Em meio à segregação racial do Sul dos Estados
Unidos, uma gravadora e uma comunidade de músicos ajudaram a transformar a
música em um território de encontro, liberdade e integração.
Por Renato Martins São Pedro
Se tem um capítulo do Southern Rock que todo fã
precisa conhecer é a história da Capricorn Records, em Macon, na Georgia.
No final dos anos 1960, o sul dos Estados Unidos vivia sob uma tensão racial
brutal e leis severas de segregação. Foi nesse cenário hostil que o
empresário Phil Walden peitou o sistema e fundou a gravadora, uma ideia que
nasceu diretamente da sua parceria com Otis Redding. Walden era empresário de
Otis, e a morte trágica do rei do Soul, em 1967, impulsionou o produtor a criar
um selo independente para manter vivo aquele espírito de união musical. O
grande manifesto da Capricorn foi apostar tudo no The Allman Brothers Band, que
se tornou uma das primeiras grandes bandas interracialmente integradas do sul
profundo ao trazer o baterista negro Jaimoe Johanson ao lado de músicos
brancos. A prova máxima dessa integração acontecia na Big House, a famosa casa
de Macon onde os integrantes e suas famílias moravam de forma comunitária,
dividiam as contas, ensaiavam e cozinhavam juntos, desafiando a vizinhança
conservadora da época.
Hoje transformada em museu histórico, aquela casa e o estúdio funcionavam como
refúgios onde a segregação não entrava. O resultado dessa convivência foi a
fusão perfeita do blues e soul de raiz negra com o country e o rock de raiz
branca, gerando o DNA do Southern Rock. Nem mesmo a morte de Duane Allman, em
1971, parou o movimento. O impacto da sua perda abalou as estruturas da
gravadora, mas consolidou o selo como um templo sagrado e espiritual da música
de estrada.
Esse caldeirão cultural de Macon era tão forte que gerou reações em outros
estados. Vindo da Flórida, o Lynyrd Skynyrd olhava
para aquele movimento com profundo respeito, mas decidiu seguir um caminho
diferente, trocando a psicodelia instrumental dos Allman Brothers por um som de
guitarra tripla mais direto, agressivo e focado na realidade dura da classe
operária.
Esse é o maior legado da Capricorn Records. Em uma região marcada durante
décadas por divisão racial, preconceito e cicatrizes históricas profundas,
músicos negros e brancos encontraram na música um território onde aquelas
barreiras simplesmente deixavam de existir. Enquanto o mundo lá fora insistia
em separar pessoas, o Southern Rock começava a uni-las através do som, e por
isso que essa música carrega tanta verdade até hoje.










