente pelo palco, e Tiger funcionava como a
força que mantinha tudo unido.
Em 2015 veio Berlin, álbum que reforçou a
relação da banda com sua cidade. A capital alemã não era apenas o endereço dos
músicos, mas parte da identidade estética do grupo. Berlim carregava uma
história cultural própria, marcada por contracultura, arte, experimentação e
uma cena musical extremamente diversa. A KADAVAR absorveu esse ambiente e o
colocou em uma música que continuava olhando para o passado sem deixar de
pertencer ao presente.
Dois anos depois, Rough Times, de 2017,
apresentou uma banda mais pesada e direta. O título já carregava uma atmosfera
mais sombria, enquanto músicas como Die Baby Die, Tribulation Nation
e Into the Wormhole mostravam uma KADAVAR cada vez mais confortável
entre o Stoner, o Doom e o Hard Rock psicodélico.
A banda também continuou explorando seu lado ao
vivo, lançando Live in Copenhagen em 2018. O registro mostrava a força
daquela formação de três músicos e servia como retrato de uma banda que havia
passado de promessa do underground a um dos nomes mais respeitados do Heavy
Rock europeu.
Em 2019, For the Dead Travel Fast
representou mais uma evolução. O álbum manteve os riffs densos e a atmosfera
setentista, mas ampliou a dimensão psicodélica e espacial da música. A KADAVAR
já não precisava provar que sabia reproduzir o som de Black Sabbath ou do Rock
pesado dos anos 1970. Agora podia utilizar essas referências como ferramentas
para construir sua própria linguagem.
Então veio uma das mudanças mais interessantes da
carreira.
Em 2020, a banda lançou The Isolation Tapes,
um álbum que rompeu deliberadamente com algumas das expectativas construídas ao
longo da década anterior. Em vez de simplesmente entregar outro disco de Heavy
Rock retrô, a KADAVAR mergulhou mais profundamente na psicodelia, no Krautrock,
em texturas eletrônicas e em experimentações de estúdio. O resultado mostrou
que os músicos estavam interessados em descobrir até onde poderiam levar sua
própria identidade.
Aquele processo de transformação continuou em
2021 com Eldovar, projeto
colaborativo formado por KADAVAR e Elder.
O álbum A Story of Darkness & Light colocou frente a frente duas das
bandas mais interessantes do Heavy Rock psicodélico contemporâneo e aprofundou
ainda mais a disposição da KADAVAR para experimentar além das fronteiras
tradicionais do Stoner Rock.
Mas outra mudança importante aconteceria em 2023.
A KADAVAR decidiu ampliar sua formação e convidou
Jascha Kreft, guitarrista e
tecladista conhecido também por seu trabalho com a banda Odd Couple, para
integrar oficialmente o grupo. Pela primeira vez, a KADAVAR deixava de ser um
trio e passava a funcionar como quarteto. Jascha acrescentou uma segunda
guitarra e teclados à formação, criando novas possibilidades de arranjo e dando
ao grupo uma dimensão sonora maior nos palcos.
A mudança não significou apenas uma guitarra a
mais. Ela coincidiu com uma nova fase artística da KADAVAR, em que os músicos
passaram a trabalhar com ainda mais liberdade sobre as próprias referências. A
chegada de Jascha ampliou a capacidade do grupo de combinar peso, melodias,
sintetizadores, camadas psicodélicas e estruturas menos previsíveis.
Essa nova fase desembocou em I Just Want to Be
a Sound, lançado em 16 de maio de 2025 pela Clouds Hill. O disco foi
apresentado como um manifesto de liberdade, transformação e presença, e mostrou
uma KADAVAR muito mais aberta musicalmente. Rock pesado, psicodelia, baladas,
elementos de Pop e atmosferas mais experimentais passaram a coexistir dentro do
mesmo trabalho.
A própria frase que dá nome ao álbum veio do
baixista Simon "Dragon" Bouteloup e sintetiza bem o espírito daquele
momento: a música não precisava mais obedecer a uma identidade pré-determinada.
A banda podia simplesmente seguir aquilo que a composição exigisse.
I Just Want to Be a Sound foi, portanto, uma
espécie de declaração de independência artística. Depois de mais de uma década
sendo associada ao revival do Hard Rock setentista, a KADAVAR mostrou que não
estava interessada em permanecer eternamente dentro da mesma moldura. O passado
continuava presente, mas agora dividido com novas influências, novas texturas e
uma abordagem muito mais aberta.
E então, em novembro do mesmo ano, veio outro
capítulo inesperado. Kids Abandoning
Destiny Among Vanity and Ruin, lançado em 7 de novembro de 2025, retomou
parte da agressividade e da sonoridade mais pesada dos primeiros trabalhos,
funcionando quase como um contraponto ao álbum anterior. A sigla formada pelo
título, K.A.D.A.V.A.R., transforma o próprio nome da banda em uma espécie de
conceito.
O álbum recupera riffs carregados de Fuzz, Doom,
Classic Rock e psicodelia, mas não representa simplesmente um retorno ao
passado. Total Annihilation, por exemplo, leva a banda para territórios
próximos do Thrash Metal, enquanto Stick It e You Me Apocalypse
mostram que as experiências desenvolvidas no álbum anterior continuam
presentes.
Esse movimento entre passado e futuro talvez seja
justamente a melhor maneira de compreender a KADAVAR. A banda nunca abandonou o
amor pelo Rock pesado dos anos 1970, mas também nunca aceitou ficar limitada a
uma reprodução daquele período. Cada fase acrescentou alguma coisa à identidade
do grupo.
Para o universo do Southern Rock Site Brazil, a
KADAVAR representa uma vertente que dialoga com a nossa história principalmente
pela raiz. O grupo não é uma banda de Southern Rock e tampouco precisa ser
apresentado como tal. Sua música nasce de uma árvore que também alimentou o
Southern Rock: o Blues, o Hard Rock, o Rock psicodélico, o peso dos riffs e a
liberdade criativa dos grandes grupos dos anos 1960 e 1970. A diferença está no
caminho que a KADAVAR escolheu seguir a partir dessas raízes.
Formação
clássica
Christoph "Lupus" Lindemann - Guitarra
e vocais
Christoph "Tiger" Bartelt - Bateria
Simon "Dragon" Bouteloup - Baixo
Formação
atual
Christoph "Lupus" Lindemann - Guitarra
e vocais
Christoph "Tiger" Bartelt - Bateria
Simon "Dragon" Bouteloup - Baixo
Jascha Kreft - Guitarra e teclados
Ex-integrante
Philipp "Mammut" Lippitz - Baixo e
guitarra
Discografia
2011 Kadavar
2012 White Ring
2012 Kadavar
2013 Abra Kadavar
2014 Live in Antwerp
2015 Berlin
2017 Rough Times
2018 Live in Copenhagen
2019 For the Dead Travel Fast
2020 The Isolation Tapes
2021 ELDOVAR - A Story of Darkness & Light
2025 I Just Want to Be a Sound
2025 Kids Abandoning Destiny Among Vanity and
Ruin










