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Blackberry Smoke: Audio Club - São Paulo 2026

 


FUMAÇA NO AR: O BLACKBERRY SMOKE INCENDEIA SÃO PAULO E DEIXA UM RASTRO DE PESO, MEMÓRIA E ESTRADA NA AUDIO CLUB

Uma noite em que a banda surge mais pesada, mais madura e emocionalmente exposta, transformando o palco em uma experiência que sobe como fumaça, toma conta do ambiente e não se dissipa na memória de quem esteve lá.

Por Renato São Pedro


No dia 11 de abril de 2026, a Audio Club foi palco de uma daquelas noites que ajudam a explicar por que o Southern Rock, mesmo sendo um estilo de nicho no Brasil, ainda consegue reunir um público fiel, apaixonado e absolutamente entregue. O Blackberry Smoke subiu ao palco diante de uma casa lotada, formada em sua maioria por fãs que sabiam exatamente o que estavam prestes a presenciar. E isso fez toda a diferença.

A escolha do local potencializou a experiência. A Audio Club é uma casa que favorece o contato direto, com excelente acústica, proximidade real entre palco e público e uma atmosfera que transforma cada detalhe em algo maior. Não é apenas um lugar para assistir shows. É um lugar para viver shows. E naquela noite, foi exatamente isso que aconteceu. Mas existe um ponto que eleva ainda mais essa turnê no Brasil. Para quem acompanhou apenas uma data, já foi especial, mas para quem acompanhou mais de uma, foi ainda mais.

A banda não se limitou a repetir um roteiro engessado. Houve pequenas, porém significativas alterações de setlist entre as apresentações em Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba. Mudanças pontuais, escolhas diferentes, músicas que entravam e saíam. Detalhes que, para o público casual, podem passar despercebidos. Mas para quem decidiu viver a turnê de perto, isso fez toda a diferença. Porque cada noite teve sua própria identidade e isso diz muito sobre a banda. Desde o primeiro acorde, ficou claro que não seria apenas mais uma apresentação e sim uma experiência.

Good One Comin’ On, do disco Little Piece Of Dixie (2009), abriu o caminho como um convite. Um groove quente, arrastado, quase físico, que carrega aquela sensação clássica de estrada aberta, de vida em movimento, de quem vive sem pedir licença.

Quando Workin’ for a Workin’ Man entrou, o público não apenas cantava, ele apenas se reconhecia. É uma música que fala diretamente com quem vive a rotina dura, com quem batalha todo dia e encontra na música um respiro.

O show cresceu sem pressa. Payback’s a Bitch trouxe peso e aquela ideia crua de consequência e de que tudo volta. Hammer and the Nail reafirmou identidade com força, quase como um manifesto sonoro da banda. Till the Wheels Fall Off carregou o espírito da estrada até o limite, aquela ideia de seguir em frente até não dar mais.

Lucky Seven (The Whippoorwill 2012) trouxe leveza, mas sem perder o pé na realidade. Hey Delilah aproximou, humanizou, trouxe aquele lado mais íntimo e quase confessional.

E então Pretty Little Lie reacendeu tudo novamente, com aquela energia que mistura melodia e intensidade de forma quase hipnótica.

You Hear Georgia trouxe raiz. Pertencimento. Uma declaração clara de identidade, quase um grito de onde tudo vem.

Mas foi em Waiting for the Thunder, do disco Like An Arrow, lançado em 2016, que a noite encontrou um de seus momentos mais fortes.

O vocal de Charlie Starr veio carregado de verdade. Não é apenas potência. É sentimento. A música carrega uma tensão crescente, uma expectativa quase cinematográfica. E quando a plateia respondeu, cantando junto em um coro absoluto, criou-se algo raro. Não era execução, mas sim conexão.

Sure Was Good, de seu primeiro álbum, Bad Luck Ain't No Crime (2003), trouxe um respiro melancólico, com aquele gosto agridoce de lembrança boa que já passou. Sleeping Dogs surpreendeu, densa, cheia de nuances, com a inserção orgânica de Come Together, dos Beatles. Em outro momento, um aceno sutil ao riff de Ride On a Pony, do Free, apareceu como um detalhe para quem realmente presta atenção.

Azalea (Be Right Here de 2024), trouxe uma atmosfera quase contemplativa, como se o tempo desacelerasse por alguns instantes. Sunrise in Texas ampliou horizontes, carregando aquele espírito de liberdade típico do sul dos Estados Unidos.

Ain’t Got the Blues resgatou a essência mais crua, direta, sem filtro. One Horse Town emocionou profundamente, com sua narrativa sobre raízes, escolhas e o peso de permanecer ou partir. Run Away From It All preparou o terreno para o final com aquela sensação de fuga, de necessidade de respirar longe de tudo.

E há um ponto que merece destaque especial: a voz de Charlie Starr.

Existe uma naturalidade impressionante na forma como ele interpreta tanto o repertório da banda quanto os covers. Em certos momentos, dá a sensação de que aquelas músicas nasceram dentro do universo do próprio Blackberry Smoke. Evidentemente, as versões originais carregam seu peso histórico, mas a entrega de Starr cria uma unidade sonora tão forte que tudo parece parte da mesma história.

O aspecto visual do show também contribuiu para isso. Ao fundo do palco, um painel que remete diretamente à identidade visual da RATTLE, RAMBLE AND ROLL TOUR. Um desenho que lembra um vitral de igreja. E quando as luzes atravessavam esse painel, criava-se um efeito quase simbólico. Esse momento ganha ainda mais força quando vieram as menções a Ronnie Van Zant e Gary Rossington, do Lynyrd Skynyrd. Por alguns instantes, o ambiente mudou. A casa de shows virou silêncio. O respeito tomou conta. Rápido. Sincero. Necessário.

E então Poison Whiskey, do Lynyrd Skynyrd, entrou carregada de história.

Ain’t Much Left of Me encerrou a noite deixando aquela sensação inevitável de vazio, como se o corpo ainda estivesse ali, mas a alma já tivesse ido junto com o último acorde.

Fora do palco, um detalhe resume tudo.

Ao final do show, em meio à desmontagem, um gesto simples. Um pedido. Um “please”. E o setlist, vindo das mãos de um técnico de som, se transforma em algo muito maior do que um pedaço de papel. Para muitos, pode parecer banal. Para quem vive o Southern Rock, é parte da própria história.

A banda mostra evolução. E essa evolução é perceptível não apenas na execução, mas no peso.

A adição de um novo guitarrista, Benji Shanks, e de um novo baterista, Kent Aberle, trouxe uma nova dinâmica. As guitarras passaram a dividir mais responsabilidades, abrindo espaço para que Charlie Starr se movimentasse com mais liberdade no palco e Isso impacta diretamente na presença, na entrega e na forma como o show respira.

O som ficou mais encorpado. Mais pesado. Em certos momentos, até mais moderno. Mas essa evolução vem acompanhada de um sentimento inevitável.

A ausência de Brit Turner, morto em 2024, é impossível não sentir. Não se trata apenas de técnica. Trata-se de identidade, de história. De olhar para o palco e estranhar, por alguns segundos, não ver quem sempre esteve ali conduzindo a cozinha da banda. É um vazio silencioso, mas mesmo assim, a banda segue. E segue forte.

E existe ainda um detalhe que ajuda a explicar tudo isso.

A última passagem da banda por São Paulo havia acontecido em 2019. De lá para cá, o tempo não apenas passou. Ele trabalhou a favor da banda. O que se viu em 2026 foi um Blackberry Smoke mais maduro, mais consciente de sua identidade e ainda mais confortável dentro da própria sonoridade. Não se trata apenas de evolução técnica. Trata-se de maturidade artística. De entender exatamente o que se quer entregar no palco e como isso chega ao público.

E talvez seja exatamente isso que tenha ficado tão evidente naquela noite.

Não foi apenas um show. Foi uma banda em pleno domínio de si mesma. E algumas experiências não passam...

Ficam.


SERVIÇO

Evento: Blackberry Smoke ao vivo em São Paulo - RATTLE, RAMBLE AND ROLL TOUR
Data: 11 de abril de 2026
Local: Audio Club
Horário do show: aproximadamente 20h30
Cidade: São Paulo SP


FORMAÇÃO DA BANDA

Charlie Starr - vocal e guitarra
Paul Jackson - guitarra
Richard Turner - baixo
Brandon Still - teclados
Benji Shanks - guitarra
Kent Aberle - bateria


SETLIST

Good One Comin’ On
Workin’ for a Workin’ Man
Payback’s a Bitch
Hammer and the Nail
Till the Wheels Fall Off
Lucky Seven
Hey Delilah
Pretty Little Lie
You Hear Georgia
Waiting for the Thunder
Sure Was Good
Sleeping Dogs
Come Together trecho
Azalea
Sunrise in Texas
Ain’t Got the Blues
One Horse Town
Run Away From It All

Encore
Poison Whiskey (Cover Lynyrd Skynyrd)
Ain’t Much Left of Me




































Fotos por Samuel Frade de Carvalho, Renato São Pedro, Zé Roberto Vaicenkovas e Blackberry Smoke.com