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Molly Hatchet - Live in Hamburg 2004 (DVD + CD)

 


Quando se fala em Molly Hatchet, é quase impossível não pensar nas três guitarras, nas capas de fantasia medieval, em Flirtin' With Disaster, Gator Country, Whiskey Man e naquele Southern Rock pesado que ajudou a estabelecer uma das identidades mais fortes do gênero. A história da banda, porém, nunca foi linear. Mudanças de formação, mortes, afastamentos e diferentes fases fizeram parte de sua trajetória desde os primeiros anos. Por isso, assistir a Live in Hamburg hoje é mais interessante do que simplesmente colocar um DVD de show para tocar. O que temos aqui é um retrato bastante específico de uma banda tentando manter viva uma tradição que já não dependia exclusivamente dos músicos que a haviam criado.

O show foi gravado em 24 de julho de 2004, durante os Hamburg Harley Days, na Alemanha, e lançado em 2005 pela Steamhammer/SPV em um pacote que reúne DVD e CD. São aproximadamente 125 minutos de apresentação, registrados por várias câmeras, com áudio em Dolby Digital 2.0 e 5.1. A formação que sobe ao palco é Phil McCormack nos vocais e harmônica, Bobby Ingram nas guitarras, Jake Rutter na segunda guitarra, Tim Lindsey no baixo, Shawn Beamer na bateria e John Galvin nos teclados. E existe um detalhe histórico que muda completamente a maneira de enxergar esse registro: Dave Hlubek ainda não havia retornado ao Molly Hatchet, seu retorno aconteceria somente em 2005. Portanto, o que estamos vendo aqui é uma formação de transição, registrada exatamente no intervalo anterior à volta de um dos fundadores e guitarristas mais importantes da história da banda e do Southern Rock.

Essa informação é fundamental porque seria muito fácil assistir ao DVD acreditando que estamos diante de uma espécie de reunião tardia do Molly Hatchet clássico, mas não estamos, Hlubek não está no palco. Danny Joe Brown já havia falecido poucos meses antes, em março de 2005, e a voz do Molly Hatchet naquele momento era Phil McCormack, que já vinha ocupando essa posição havia anos. Bobby Ingram, que havia entrado na história da banda posteriormente, era o principal responsável pelas guitarras e pela condução musical do grupo. Jake Rutter fazia a segunda guitarra, mas sua passagem pela banda foi breve, restrita a 2004.

Este não é o Molly Hatchet tentando voltar ao passado, é o Molly Hatchet tentando provar que o passado ainda podia funcionar no presente.

A diferença parece pequena, mas não é. Uma coisa é colocar três músicos originais no palco e reconstruir uma formação histórica, outra é pegar um repertório criado por pessoas que já não estão ali e fazê-lo soar convincente com uma equipe completamente diferente. O segundo desafio é muito mais complicado. Em 2004, o nome Molly Hatchet já carregava uma grande responsabilidade, o público não estava chegando para descobrir uma banda nova, estava chegando para ouvir músicas que faziam parte da memória afetiva de várias gerações.

A primeira coisa que chama atenção no DVD é justamente a ausência de firulas. Não existe uma direção frenética tentando transformar o show em um espetáculo televisivo, ascâmeras registram a banda de maneira relativamente direta, com planos suficientemente longos para permitir que o espectador veja os músicos tocando. Uma análise da época destacou justamente esse aspecto, observando que não há cortes rápidos ou ângulos exagerados, uma escolha coerente com uma banda que nunca precisou de pirotecnia visual para sustentar seu espetáculo.

Isso é positivo, embora também tenha um preço. A direção não consegue transmitir completamente a dimensão de um show do Molly Hatchet. Outra avaliação da época observou que a apresentação parecia menos intensa do que poderia ser, especialmente pela reação relativamente moderada da plateia. O público dos Harley Days aparece participando, mas não produz aquela sensação de caos que um show de Southern Rock dessa natureza poderia proporcionar.

Ainda assim, basta Whiskey Man começar para que o problema seja colocado em segundo plano.

A música funciona como uma espécie de declaração de princípios. O riff pesado, a guitarra de Bobby Ingram, o baixo de Tim Lindsey, a bateria de Shawn Beamer e a voz e gaita de Phil McCormack estabelecem imediatamente o território. Não é um Southern Rock delicado, é a vertente mais pesada, agressiva e próxima do Hard Rock que sempre diferenciou o Molly Hatchet de bandas como The Allman Brothers Band ou The Marshall Tucker Band. Essa característica já fazia parte do DNA do grupo desde os anos 1970, e a formação de 2004 não tenta suavizá-la.

Phil McCormack é particularmente importante nesse processo. Ele não era Danny Joe Brown e não precisava ser, a melhor maneira de interpretar aquele repertório seria compreender que as músicas precisavam continuar vivas sem se transformar em imitações. McCormack possuía uma voz rouca, áspera e suficientemente poderosa para sustentar o repertório clássico, e sua presença ajudava a manter a personalidade da banda. Uma crítica, também da época, chegou a destacar justamente sua capacidade de preservar o espírito das gravações antigas, sem exigir que ele fosse uma cópia literal de Brown. O mesmo vale para Bobby Ingram.

Quando se olha para a história do Molly Hatchet, Ingram ocupa uma posição inevitavelmente controversa para quem associa a banda exclusivamente à formação original. Ele não é Dave Hlubek, Steve Holland e tão pouco Duane Roland, mas em Live in Hamburg ele já aparece como o músico que conduz a banda musicalmente. E isso fica muito evidente nos solos. Uma análise do DVD observou que Ingram concentra praticamente todos os momentos de guitarra, enquanto a segunda guitarra permanece muito mais discreta.

Esse detalhe é importante porque desmonta uma expectativa comum. Quem conhece a história do Molly Hatchet sabe que a força das primeiras formações estava justamente na interação entre guitarristas. Em Live in Hamburg, a arquitetura é diferente. Bobby Ingram assume o protagonismo das guitarras e Jake Rutter funciona muito mais como sustentação. Não há aquela sensação de duelo permanente entre três guitarristas que marcou a imagem clássica da banda. E, ainda assim, o som funciona.

Bounty Hunter confirma isso. A música possui aquele peso característico do Molly Hatchet, com a guitarra ocupando o centro e a cozinha mantendo uma pressão constante. Gator Country amplia a dimensão do espetáculo e mostra que a banda de 2004 compreendia perfeitamente a necessidade de alternar momentos de peso com passagens mais abertas. Não é apenas uma sucessão de clássicos, existe uma preocupação em construir uma apresentação.

Moonlight Dancin' on a Bayou acrescenta uma atmosfera diferente, enquanto Fall of the Peacemakers introduz um momento mais épico. O repertório, porém, privilegia claramente o lado mais pesado da banda. Uma análise alemã publicada em 2005 observou justamente que o setlist favorecia as músicas mais duras do catálogo e deixava de lado boa parte das faixas mais épicas e baladas.

Essa escolha é compreensível para um show desse tipo. O Molly Hatchet não está tocando em um teatro sentado, apresentando retrospectivamente sua discografia, está em um grande evento ligado à cultura motociclística, diante de um público que espera Rock. A banda responde com aquilo que sabe fazer melhor: guitarras, volume e energia.

Devil's Canyon, faixa do álbum homônimo de 1996, mostra também que o grupo não está interessado exclusivamente em viver dos anos 1970, o repertório inclui músicas posteriores e demonstra que o Molly Hatchet ainda possuía material próprio capaz de conviver com os clássicos. Son of the South e The Rainbow Bridge, do então recente Warriors of the Rainbow Bridge, também aparecem no set. The Rainbow Bridge possui um peso emocional especial por ter sido escrita em memória da esposa de Bobby Ingram, e sua presença mostra que aquela formação também estava tentando construir sua própria história. É justamente essa convivência entre passado e presente que torna o DVD interessante.

Porque o Molly Hatchet poderia ter feito um show baseado exclusivamente na nostalgia, não fez, mas também não tentou abandonar aquilo que o público queria ouvir. O resultado é um repertório que percorre diferentes momentos da carreira sem perder a identidade.

Beatin' the Odds é um excelente exemplo. A música pertence a uma fase posterior à formação original mais conhecida, mas já havia se tornado parte do repertório essencial da banda. Em Hamburgo, ela recebe uma execução segura e mostra que o Molly Hatchet tinha conseguido transformar diferentes gerações de seu catálogo em uma única apresentação. The Creeper segue pelo mesmo caminho, enquanto The Rainbow Bridge acrescenta uma dimensão mais contemporânea. Então chegam os solos e aqui o DVD divide opiniões.

Temos solo de bateria, solo de teclado e solo de guitarra. Para alguns espectadores, isso faz parte da tradição do Southern Rock e do Hard Rock. Para outros, ocupa um espaço precioso que poderia ser utilizado para mais músicas. Uma crítica publicada pelo Sea of Tranquility considerou que havia solos demais e foi especialmente severa com o solo de guitarra de Ingram, enquanto outras avaliações enxergaram esses momentos como parte natural da linguagem da banda.

Eu consigo entender os dois lados.

O problema não é a existência dos solos, o Molly Hatchet sempre foi uma banda de instrumentistas e nunca teve medo de deixar seus músicos tocar. O problema é que, em um DVD com aproximadamente duas horas de duração, cada minuto precisa justificar sua presença e quando o repertório possui um catálogo tão rico, a vontade de ouvir outra música acaba sendo inevitável.

Por outro lado, esses momentos ajudam a entender como aquela formação funcionava. O solo de bateria permite observar Shawn Beamer, que permaneceria durante muitos anos como um dos pilares da banda. John Galvin recebe espaço para mostrar sua importância nos teclados, instrumento que sempre teve papel fundamental na sonoridade do Molly Hatchet. E Bobby Ingram ganha o palco para demonstrar por que, naquele momento, era o principal responsável pela linguagem das guitarras.

Depois, Dreams I'll Never See devolve o show para um terreno mais emocional.

É uma das grandes músicas do repertório do Molly Hatchet e uma das melhores oportunidades para perceber como Phil McCormack lidava com aquele legado. A interpretação não tenta transformar a música em uma réplica da gravação original, a banda simplesmente a toca como parte de sua própria história e isso, para mim, é muito mais importante.

Porque o grande teste para uma formação posterior não é reproduzir perfeitamente os discos antigos, é fazer com que aquelas músicas ainda pareçam pertencer à banda que está diante do público, e nesse sentido, Live in Hamburg consegue uma vitória importante.

The Journey oferece um dos momentos mais longos da apresentação, enquanto Gone in 60 Seconds acelera novamente o ritmo antes de Jukin' City preparar o terreno para o inevitável encerramento com Flirtin' With Disaster. E é aqui que o DNA do Molly Hatchet se torna impossível de esconder.

Flirtin' With Disaster não precisa de apresentação, a música já chega carregando sua própria história. E, quando o riff aparece, fica claro que não importa quantas mudanças tenham acontecido na formação, aquela composição ainda funciona. O público reconhece imediatamente.

É nesse momento que o DVD responde à pergunta que ele próprio colocou desde o início.

O que faz uma banda continuar sendo a mesma banda quando quase tudo ao redor dela mudou?

Não é a formação, não é a aparência e não é a presença de um determinado músico, é o repertório, mas também é a maneira como uma nova geração de músicos entende aquele repertório e consegue fazê-lo.

Live in Hamburg não apaga a história clássica do Molly Hatchet. Também não tenta competir com ela. O que ele faz é registrar uma banda em pleno processo de continuidade. Bobby Ingram, Phil McCormack, Tim Lindsey, Shawn Beamer, John Galvin e Jake Rutter não são os músicos que fizeram Molly Hatchet, Flirtin' With Disaster ou Beatin' the Odds, são os músicos que receberam essas músicas décadas depois e tiveram a responsabilidade de levá-las para outra geração.

E isso é muito mais difícil do que parece.

Existe uma tendência, especialmente entre fãs de bandas clássicas, de considerar qualquer formação posterior inferior automaticamente. Live in Hamburg não elimina esse debate, mas oferece um argumento importante contra essa simplificação. A formação de 2004 pode não ter a mesma importância histórica da formação original, mas demonstra competência, respeito pelo repertório e, principalmente, disposição para tocar aquele material com força.

A própria recepção do DVD na época foi bastante positiva nesse aspecto. A Gritz Magazine chamou a apresentação de um show sem frescura, destacando o repertório clássico e a qualidade musical. O Rough Edge também reconheceu que aquela formação entregava as músicas com competência, embora considerasse que o desempenho poderia ter sido ainda mais vibrante.

A parte técnica do DVD, porém, não está no mesmo nível da música.

A imagem é correta, mas não espetacular. O formato é 4:3, com áudio em Dolby Digital 2.0 e 5.1. A captação por várias câmeras oferece diferentes perspectivas, inclusive tomadas mais amplas do público, mas a direção não transforma Hamburgo em um daqueles grandes DVDs de Rock que fazem o espectador sentir que está dentro do palco. Uma crítica espanhola foi particularmente dura nesse aspecto, observando que, apesar da boa qualidade sonora e de uma imagem competente, o registro não conseguia transmitir plenamente o ambiente da apresentação.

Os extras também são modestos: bastidores, entrevista com Bobby Ingram, galeria de fotos, biografia e discografia. Não são suficientes para transformar a edição em um documento histórico definitivo, mas ajudam a completar o pacote.

E existe ainda o CD que acompanha o DVD. Ele reproduz o show, mas com duração menor e algumas músicas retiradas por limitações de espaço. Entre as ausências está The Journey, além de Flirtin' With Disaster no CD. Para quem pretende ouvir a apresentação sem assistir ao vídeo, isso torna o DVD particularmente mais importante, já que a experiência completa está no disco visual.

Mas é justamente como documento visual que Live in Hamburg encontra seu maior valor.

Ele registra um momento que hoje é impossível repetir. Registra Phil McCormack à frente do Molly Hatchet. Registra Bobby Ingram consolidado como principal guitarrista. Registra Jake Rutter em sua breve passagem pela banda. Registra Tim Lindsey, Shawn Beamer e John Galvin formando a base de uma encarnação específica do grupo. E registra tudo isso antes do retorno de Dave Hlubek, que aconteceria pouco depois.

Isso transforma o DVD em uma fotografia de uma fase muito particular. Nao é a fotografia do Molly Hatchet que começou tudo, é a fotografia de uma banda que já havia atravessado mais de duas décadas de mudanças e que ainda estava disposta a subir no palco, ligar os amplificadores e tocar aquelas músicas como se elas ainda fossem novas.

Ele não tenta convencer ninguém de que aquela é a formação definitiva do Molly Hatchet, não tenta reproduzir a magia da formação original, não tenta apagar as mudanças que aconteceram ao longo dos anos.

Ele simplesmente registra uma banda trabalhando.

E trabalhando muito bem.

Por isso, quando o último acorde de Flirtin' With Disaster desaparece, o que fica não é a sensação de ter assistido a uma reconstrução do passado, fica a impressão de ter encontrado uma fotografia de uma banda que se recusava a deixar seu passado morrer.

É isso que faz Live in Hamburg importante.

Não porque seja o melhor DVD do Molly Hatchet. Não porque tenha a melhor formação. Não porque tenha a melhor produção audiovisual. E certamente não porque seja uma apresentação perfeita.

Ele merece ser lembrado porque documenta o momento em que o Molly Hatchet já não era mais a banda que havia criado aquele repertório, mas ainda era capaz de fazê-lo soar vivo.

E, para uma banda que atravessou tantas mudanças, isso não é pouca coisa.

Em 2004, o Molly Hatchet não estava tentando voltar para casa., estava carregando a própria casa consigo.

Formação

Phil McCormack - vocais, harmônica
Bobby Ingram - guitarras, backing vocals
Jake Rutter - guitarra
Tim Lindsey - baixo, backing vocals
Shawn Beamer - bateria, percussão
John Galvin - teclados, piano, backing vocals

Formação correspondente ao show de 24 de julho de 2004. Dave Hlubek ainda não havia retornado à banda; sua volta ocorreu posteriormente, em 2005.

Setlist completa

1.    Intro

2.    Whiskey Man

3.    Bounty Hunter

4.    Gator Country

5.    Moonlight Dancin' on a Bayou

6.    Fall of the Peacemakers

7.    Devil's Canyon

8.    Drum Solo

9.    Beatin' the Odds

10. Son of the South

11. The Creeper

12. The Rainbow Bridge

13. Keyboard Solo

14.  Instrumental

15. Guitar Solo

16. Dreams I'll Never See

17. The Journey

18. Gone in 60 Seconds

19. Jukin' City

20. Flirtin' With Disaster

Extras do DVD: Behind the Scenes, entrevista com Bobby Ingram, galeria de fotos, biografia e discografia.

Renato Martins São Pedro

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