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Do outro lado do Rio Grande

 


A influência da fronteira entre o Texas e o México nas histórias, imagens e sons que ajudaram a construir o Southern Rock.

Por Renato Martins São Pedro

A morte de Frank Beard me levou diretamente para uma relação que faz parte da história do Southern Rock: a ligação dessa música com o México e com a região de fronteira entre os Estados Unidos e o país vizinho.

Essa presença aparece de muitas formas. Está nas estradas que cortam o Texas, nas histórias de quem vive perto do Rio Grande, nos personagens que atravessam a fronteira, nos bares, nas pequenas cidades e na mistura cultural que existe naquela região há gerações. O México não está apenas do outro lado de uma linha no mapa, ele faz parte da paisagem cultural de uma parcela importante do Sul dos Estados Unidos. O ZZ TOP transformou muito desse universo em música e imagem, mas a relação vai muito além da banda. Rio Grande Mud já carregava essa fronteira no próprio nome e Tres Hombres levava a referência para dentro da própria apresentação do disco, com aquela imagem de um banquete mexicano estampada no encarte, cercado por burritos, enchiladas, quesadillas e toda aquela mistura que hoje conhecemos tão bem como culinária Tex-Mex. É música, é imagem, é comida, é cultura de fronteira. O Southern Rock cresceu cercado por histórias de estrada e por uma cultura que nunca enxergou a fronteira como uma parede.

O Rio Grande separa países, mas não consegue impedir a circulação de música, costumes, sotaques, sabores e influências. As antigas rádios mexicanas que transmitiam para os Estados Unidos são outro exemplo dessa ponte cultural, levando música para muito além da fronteira. E isso ajuda a entender por que o México aparece tantas vezes no imaginário da música sulista. Não é apenas uma referência geográfica, é parte de uma região onde culturas diferentes convivem, se misturam e acabam entrando nas histórias que os músicos levam para as estradas. Gosto dessa característica do Southern Rock, ele tem raízes muito fortes, mas não vive preso dentro delas. A estrada abre caminhos, atravessa estados, chega à fronteira e continua seguindo.

Frank Beard passou mais de cinco décadas ajudando a construir o som de uma banda profundamente ligada ao Texas. Pensar nele acabou me fazendo lembrar que aquela mesma estrada que ajudou a formar o ZZ TOP também atravessa uma fronteira cultural que aparece em tantas histórias do Southern Rock.

O Southern Rock nasceu no Sul dos Estados Unidos, mas suas histórias não terminam na última placa da estrada, às vezes, elas continuam do outro lado do Rio Grande.