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E se a internet tivesse existido nos anos 70?

 


Entre descobertas feitas em lojas de discos e pesquisas nos primeiros mecanismos de busca, a tecnologia mudou o caminho até a música, mas não diminuiu a curiosidade que transforma um ouvinte em apaixonado.

Por Renato Martins São Pedro

Gosto de imaginar como teria sido descobrir o Southern Rock se a internet de hoje já existisse nos anos 70. Será que Lynyrd Skynyrd e tantos outros teriam percorrido o mesmo caminho? Será que bandas como Potliquor, Jamul, Grinderswitch, Hydra, Copperhead, Point Blank e tantas joias escondidas teriam encontrado pessoas espalhadas pelo mundo com muito mais facilidade? Ou será que, no meio de milhões de músicas lançadas todos os dias, muitas delas acabariam perdidas da mesma forma? Nunca teremos essa resposta, mas pensar nisso rende uma boa viagem.

Quando descobri o Southern Rock, em 1999, a internet ainda dava seus primeiros passos. Procurar uma banda significava encontrar poucas linhas de informação em mecanismos de busca da época como o Cadê. Fotografias eram raras, vídeos praticamente não existiam e entrevistas pareciam artigos de luxo. Grande parte das descobertas acontecia de outro jeito, elas estavam nos corredores da Galeria do Rock, nas prateleiras da Woodstock Discos, do Museu do Disco, da Hi-Fi e de tantas lojas que transformavam uma simples visita em uma verdadeira caça ao tesouro. Perdi a conta de quantas vezes uma capa chamou minha atenção. Eu não conhecia a banda, nunca tinha ouvido uma única música, não fazia ideia de quem eram aqueles músicos, mas alguma coisa dizia que aquele disco merecia uma chance.

Muitas das melhores descobertas da minha vida começaram exatamente assim. A arte da capa despertava a curiosidade, o nome da banda alimentava a imaginação e o resto era um salto de fé. Eu chegava em casa, colocava um vinil ou CD no aparelho e torcia para que aquela aposta se transformasse em uma grande descoberta. Era exatamente isso que acontecia, salvo raras exceções. Hoje temos acesso a praticamente toda a música do mundo em poucos segundos. Isso é incrível e ninguém pode negar, mas acredito que as maiores descobertas nunca nasceram da facilidade, e sim da curiosidade, da vontade de ouvir algo completamente desconhecido. Sem algoritmo sugerindo o próximo álbum, sem resenhas em vídeo, sem playlists prontas dizendo o que deveria tocar depois. A surpresa fazia parte da experiência.

A tecnologia mudou a maneira como pesquisamos e descobrimos música, e isso tornou muita coisa mais fácil. Eu mesmo uso essas ferramentas todos os dias para conhecer bandas, buscar informações e ampliar horizontes, mas a paixão continua morando no lugar de sempre. Quando uma banda realmente me conquista, a vontade de ter aquele disco nas mãos fala mais alto, porque, para mim, a música é física. Gosto de abrir o encarte, observar cada detalhe da capa, ler os créditos, colocar o CD no aparelho e ouvir o álbum da primeira à última faixa, exatamente como o artista imaginou. O streaming me ajuda a descobrir, o disco me faz viver a experiência completa. A tecnologia ampliou os caminhos da descoberta, o disco físico continua sendo o destino.

É isso que me mantém apaixonado pelo Southern Rock depois de todos esses anos.