The Roadducks nasceram em 1976, na Virgínia, pelas mãos do
baterista Jay Nedry, e construíram uma das histórias mais impressionantes de
longevidade da cena de Southern Rock e Classic Rock americana. O que começou
como uma banda de jovens músicos da região de Mount Vernon, na Virgínia,
rapidamente ganhou uma dimensão muito maior. Os Roadducks entenderam cedo que
sua verdadeira força estava no palco e fizeram da estrada uma espécie de
segunda casa. Durante cinco décadas, a banda acumulou mais de 6.000
apresentações em 36 estados americanos, mantendo uma relação quase familiar com
o público e transformando a expressão “no bar too far, no hall too small” em
uma filosofia de vida.
A formação original reunia Jay Nedry na bateria,
Jay Kiernan nos vocais, Bob Gaynor e Bill Schmidle nas guitarras, Jody Chambers
no baixo e Dan Schrieber nos teclados. A banda começou a circular pela região e
logo passou a conquistar espaço dentro daquele circuito em que Southern Rock,
Country, Blues, Classic Rock e música de bar conviviam naturalmente. Os
Roadducks nunca dependeram de uma única etiqueta musical, seu repertório e sua
identidade foram se formando justamente nessa mistura, mas a guitarra, as
harmonias vocais, a energia de palco e a ligação com a tradição sulista
americana fizeram do Southern Rock uma parte fundamental de sua identidade.
O crescimento veio acompanhado de uma vida
intensa na estrada. Os Roadducks dividiram palcos com nomes como Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, Charlie Daniels Band, Marshall Tucker Band, .38 Special, The Outlaws, Molly Hatchet,
Stevie Ray Vaughan, Blackfoot e Foghat. Não era apenas uma questão de abrir shows para artistas
importantes, a banda passou a fazer parte daquele circuito profissional de
músicos que atravessavam o país tocando noite após noite, construindo público
em bares, clubes, festivais e casas de espetáculo. A convivência com tantos
nomes importantes também os colocou dentro de uma verdadeira rede de
relações que atravessaria décadas.
E é justamente nesse período que aparece uma
figura: Phil McCormack.
McCormack entrou nos Roadducks em 1982 e
permaneceu até 1997. Foi uma passagem longa, intensa e decisiva para a história
da banda. Antes de se tornar conhecido mundialmente como vocalista do Molly Hatchet, Phil passou quinze anos
construindo sua experiência nos palcos com os Roadducks. Foi ali que ele
desenvolveu parte importante daquela presença de palco que posteriormente
levaria para uma das maiores instituições do Southern Rock. A própria banda o
descreve como um de seus grandes vocalistas, ao lado de nomes como Bill Culver,
Bill “Senator” Schmidle e Bob “Bopper” Gaynor.
A grande fotografia dessa fase ficou registrada
em Get Ducked, lançado
originalmente em 1987 pelo selo Duxongs Records. O álbum apresenta Phil
McCormack nos vocais e harmônica, acompanhado por Bob Gaynor, Bill Schmidle,
Rob Melchiorre, Jimmy Racey, Jon Buder e Ed Callan. Gravado no Balance Sound,
com Bill Culver e John Biehl responsáveis pela produção e engenharia, o disco
reúne doze faixas e documenta os Roadducks no momento em que sua experiência de
estrada já estava completamente consolidada.
Mais importante do que transformar Get Ducked em
uma análise faixa a faixa é perceber o que aquele disco representa dentro da
trajetória dos Roadducks. Depois de mais de uma década de estrada, a banda
finalmente tinha um registro oficial capaz de colocar em disco aquilo que vinha
construindo diante do público. O reconhecimento veio rapidamente: Get Ducked
recebeu o Wammie de gravação de estreia da Washington Area Music Association em
1988. Naquele momento, os Roadducks já não eram apenas uma banda regional que
fazia centenas de shows, eram uma instituição da cena musical da Virgínia.
Phil continuaria ligado aos Roadducks durante boa
parte da década seguinte. Em 1992, inclusive, ele participou de Let It Ride, do Savoy Brown, cantando em duas faixas.
No mesmo período, sua ligação com o Molly
Hatchet começou a ganhar forma. Quando Danny Joe Brown precisou se
afastar temporariamente, Phil foi chamado para substituí-lo em 1992. Três anos
depois, em abril de 1995, tornou-se oficialmente o vocalista do Molly Hatchet, depois que Brown deixou
definitivamente a banda por problemas de saúde.
A saída de Phil dos Roadducks, em 1997, encerrou
uma das fases mais importantes da história da banda, mas não rompeu os laços
construídos durante aqueles quinze anos. As duas histórias
continuariam conectadas. Jay Nedry tinha relações antigas com músicos do
circuito de Southern Rock, inclusive com Bruce Crump, baterista do Molly Hatchet. Essas conexões ajudaram
os Roadducks a circular por uma rede cada vez maior de casas e artistas. Nedry
chegou a comprar o Jaxx, em 1993, transformando o clube em um dos pontos
importantes da cena musical da região e mantendo por muitos anos o vínculo
entre a banda, os músicos e o público.
A trajetória dos Roadducks também passou por
perdas e mudanças profundas. Bob “Bopper” Gaynor morreu de câncer pancreático
em 2014, e outros integrantes seguiram novos caminhos ao longo dos anos. A
própria banda, entretanto, sobreviveu a todas essas transformações. Essa é a característica mais impressionante de sua história: os Roadducks nunca
dependeram de uma formação congelada no tempo para continuar existindo, o núcleo da banda sempre esteve na estrada, na relação entre os músicos e na
disposição de continuar tocando.
Phil McCormack morreu em 26 de abril de 2019, aos
58 anos. Para os Roadducks, sua passagem deixou uma marca que não pode ser
separada da história da banda. Phil não foi simplesmente um cantor que passou
pelo grupo antes de chegar ao Molly
Hatchet, ele foi uma das vozes que ajudaram a definir uma de suas fases
mais importantes e participou de uma época em que os Roadducks estavam
consolidando sua reputação como uma das grandes bandas de estrada da Virgínia.
O próprio grupo recorda Phil como um companheiro de banda, irmão e amigo,
alguém com quem seus integrantes passaram milhares de horas na estrada.
Depois da saída de Phil, os Roadducks
continuaram. A banda atravessou os anos 2000 e 2010, enfrentou novas mudanças
de formação e manteve a tradição de tocar ao vivo. Em 2023, Jay Nedry
registrava 5.808 apresentações realizadas pela banda. Dois anos depois, os
Roadducks chegavam oficialmente aos cinquenta anos de história. A celebração
aconteceu em janeiro de 2026, no State Theatre, em Falls Church, com uma
apresentação comemorativa que reuniu músicos, amigos e fãs de diferentes
gerações. A banda já ultrapassava a marca de 6.000 shows e seguia sendo
apresentada como a “Virginia's House Band”.
O mais interssante na história dos Roadducks é que sua importância não
depende de um grande contrato, de um disco milionário ou de uma posição nas
paradas. A banda representa uma tradição muito mais antiga e, de certa maneira,
muito mais difícil de sustentar: a de uma banda que construiu sua carreira
tocando. Foram milhares de noites, milhares de quilômetros, mudanças de
integrantes, perdas, reencontros, clubes pequenos, grandes palcos, amizades que
atravessaram décadas e uma quantidade absurda de histórias acumuladas na
estrada.
E no meio de tudo isso está Get Ducked. O disco
não é apenas o primeiro registro oficial dos Roadducks. É o documento de uma
época em que Phil McCormack ainda era o vocalista daquela banda da Virgínia que
passava boa parte do ano viajando pelos Estados Unidos. O homem que alguns anos
depois estaria à frente do Molly
Hatchet já estava ali, dividindo microfone, estrada e palco com uma
banda que conhecia profundamente o espírito do Southern Rock.
Por isso, ouvir Get Ducked hoje é também voltar para um capítulo anterior da
história de Phil McCormack. Antes dos grandes discos com o Molly Hatchet, antes de se tornar uma
das vozes mais reconhecíveis da fase posterior da banda, existiram os
Roadducks, a estrada e aquela vida de músico que se constrói apresentação após
apresentação. E essa história, iniciada em 1976, continua até hoje.
Formação clássica
Jay Nedry: bateria
Jay Kiernan: vocais
Bob Gaynor: guitarra
Bill Schmidle: guitarra
Jody Chambers: baixo
Dan Schrieber: teclados
Fase de Get Ducked
Phil McCormack: vocais, harmônica
Bob Gaynor: guitarra, vocais
Bill Schmidle: guitarra, vocais
Rob Melchiorre: baixo, vocais
Jimmy Racey: bateria, vocais
Jon Buder: teclados
Ed Callan: teclados, vocais
Discografia
Get Ducked (1987)
Get Ducked Again (1990)










