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Creedence Clearwater Revival - Cosmo's Factory (1970)

 


Creedence Clearwater Revival - Cosmo's Factory (1970)

Não existiu uma banda em um período de criatividade tão intensa quanto a Creedence Clearwater Revival. Entre 1968 e 1970, John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford construíram uma discografia que atravessou gerações sem perder relevância. Enquanto o Rock se dividia entre o virtuosismo, a psicodelia e as experimentações progressivas, o quarteto escolheu outro caminho. Apostou em músicas diretas, riffs inesquecíveis, letras marcantes e uma sonoridade profundamente enraizada no Blues, no Country, no Rockabilly e no Swamp Rock.

Foi justamente no auge dessa impressionante sequência criativa que nasceu Cosmo's Factory. Lançado em julho de 1970, o álbum representa o momento em que a Creedence Clearwater Revival alcançou sua forma definitiva. Não existe desperdício, não existe excesso, cada música ocupa exatamente o espaço que deveria ocupar, formando um conjunto que permanece entre os maiores álbuns da história do Rock.

O título desperta curiosidade desde a primeira leitura. "Cosmo" era o apelido do baterista Doug Clifford. "Factory" fazia referência ao ritmo quase industrial imposto por John Fogerty durante os ensaios. A banda ensaiava diariamente, com disciplina incomum para um grupo de Rock da época. O galpão onde aquelas horas intermináveis de trabalho aconteciam acabou recebendo o apelido de Cosmo's Factory. O nome permaneceu e eternizou um disco que simboliza justamente o resultado dessa dedicação quase obsessiva.

Existe outro detalhe que torna este álbum ainda mais fascinante. A Creedence Clearwater Revival era uma banda da Califórnia. Ainda assim, poucas formações compreenderam tão profundamente a essência musical do sul dos Estados Unidos. O grupo nunca tentou imitar os artistas sulistas. John Fogerty absorveu décadas de Blues, Country, Gospel e Rhythm & Blues e transformou todas essas influências em uma identidade própria. O resultado foi uma sonoridade tão autêntica que, durante muitos anos, muita gente acreditou que a banda tivesse nascido em algum ponto entre o Mississippi e a Louisiana.

A abertura com Ramble Tamble desmonta qualquer ideia de que a Creedence Clearwater Revival vivia apenas de músicas curtas para tocar no rádio. A composição ultrapassa sete minutos e apresenta uma construção instrumental impressionante, alternando momentos de tensão, silêncio e explosão. É uma das gravações mais ousadas de toda a carreira da banda e demonstra uma confiança artística rara para um grupo que já dominava as paradas de sucesso.

Logo depois, Travelin' Band explode como um legítimo tributo ao Rock and Roll de Little Richard, enquanto Lookin' Out My Back Door revela o lado mais leve e bem-humorado de John Fogerty. Durante décadas, muita gente insistiu em enxergar referências ao consumo de drogas em sua letra. A inspiração era muito mais simples e muito mais bonita. Fogerty escreveu a música pensando no filho pequeno, influenciado por um livro infantil que costumava ler para ele. A inocência da composição venceu o tempo.

Run Through the Jungle também carregou durante anos uma interpretação equivocada. Ao contrário do que muitos imaginaram, a música não nasceu como uma crítica direta à Guerra do Vietnã. John Fogerty sempre deixou claro que sua preocupação estava na enorme quantidade de armas espalhadas dentro dos próprios Estados Unidos. O clima sombrio da canção traduz perfeitamente essa sensação de insegurança e tensão.

Um dos maiores méritos de Cosmo's Factory está na maneira como a banda incorpora releituras sem comprometer a identidade do álbum. Before You Accuse Me, de Bo Diddley, Ooby Dooby, eternizada por Roy Orbison, My Baby Left Me, de Arthur Crudup, e principalmente a monumental versão de I Heard It Through the Grapevine demonstram o respeito que a Creedence Clearwater Revival tinha pelas raízes da música americana. Em vez de simplesmente reproduzir os originais, o quarteto os reinventou. A interpretação de I Heard It Through the Grapevine, com mais de onze minutos, tornou-se uma verdadeira viagem sonora e uma das performances mais marcantes de sua discografia.

Se existe uma música capaz de sintetizar a grandeza de John Fogerty como compositor, ela atende pelo nome de Who'll Stop the Rain. Sua beleza está justamente na universalidade. Escrita em um período marcado por conflitos políticos, guerras e profundas transformações sociais, a canção nunca ficou presa a um único acontecimento histórico. Continua emocionante porque fala de esperança, de desilusão e da eterna busca por dias melhores. É uma composição que pertence a qualquer época.

O encerramento com Long as I Can See the Light confirma o cuidado com que o álbum foi concebido. Depois de uma sequência de clássicos, a Creedence Clearwater Revival opta por terminar o disco de maneira emocionante e elegante. O saxofone, a interpretação vocal de John Fogerty e a simplicidade dos arranjos criam uma atmosfera que permanece na memória muito tempo depois que a música termina.

Musicalmente, Cosmo's Factory também representa o auge da liderança criativa de John Fogerty. Além de escrever praticamente todo o repertório, ele produzia os discos, definia os arranjos e conduzia a direção artística da banda. Esse controle absoluto garantiu uma identidade sonora inconfundível e levou a Creedence Clearwater Revival ao ponto mais alto de sua trajetória. Ao mesmo tempo, também intensificou os desgastes internos que, pouco depois, contribuiriam para o fim da formação clássica.

Mais de cinco décadas se passaram desde seu lançamento e Cosmo's Factory continua desafiando o tempo. Não soa datado. Não depende da nostalgia. Continua moderno porque foi construído sobre músicas extraordinárias, interpretações sinceras e uma produção que jamais sacrificou a música em nome da tecnologia ou das tendências do momento.

São tantos clássicos sem perder a unidade. Mais raro ainda é encontrar um álbum que represente com tanta precisão o auge criativo de uma banda. Cosmo's Factory reúne essas duas qualidades e ocupa um lugar definitivo entre as obras fundamentais da música americana. Não é apenas o maior sucesso comercial da Creedence Clearwater Revival. É a prova de que a simplicidade, quando acompanhada de talento, disciplina e inspiração, pode alcançar a eternidade.

Resenha escrita por Renato Martins São Pedro

Tracklist

1.    Ramble Tamble

2.    Before You Accuse Me

3.    Travelin' Band

4.    Ooby Dooby

5.    Lookin' Out My Back Door

6.    Run Through the Jungle

7.    Up Around the Bend

8.    My Baby Left Me

9.    Who'll Stop the Rain

10.  I Heard It Through the Grapevine

11.  Long as I Can See the Light

Formação

John Fogerty - vocal, guitarra, piano, saxofone e gaita

Tom Fogerty - guitarra rítmica e vocais de apoio

Stu Cook - baixo e vocais de apoio

Doug "Cosmo" Clifford - bateria e percussão

Produção

John Fogerty