LYNYRD SKYNYRD transforma o Monsters of Rock 2026 em uma missa de Southern Rock
Diante de milhares de pessoas, o LYNYRD SKYNYRD provou que algumas histórias do rock simplesmente não acabam.
por Renato São Pedro
O Monsters of Rock 2026 reuniu algumas das maiores
atrações do hard rock mundial no Allianz Parque, em São Paulo. Ao longo do dia
passaram pelo palco nomes como Jayler, Dirty Honey, Yngwie Malmsteen,
Halestorm, Extreme e, claro, os gigantes que encerrariam a noite: GUNS N'
ROSES.
Para muitos presentes, o festival foi uma grande
celebração do rock. Para outros, havia um motivo muito específico para estar
ali.
No meu caso, esse motivo tinha nome e sobrenome: LYNYRD
SKYNYRD.
Confesso sem rodeios. Foi o único Monsters of Rock
em que praticamente todas as outras atrações do line-up não despertavam grande
interesse pessoal. Assisti ao final do show do EXTREME e permaneci até o
encerramento do GUNS N' ROSES, que entregou uma apresentação competente
e bem recebida pelo público. Mas a verdade é simples, desde o momento em que o
festival foi anunciado, havia apenas uma banda que realmente justificava aquela
noite, e essa banda era o LYNYRD SKYNYRD.
Pontualmente às 18h15, sem antes uma breve ‘historia”
no telão contando os primórdios da banda, os primeiros acordes de Workin’
for MCA ecoaram pelo Allianz Parque.
Escolher Workin’ for MCA para abrir o show é
quase uma tradição que remonta aos anos 70. A música carrega aquela pegada de
hard rock setentista profundamente enraizada no blues, cheia de groove e
sentimento. Como primeira faixa da noite, ainda era possível perceber pequenos
ajustes naturais de som, algo comum em apresentações de festival. Nada que
comprometesse o impacto inicial. Aos poucos, durante a própria execução da
música, tudo se alinhou e o som passou a soar pleno, potente e perfeitamente
equilibrado. A energia da banda no palco era evidente.
Um detalhe curioso, porém, chamava atenção logo nos
primeiros momentos do show. Quando Johnny Van Zant se aproximava da frente do
palco buscando interação com o público da pista Premium, a resposta muitas
vezes parecia tímida. Enquanto isso, a reação mais forte vinha de outras partes
do estádio, da pista comum às cadeiras, passando pelas arquibancadas e
camarotes, era possível perceber claramente onde estavam muitos dos fãs que
realmente conheciam cada acorde do repertório do LYNYRD SKYNYRD.
Em alguns momentos, a diferença entre essas duas
áreas parecia tão evidente que dava a impressão de que a própria banda começava
a perceber esse contraste. Johnny Van Zant frequentemente buscava interação com
a pista Premium, mas nem sempre encontrava a resposta esperada. Em certos
momentos, era possível notar um breve silêncio, quase um vácuo. Curiosamente,
as respostas mais fortes vinham justamente de trás, da pista comum.
Houve instantes em que parecia claro que o próprio
Johnny começava a direcionar mais o olhar e a comunicação para aqueles setores
mais afastados do palco, onde estavam muitos dos fãs que realmente acompanhavam
a trajetória do LYNYRD SKYNYRD há anos. Era dali que vinham os coros
mais fortes da noite.
A sequência seguiu com What’s Your Name, uma
daquelas músicas que representam perfeitamente o espírito do Southern Rock.
Lançada no álbum Street Survivors de 1977, ela carrega aquela mistura
irresistível de groove sulista, guitarras afiadas e um refrão que parece ter
sido feito para ser cantado em coro por multidões.
Logo depois veio That Smell, um clássico
absoluto da discografia do LYNYRD SKYNYRD. Para muitos fãs, é uma das
composições mais emblemáticas escritas por Ronnie Van Zant, e acabou se
tornando um dos momentos mais reverenciados dos shows da banda.
Em seguida veio I Need You, uma das baladas
mais sensíveis do catálogo da banda, originalmente lançada no álbum Second Helping
de 1974. Confesso que, pessoalmente, nunca foi uma das minhas favoritas dentro
do repertório do LYNYRD SKYNYRD. Sempre foi aquela música que, ao ouvir
o disco em casa, acabo pulando para a próxima faixa. Curiosamente, naquele
momento do show, espremido no meio da pista comum e completamente cercado pela
multidão, não havia exatamente a opção de sair para dar uma volta ou ir ao
banheiro. Restava apenas fazer o que todo fã faz em um concerto: aproveitar o
momento e esperar a próxima explosão de guitarras.
Em seguida veio Gimme Back My Bullets. E
aqui aconteceu um dos momentos mais especiais da noite.
Sempre enxerguei Gimme Back My Bullets como
uma daquelas músicas que carregam o espírito mais autêntico do sul dos Estados
Unidos. Existe algo nela que remete diretamente ao imaginário das estradas
poeirentas, dos bares esfumaçados e da atmosfera típica que sempre cercou o
universo do Southern Rock. Ronnie Van Zant e Gary Rossington estavam em um
momento extremamente inspirado quando compuseram grande parte desse repertório
que atravessaria décadas. Presenciar Gimme Back My Bullets ao vivo foi
algo quase surreal. Por alguns segundos, fiquei simplesmente parado e absorvendo
o momento. Era uma música que durante anos existiu apenas em discos, vídeos,
DVDs e registros históricos.
E agora estava ali. Ao vivo.
A sequência pesada seguiu com Saturday Night
Special e Down South Jukin’, antes de chegar a uma das maiores
surpresas da noite.
Still Unbroken.
A música não era executada ao vivo desde 2015, e
seu retorno ao setlist nesta turnê sul-americana foi recebido como um
verdadeiro presente para os fãs mais atentos da banda. Aqueles que acompanham
não apenas os grandes clássicos, mas também as fases mais recentes do LYNYRD
SKYNYRD. Lançada no álbum God & Guns, de 2009, Still Unbroken
acabou se tornando, para muitos fãs, o grande clássico da chamada nova era da
banda. Uma música que carrega justamente a mensagem de resistência e
continuidade que sempre marcou a trajetória do grupo.
A letra fala de sobrevivência, de atravessar
tempestades e continuar de pé. Algo que dialoga diretamente com a própria
história do LYNYRD SKYNYRD, uma banda que sobreviveu a tragédias,
mudanças de formação e décadas de estrada sem jamais abandonar sua identidade.
Por isso, ouvir Still Unbroken naquele
momento teve um significado especial. Não era apenas mais uma música do
repertório recente. Era quase uma declaração de princípios: o SKYNYRD
continua de pé.
Enquanto Johnny Van Zant conduzia o show com
segurança, um personagem chamava atenção no palco: Rickey Medlocke.
Antes de se tornar uma das guitarras do LYNYRD
SKYNYRD, Medlocke foi líder, vocalista e guitarrista da lendária banda BLACKFOOT,
um dos nomes mais respeitados do Southern Rock clássico. Acostumado durante
décadas a ocupar o centro do palco como frontman, ele traz essa mesma postura
para dentro da formação atual do SKYNYRD. Oficialmente ele divide as guitarras
com Mark Matejka e Damon Johnson, formando o tradicional exército
de três guitarras da banda. Mas sua presença de palco é tão forte que em muitos
momentos parece assumir quase o papel de um segundo frontman ao lado de Johnny
Van Zant.
Johnson, aliás, carrega um simbolismo especial.
Veterano do rock americano, com passagens por Brother Cane, Alice Cooper e Thin
Lizzy, ele acaba assumindo no palco muitas das funções que durante décadas
foram de Gary Rossington.
E por mais competente que seja, é impossível não
sentir que algo ainda falta.
Ver o LYNYRD SKYNYRD sem Gary Rossington
ainda provoca uma pequena sensação de vazio.
Nos backing vocals, Carol Chase e Stacy
Michelle mantinham o tradicional coral que sempre fez parte da identidade
sonora da banda. Ainda assim, era impossível não notar a ausência de Dale
Krantz Rossington, esposa de Gary Rossington, que durante anos ocupou um
desses postos e decidiu se afastar da banda após a morte do marido.
Então veio Tuesday’s Gone, e ali o show
mudou completamente de atmosfera. Enquanto imagens de Gary Rossington apareciam
nos telões, a música tomou conta do Allianz Parque com uma intensidade difícil
de explicar. O estádio inteiro pareceu desacelerar. Não era mais apenas um
show. Era um momento de reverência. Algo próximo de uma cerimônia.
Os acordes suaves da guitarra, o piano conduzindo a
melodia e a voz de Johnny Van Zant carregavam uma emoção quase espiritual. Por
alguns minutos, a sensação era de estar diante de uma verdadeira missa do
Southern Rock. Uma celebração. Uma despedida. Um agradecimento coletivo a um
dos maiores guitarristas da história do rock.
Quando Simple Man começou logo em seguida,
parecia a continuação natural daquele momento.
Se Tuesday’s Gone representava a memória, Simple
Man trazia a essência humana que sempre esteve no coração da banda.
Na reta final veio Gimme Three Steps, uma
das histórias mais clássicas do repertório do LYNYRD SKYNYRD. A música
narra aquela típica cena de bar no sul dos Estados Unidos: um sujeito percebe
que está prestes a entrar numa briga monumental e pede apenas três passos para
sair dali antes que a confusão exploda de vez.
Sempre achei que essa história renderia um
excelente filme hollywoodiano, porque captura perfeitamente aquele universo de
bares, estradas e personagens típicos do sul americano que sempre fizeram parte
do imaginário do Southern Rock.
Em seguida veio Call Me the Breeze, mantendo
o clima festivo antes do estádio inteiro explodir em coro com Sweet Home
Alabama, transformando o Allianz Parque em um gigantesco coral.
Mas o encerramento só poderia acontecer de uma
forma.
Free Bird.
Não existe show do LYNYRD SKYNYRD sem ela.
Mais emoção. Ver Ronnie Van Zant no telão “dividindo”
os vocais com Johnny no palco e o solo final tomou conta do estádio como uma
explosão de guitarras que parecia atravessar décadas de história do rock.
Um encerramento apoteótico.
Mesmo assim, é inevitável fazer uma comparação com
outras passagens da banda pelo Brasil.
O show do SWU 2011, em Paulínia, ainda
permanece como uma experiência difícil de superar. Naquele dia, quem estava
diante do palco Energia realmente estava ali para ver o LYNYRD SKYNYRD. E
havia algo mais, no palco estava Gary Rossington, o verdadeiro Mr.
Southern Rock.
Em 2023, no Espaço Unimed, o cenário foi
semelhante. O público estava ali exclusivamente para ver a banda.
Já em 2026, dentro de um grande festival como o Monsters
of Rock, o contexto naturalmente muda.
Mas nada disso diminui a força do que aconteceu
naquela noite.
Algumas bandas fazem shows.
Outras fazem história.
E o LYNYRD SKYNYRD sempre pertenceu à
segunda categoria.
Serviço
Evento: Monsters of Rock 2026
Data: 04 de abril de 2026
Local: Allianz Parque - São Paulo
Bandas do festival
Jayler
Dirty Honey
Yngwie Malmsteen
Halestorm
Extreme
Lynyrd Skynyrd
Guns N' Roses
Horário do show do LYNYRD SKYNYRD
18h15
Setlist
Workin’ for MCA
What’s Your Name
That Smell
I Need You
Gimme Back My Bullets
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Still Unbroken
Tuesday’s Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me the Breeze
Sweet Home Alabama
Free Bird
Formação da banda no show
Johnny Van Zant - vocal
Rickey Medlocke - guitarra
Mark Matejka - guitarra
Damon Johnson - guitarra
Peter Keys - teclados
Robbie Harrington - baixo
Michael Cartellone - bateria
Carol Chase - backing vocals
Stacy Michelle - backing vocals
Johnny Van Zant
Fãs
Johnny Van Zant
conduzindo o público
Stacy Michelle e Carol
Chase
Peter Keys
Mark Matejka, Rickey Medlocke e Damon Johnson
Lynyrd Skynyrd
Homenagem a Gary
Rossington
























