A mesma gravação pode despertar sentimentos
completamente diferentes ao longo da vida, porque muitas vezes não é a música
que muda, somos nós que finalmente estamos preparados para ouvi-la.
Por Renato Martins São Pedro
Uma das coisas mais curiosas que aprendi ouvindo
música é que nem sempre os grandes sons entram na nossa vida na hora certa.
Há muitos anos, ouvi Dreams pela primeira vez na versão do Molly Hatchet.
Gostei imediatamente. A música me pegou de jeito, a atmosfera, a interpretação…
tudo funcionou para mim desde o primeiro momento. Algum tempo depois, alguém me
disse que aquela música era originalmente do The Allman Brothers Band.
Como acontece com todo apaixonado por música, fui atrás da versão original e
aconteceu algo inesperado, ela não me conquistou da mesma forma.
Claro que reconheci a qualidade, entendi a importância histórica, percebi a
beleza da composição, mas aquela conexão imediata simplesmente não aconteceu e então a vida seguiu e a música ficou lá. Anos depois, voltei a ouvi-la. Não
porque estava procurando algo específico, apenas apertei o play mais uma vez. E
foi como se eu estivesse ouvindo outra música. Mas não era. A gravação era a
mesma, a voz era a mesma e as notas eram as mesmas.
Quem tinha mudado era eu.
Com o passar dos anos, percebi que isso acontece mais do que imaginamos.
Existem músicas que nos conquistam no primeiro acorde, outras precisam de
tempo, precisam esperar que a gente viva certas experiências, passe por
determinadas fases ou simplesmente amadureça o suficiente para compreender
aquilo que elas sempre estiveram tentando nos dizer. E isso não vale apenas para a música. Vale para livros, para filmes, para pessoas e vale para a própria vida. Hoje gosto muito da versão do Molly Hatchet e também da versão do The Allman Brothers Band. Não vejo uma substituindo a outra, cada uma encontrou seu espaço na minha história. É por isso eu nunca descarto uma música depois da primeira audição, pois algumas músicas não chegam para impressionar, chegam para permanecer…
Só esperando o momento certo para serem verdadeiramente ouvidas.









