Nota editorial | Southern Rock Site Brazil
O Jeronimo não é uma banda de Southern Rock. Sua
classificação histórica está ligada principalmente ao Hard Rock, Krautrock e
Rock psicodélico alemão do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Ainda
assim, sua forte ligação com o Blues, o Rock americano e, especialmente, o
contato direto com o Creedence Clearwater Revival, faz com que a banda
apresente momentos que flertam claramente com a linguagem que estava ajudando a
formar o Southern Rock naquele mesmo período. Por isso, o Jeronimo encontra seu
espaço no acervo do Southern Rock Site Brazil como uma banda que orbita o
gênero e ajuda a contar a história de suas influências e conexões
internacionais.
Formada em Frankfurt em 1969 por Rainer Marz na guitarra e vocais, Gunnar Schäfer no baixo e Manfred "Ringo" Funk na
bateria e vocais, a banda encontrou rapidamente seu espaço. Os primeiros
singles, Heya, lançado em 1969, e Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye,
de 1970, eram versões de músicas de outros compositores e fizeram enorme
sucesso na Europa, chegando ao topo das paradas em diferentes países. A
ascensão foi rápida e colocou o trio alemão em uma posição privilegiada dentro
da cena Rock europeia.
A relação com o público internacional também se
fortaleceu através da estrada. Em 1970, o Jeronimo excursionou pela Alemanha com o Steppenwolf e participou de festivais ao lado de nomes como Deep Purple, The Kinks, Golden Earring,
Black Sabbath e Procol Harum. Em 1971, a banda também
excursionou pela Suécia e Suíça com Deep Purple, Krokodil e Golden Earring,
além de participar de um evento beneficente da UNICEF em Lausanne que foi
transmitido mundialmente.
Mas existe um capítulo da história do Jeronimo que interessa particularmente
a quem gosta de música americana e ajuda a explicar aquela sensação de que a
banda, em determinados momentos, flerta com o território do Southern Rock. Em
1970, o grupo dividiu um LP com ninguém menos que Creedence Clearwater Revival. Spirit Orgaszmus of Jeronimo and
Creedence Clearwater Revival trazia um lado de cada banda e foi lançado em
vinil colorido pela Bellaphon. A ideia partiu da gravadora e colocou uma jovem
banda alemã de Hard Rock lado a lado com uma das maiores forças do Rock
americano daquele momento.
A aproximação com o Creedence é especialmente
interessante porque o CCR
representava justamente uma das pontes fundamentais entre Blues, Country, Rock
and Roll e aquela linguagem sulista americana que desembocaria no Southern
Rock. O Jeronimo não se
transformou em uma banda de Southern Rock por causa disso, evidentemente, mas a
influência americana aparece na maneira como o trio trabalhava suas guitarras,
seus riffs e aquela sonoridade pesada e orgânica tão característica do período.
O material do lado do Jeronimo naquele split
seria posteriormente incorporado ao primeiro álbum propriamente dito da banda, Cosmic
Blues, lançado ainda em 1970. O título já dizia muito sobre a direção
musical do grupo. O Hard Rock era a base, mas o Blues ocupava espaço
fundamental, ao lado de elementos psicodélicos e de uma abordagem instrumental
bastante livre. Never Going Back e The Key estavam entre os
destaques desse período.
Em 1971, Rainer
Marz deixou a banda e foi substituído por Michael Koch na guitarra e vocais. A mudança não interrompeu o
trabalho. O novo trio gravou Jeronimo, segundo álbum da
banda, considerado por muitos admiradores como seu trabalho mais forte. Músicas
como Sunday's Child e Understanding mostravam um grupo mais
pesado e seguro, com guitarras agressivas, vocais fortes e uma seção rítmica
que mantinha o som em movimento constante.
O terceiro álbum, Time Ride, chegou em
1972 e seria o último. A banda continuava explorando o Hard Rock, mas também
incorporava elementos progressivos e temas mais reflexivos. Depois de três
álbuns em pouco mais de dois anos, o Jeronimo
encerrou sua primeira fase e seus integrantes seguiram caminhos diferentes. Ringo Funk posteriormente entrou para
o Atlantis, enquanto Rainer Marz construiu uma respeitada
carreira como músico de estúdio e trabalhou também com Supermax.
A história, porém, não terminou completamente. Em
1982, os integrantes originais voltaram a se reunir para gravar uma nova versão
de Heya. E, em 2001, os três músicos da formação original voltaram a
tocar juntos, realizando apresentações nos anos seguintes. Ringo Funk também
adquiriu os direitos do catálogo do Jeronimo
em 2000, o que permitiu que o material fosse remasterizado e relançado em CD.
Rainer
Marz morreu em 11 de abril de 2016, encerrando a trajetória de um guitarrista que
havia participado da criação do grupo e de seus primeiros registros.
É nessa história que o Jeronimo encontra seu lugar no Southern Rock Site Brazil. A banda não
é Southern Rock, e seria incorreto classificá-la dessa maneira. É Hard Rock alemão, com fortes raízes no
Blues e elementos psicodélicos e progressivos. Mas sua música pertence à mesma
grande transformação do Rock que, nos Estados Unidos, estava aproximando Blues,
Country, Rock and Roll e guitarras pesadas. E a proximidade com o Creedence
Clearwater Revival torna essa ligação ainda mais interessante.
O que ouvimos no Jeronimo é, portanto, uma banda europeia absorvendo a linguagem do
Rock americano e devolvendo-a com sotaque próprio. Não é Southern Rock, mas flerta com aquele território. E para
quem gosta de entender o gênero não apenas através de suas grandes bandas, mas
também pelas suas conexões e influências, essa é uma história que merece ser
contada.
Formação
original
Rainer Marz - Guitarra, vocais
Gunnar Schäfer - Baixo, vocais
Manfred "Ringo" Funk - Bateria, vocais
Discografia
de estúdio
1970 Cosmic Blues
1971 Jeronimo
1972 Time Ride
Outros
registros importantes
1970 Spirit Orgaszmus of Jeronimo and
Creedence Clearwater Revival
2003 Best of Jeronimo










