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Quando o Blues cruzou o oceano e voltou para casa transformado

 


Quando o Blues cruzou o oceano e voltou para casa transformado

A conexão entre Estados Unidos e Inglaterra revela como a mesma raiz musical deu origem a diferentes caminhos, unindo o Blues, o Rock e a alma do Southern Rock.

Por Renato Martins São Pedro

O Southern Rock nasceu no sul dos Estados Unidos e isso ninguém muda. Agora, acreditar que ele cresceu sozinho é uma das maiores injustiças que se pode cometer com a história da música. Poucos estilos carregam tantas influências quanto ele, e poucas histórias são tão fascinantes quanto a viagem que o Blues fez entre a América e a Inglaterra, voltando para casa transformado, sem jamais perder a própria essência.

Enquanto muita gente imagina que o Southern Rock foi construído apenas nas estradas da Geórgia, do Alabama, da Louisiana ou do Texas, havia uma geração inteira de jovens britânicos completamente apaixonada pelos velhos mestres do Blues americano. Eles ouviam Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Robert Johnson, Elmore James e tantos outros como quem frequentava uma verdadeira universidade da música. Absorveram aquele sentimento, criaram uma linguagem própria e devolveram ao mundo um Rock que mudaria tudo dali em diante. Ao mesmo tempo, no sul dos Estados Unidos, outra geração misturava Blues, Country, Gospel e Rock and Roll para construir uma identidade que, anos mais tarde, receberia o nome de Southern Rock.

É nesse ponto que as fronteiras simplesmente deixam de existir. O passaporte perde qualquer importância quando a música fala mais alto. Basta ouvir bandas como Foghat, Paul Rodger, Free, Bad Company, Led Zeppelin ou até mesmo os The Rolling Stones para perceber que existe algo ali que conversa naturalmente com quem também ama Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers Band, ZZ TOP, Blackfoot, Marshall Tucker Band ou Molly Hatchet. Não porque um tentou copiar o outro, mas porque todos cresceram alimentados pela mesma raiz. O Blues continua pulsando nas guitarras, no groove, na forma de cantar, na maneira de contar histórias e até naquele cheiro imaginário de estrada que certos discos conseguem transmitir sem precisar dizer uma única palavra. Quando alguém afirma que determinada banda britânica “soa sulista”, a explicação não está no mapa, ela está no respeito que aqueles músicos tiveram pelas próprias influências. O sotaque pode ser diferente, o clima pode ser outro, mas a honestidade com que cada nota foi construída permanece exatamente a mesma. Música boa nunca pertenceu a um país, ela pertence às pessoas que a vivem de verdade.

O Southern Rock continua despertando tanta paixão. Ele nunca fechou as portas para aquilo que veio de fora, cresceu ouvindo, aprendendo, absorvendo e devolvendo ao mundo uma personalidade única, sem abrir mão das próprias raízes. O Blues nunca pediu passaporte, referiu pegar a estrada. Esse é o maior legado que ele deixou: mostrar que uma boa música sempre encontra o caminho para chegar ao coração de quem está disposto a ouvi-la.