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Cracker Blues Feeling Music Bar 2015

 


Cracker Blues e a noite em que o Feeling virou estrada

Por Renato São Pedro


Alguns shows não ficam guardados apenas na memória musical. Ficam na memória física do lugar. No cheiro do bar, no peso do som no peito, na sensação de que aquela noite pertence a um circuito invisível que só existe para quem esteve lá.

Foi esse o clima do show da Cracker Blues no Feeling Music Bar, em 13 de março de 2015.

Dias antes, a banda havia apresentado seu então segundo disco, Prata do Carrasco, em evento no Bourbon Music Street. O lançamento já sinalizava uma fase nova, mais madura, mais consciente do próprio som. Mas foi no palco apertado do Feeling, diante do público habitual da casa, que esse momento ganhou corpo real.

O Feeling sempre teve algo de porto clandestino. Não era apenas um bar. Era ponto de encontro de músicos, motoclubes, colecionadores de vinil, fãs de blues nacional e sobreviventes da cena autoral paulistana. Ali, a música não precisava explicar de onde vinha. Bastava soar verdadeira.

Quando o Cracker Blues subiu ao palco, a sensação era de banda que não estava ali para provar nada, apenas para tocar. E isso muda tudo.

O repertório percorreu as novas composições e músicas já consolidadas na estrada

As letras desenhavam personagens de bar, de estrada, de madrugada longa. Nada soava artificial. Era blues urbano brasileiro, sem verniz importado.

Musicalmente, as referências estavam lá, mas nunca como muleta. Em alguns riffs surgia a sombra pesada do ZZ Top; em certos climas aparecia a estrada aberta do Lynyrd Skynyrd; e nos momentos mais crus, a pulsação lembrava o transe elétrico de John Lee Hooker. Ainda assim, o que se ouvia não era releitura. Era assimilação.

O show tinha aquela característica rara das apresentações que funcionam: não parecia espetáculo, parecia continuidade da vida real. A banda tocava como quem já estava na estrada antes mesmo do primeiro acorde.

Naquela fase, o site acompanhava a banda de perto. Dias antes do show, havia sido gravada uma entrevista em vídeo, preservada no acervo audiovisual do projeto. A apresentação também foi filmada integralmente. Não por estratégia de divulgação imediata, mas por instinto de documentação. Quem acompanha a cena independente aprende cedo que registrar é preservar.

Hoje, olhando para trás, esse detalhe ganha peso.

A noite no Feeling não foi a maior da banda. Não foi um festival, não foi um evento institucional, não foi um marco midiático. Foi algo mais raro: foi uma noite legítima da cena.

Daquelas em que músicos tocam porque precisam tocar, público comparece porque precisa ouvir, e o bar cumpre sua função silenciosa de abrigar encontros que não cabem em grandes palcos.

O Cracker Blues saiu dali reafirmado não como promessa, mas como permanência. Em uma cidade veloz como São Paulo, onde bandas surgem e desaparecem com a mesma rapidez, manter identidade já é, por si só, um feito.

E naquela noite, no Feeling, a banda mostrou exatamente isso: não estava ali para passar. Estava ali para continuar.

Serviço técnico

Artista: Cracker Blues

Evento: Show de divulgação do álbum Prata do Carrasco

Data: 13 de março de 2015

Local: Feeling Music Bar

Cidade: São Paulo

Formação da banda na apresentação

Paulo Coruja - voz e gaita

Marceleza - guitarra e slide

Paulo Krüger - baixo

Jeferson Gaucho - bateria

ASSINATURA EDITORIAL

A cobertura foi realizada integralmente na época, e a resenha escrita publicada agora. 

Resgate histórico do Southern Rock Site Brazil.