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49 Winchester

 


 

Castlewood é uma pequena comunidade do condado de Russell, no sudoeste da Virgínia, cercada pelas montanhas dos Apalaches e situada numa região em que a música tradicional faz parte da identidade cultural há gerações. Foi nesse ambiente, distante dos grandes centros da indústria fonográfica norte-americana, que um grupo de amigos começou a tocar junto pouco depois de terminar o ensino médio. Da convivência entre vizinhos, instrumentos acústicos e uma vontade ainda pouco definida de viver de música nasceu a 49 Winchester.

A banda começou a tomar forma em 2013. Isaac Gibson e Chase Chafin haviam crescido praticamente juntos, como vizinhos e amigos desde a infância. Quando decidiram transformar as reuniões musicais em algo mais sério, procuraram o guitarrista Brandon “Bus” Shelton, outro amigo da região. Nos primeiros encontros, duas guitarras acústicas e um banjo eram suficientes para que os três começassem a construir um repertório e descobrir que aquela atividade poderia ultrapassar os limites de uma diversão entre amigos.

O nome escolhido preservou geograficamente essa origem. Winchester Street, em Castlewood, estava ligada à casa onde Isaac Gibson cresceu e ao lugar em que parte daquela convivência aconteceu. Integrantes chegaram a morar juntos no endereço, e a referência à rua acabou transformada em nome de banda. Antes de contratos, turnês internacionais e grandes palcos, 49 Winchester identificava um ponto específico dentro da pequena comunidade onde aqueles músicos haviam se conhecido.

Isaac assumiu os vocais, a guitarra e a principal função de compositor. Chase permaneceu no baixo e Bus na guitarra, estabelecendo um núcleo que atravessaria toda a trajetória posterior. A formação foi ampliada ao longo dos anos, enquanto a própria música evoluía. Em vez de reproduzir integralmente a tradição acústica dos Apalaches, a 49 Winchester começou a combiná-la com Country, Rock'n'Roll, Soul, Americana e elementos de Country Rock e Southern Rock.

Essa mistura nasceu de maneira orgânica. Castlewood não oferecia aos jovens músicos uma grande cena local de clubes ou uma indústria capaz de absorvê-los. A banda precisou construir sua trajetória a partir da estrada, tocando onde encontrava espaço e desenvolvendo uma relação direta com o público. O isolamento relativo da região, em vez de afastá-los de suas referências, ajudou a manter uma ligação forte com a cultura dos Apalaches e com as histórias de comunidades rurais que posteriormente apareceriam nas composições de Gibson.

Em 2014, a 49 Winchester lançou de maneira independente o álbum de estreia autointitulado. 49 Winchester apresentou dez composições originais de Isaac Gibson e registrou uma banda ainda próxima de suas origens, procurando estabelecer uma linguagem própria enquanto começava a ampliar sua atuação para além de Castlewood. Depois do lançamento, o grupo intensificou os shows e transformou a estrada em sua principal ferramenta de divulgação.

Esse processo seria fundamental para compreender a evolução posterior. A 49 Winchester não surgiu a partir de uma descoberta instantânea da indústria musical nem de um single que repentinamente projetou seus integrantes. Durante anos, a banda operou de maneira independente, acumulando apresentações, ampliando lentamente o público e aprendendo a transformar as composições de Gibson numa sonoridade coletiva.

O segundo álbum, The Wind, chegou em 2018. O intervalo de quatro anos em relação à estreia refletiu uma banda que havia passado grande parte daquele período tocando e amadurecendo fora do estúdio. O disco apresentou onze músicas e ampliou o espaço para guitarras elétricas, melodias de Country e Americana e uma abordagem mais robusta de Rock, sem romper com a ligação dos integrantes com a música dos Apalaches.

A estrada continuou sendo o centro da atividade do grupo. Em clubes pequenos e circuitos regionais, a 49 Winchester construiu uma reputação ligada principalmente às apresentações ao vivo. A combinação entre a voz de Isaac Gibson, as guitarras e uma seção rítmica cada vez mais sólida permitia que músicas originadas dentro de estruturas de Country e Folk ganhassem outro peso no palco.

Essa transformação ficou mais evidente em III, lançado em 2 de outubro de 2020. Produzido, gravado e mixado por Kenny Miles e Mike Stephenson, o álbum documentou uma formação com Isaac Gibson nos vocais e diferentes instrumentos, Bus Shelton nas guitarras elétrica e barítono, Chase Chafin no baixo, Dillon Cridlin na bateria e Noah Patrick no lap steel e pedal steel. Don Eanes participou com piano, órgão Hammond e teclados, ampliando uma paleta instrumental que se tornaria cada vez mais importante para a identidade da banda.

III encontrou a 49 Winchester num ponto de equilíbrio entre Country alternativo, Americana, Soul, Rock e tradições dos Apalaches. A presença do pedal steel não impedia que as guitarras assumissem maior peso, enquanto a voz de Gibson começava a se estabelecer como um dos elementos mais reconhecíveis do grupo. As composições continuavam ligadas a experiências pessoais, relações afetivas, vida rural, deslocamento e à tensão entre permanecer no lugar de origem e descobrir o mundo fora dele.

Os três primeiros discos foram realizados sem o suporte de uma gravadora. Essa independência moldou a maneira como a banda aprendeu a trabalhar. Os próprios músicos precisaram construir público, organizar a vida na estrada e desenvolver gradualmente uma estrutura profissional. Quando surgiu a oportunidade de assinar com a New West Records, a 49 Winchester já possuía uma identidade construída ao longo de vários anos de atividade.

A entrada para a New West marcou uma mudança de escala, não uma reconstrução artística. A gravadora ofereceu estrutura para que o grupo alcançasse um público maior sem exigir que abandonasse suas origens. Essa relação resultou em Fortune Favors the Bold, lançado em 13 de maio de 2022, quarto álbum de estúdio e primeiro pela nova casa.

O disco tornou-se um divisor na trajetória da banda. A 49 Winchester apresentou uma combinação mais definida de Alt-Country, Soul, Rock'n'Roll e música dos Apalaches, enquanto as composições de Gibson ganharam maior projeção. Annabel, Hillbilly Daydream, Damn Darlin', Neon e a faixa-título faziam parte de um repertório que alternava energia e introspecção sem romper a unidade do álbum.

Russell County Line tornou-se uma das músicas centrais dessa fase. A composição aborda a relação de Gibson com o condado de Russell e a sensação de deixar a região para seguir a vida na estrada, ao mesmo tempo em que permanece emocionalmente ligado ao lugar de origem. A música transformou uma experiência particular em um dos temas recorrentes da 49 Winchester: sair de casa não significa romper com ela.

Esse sentimento passou a acompanhar a própria trajetória da banda. O sucesso de Fortune Favors the Bold levou a 49 Winchester a espaços que estavam muito distantes dos clubes e pequenos palcos de seus primeiros anos. Em 30 de agosto de 2022, o grupo fez sua estreia no Grand Ole Opry, em Nashville, numa noite cuja programação também incluiu Vince Gill, The War and Treaty, Aaron Tippin e outros artistas.

A expansão deixou de ser apenas nacional. Em 2023, a banda atravessou o Atlântico e passou a encontrar público no Reino Unido e na Europa. A participação no festival Country to Country colocou aqueles músicos dos Apalaches diante de uma audiência internacional, e posteriormente a 49 Winchester integrou a etapa europeia da turnê mundial de Luke Combs. O grupo que havia aprendido a trabalhar em circuitos regionais agora tocava em grandes casas e arenas fora dos Estados Unidos.

O crescimento não eliminou a lógica construída nos primeiros anos. Os integrantes continuaram descrevendo a banda a partir de uma ética de trabalho associada à própria origem, tratando a estrada como atividade diária e não como consequência ocasional de um disco bem-sucedido. A sucessão de shows passou a ocupar períodos cada vez maiores, impondo também novas experiências às composições.

Em 2024, a 49 Winchester participou de apresentações da Mule Pull '24 Tour, de Tyler Childers, incluindo noites no Bridgestone Arena, em Nashville. O contato com plateias maiores consolidou uma transformação que já vinha ocorrendo desde Fortune Favors the Bold: a banda mantinha Castlewood como referência cultural enquanto sua rotina profissional passava a acontecer em escala internacional.

Essa contradição entre partir e permanecer ligado às origens tornou-se o centro de Leavin' This Holler, lançado em 2 de agosto de 2024. Produzido pela banda ao lado de Stewart Myers, o quinto álbum não tratava a saída dos Apalaches como rejeição do lugar de origem, as músicas examinavam o custo pessoal do crescimento profissional, a distância, a estrada e a necessidade de conciliar ambição com pertencimento.

Yearnin' For You abordou diretamente uma dimensão menos visível da vida em turnê: a realização de viver de música acompanhada pela ausência das pessoas deixadas em casa. A faixa-título aprofundou a ideia de abandonar fisicamente o holler sem eliminar aquilo que ele representa na formação de quem partiu. Traveling Band voltou ao cotidiano da estrada, enquanto Hillbilly Happy reafirmou a ligação cultural com a região.

O álbum também ampliou as possibilidades sonoras. Maggie Antone participou da faixa Leavin' This Holler, e Fast Asleep e Anchor receberam arranjos executados pela Czech National Symphony Orchestra. A presença de uma orquestra num disco de uma banda nascida entre amigos de uma pequena comunidade da Virgínia poderia representar uma ruptura em outras circunstâncias. Na 49 Winchester, funcionou como expansão de uma linguagem que já vinha incorporando novos elementos a cada trabalho.

O crescimento instrumental não eliminou o papel das guitarras. Bus Shelton permaneceu como uma das peças fundamentais da sonoridade, enquanto Noah Patrick consolidou o pedal steel como elemento capaz de dialogar tanto com a tradição Country quanto com a abordagem mais elétrica do grupo. Tim Hall acrescentou piano, órgão e teclados, e Justin Louthian assumiu bateria e percussão, formando ao lado de Isaac e Chase a configuração que levou a banda à fase seguinte.

A formação de seis integrantes passou a reunir Isaac Gibson nos vocais e guitarra, Bus Shelton na guitarra, Chase Chafin no baixo, Noah Patrick no pedal steel, Tim Hall no piano, órgão e teclados e Justin Louthian na bateria e percussão. Apesar do crescimento da figura de Gibson como compositor e vocalista, a própria banda sempre enfatizou sua identidade coletiva. A 49 Winchester nasceu como grupo e preservou essa característica mesmo quando as composições do vocalista passaram a receber maior atenção.

Em 2026, essa formação chegou ao sexto álbum de estúdio, Change of Plans. O trabalho trouxe uma novidade importante: a produção de Dave Cobb, nome ligado a uma extensa renovação da música de raízes norte-americana e responsável por discos de artistas que transitaram entre Country, Americana, Rock e Soul. As gravações foram realizadas no Thunderbolt Sound, em Savannah, Geórgia, com engenharia de Tom Tapley.

Lançado em 15 de maio de 2026, Change of Plans apresentou uma banda já distante das condições materiais dos primeiros anos, mas ainda ligada à estrutura musical construída durante a trajetória. Isaac Gibson permaneceu no centro das composições, dividindo algumas parcerias com Matt Koziol, enquanto a produção de Cobb procurou registrar a força da formação como unidade.

A chegada a Dave Cobb também simboliza a dimensão alcançada pela 49 Winchester. Entre o primeiro disco independente de 2014 e Change of Plans, passaram-se doze anos em que a banda saiu de Castlewood, percorreu os Estados Unidos, chegou à Europa, estreou no Grand Ole Opry, abriu grandes turnês e transformou uma base regional de seguidores em público internacional.

Classificar essa trajetória por um único gênero não resolve completamente sua música. A 49 Winchester está profundamente ligada ao Country e à tradição dos Apalaches, e sua presença dentro do Americana e do Alt-Country é evidente. Ao mesmo tempo, a abordagem elétrica, a força das guitarras, o Soul presente na interpretação de Isaac Gibson e a maneira como a banda cresce no palco estabelecem uma ligação natural com o Country Rock e com diferentes vertentes do Southern Rock contemporâneo.

Essa proximidade não transforma a 49 Winchester numa reprodução das bandas sulistas dos anos 1970. Não estão em sua música as longas jams de The Allman Brothers Band nem a arquitetura de três guitarras do Lynyrd Skynyrd como requisitos de identidade, o ponto de contato está em outro lugar: na combinação de tradições musicais do Sul, na relação entre Country e Rock, na importância da estrada, na origem regional assumida como parte da composição e na recusa em tratar essas linguagens como compartimentos isolados.

Os Apalaches ocupam nessa identidade uma posição semelhante àquela que outras regiões do Sul exerceram sobre gerações anteriores. Castlewood e Russell County não aparecem como elementos decorativos ou ferramentas de marketing. São lugares concretos, ligados à infância dos integrantes, às relações familiares e à formação cultural que antecedeu a banda. Mesmo depois da expansão internacional, Gibson continuou escrevendo sobre o conflito entre partir e voltar.

A própria história da 49 Winchester reproduz esse movimento. Seus integrantes precisaram sair para que a banda crescesse, mas levaram consigo o nome de uma rua de Castlewood. O endereço transformado em identidade acompanha o grupo por Nashville, pelo Grand Ole Opry, pelas estradas norte-americanas e pelos palcos europeus.

O que começou com amigos recém-saídos do ensino médio, duas guitarras acústicas e um banjo tornou-se uma formação de seis músicos capaz de trabalhar guitarras elétricas, órgão, piano, pedal steel e arranjos orquestrais sem abandonar o vínculo com a música das montanhas. Cada etapa ampliou a anterior em vez de substituí-la.

A 49 Winchester ocupa, assim, um espaço importante dentro da geração que aproximou novamente Country, Americana, Rock e tradições regionais norte-americanas durante as décadas de 2010 e 2020. Sua ligação com o Southern Rock não depende de uma tentativa de reproduzir o passado do gênero, mas do diálogo entre raízes sulistas, guitarras, Country, Soul e Rock'n'Roll que acompanha sua música desde Castlewood.

Mais de uma década depois daqueles primeiros encontros entre amigos, o endereço permanece no nome e os Apalaches permanecem nas músicas. O alcance mudou. Os palcos mudaram. A estrutura profissional mudou. A origem, porém, continua funcionando como eixo de uma banda que precisou deixar o holler para descobrir até onde poderia chegar.

Formação atual

Isaac Gibson: vocais e guitarra
Brandon “Bus” Shelton: guitarra
Chase Chafin: baixo
Noah Patrick: pedal steel
Tim Hall: piano, órgão e teclados
Justin Louthian: bateria e percussão

Integrantes de fases anteriores documentados

Dillon Cridlin: bateria e percussão

Discografia

2014 – 49 Winchester
2018 – The Wind
2020 – III
2022 – Fortune Favors the Bold
2024 – Leavin' This Holler
2026 – Change of Plans