Blackfoot - Strikes (1979)
Em março de 1979, o Blackfoot lançava aquele que se tornaria o grande divisor de águas de sua carreira. Depois de dois álbuns que já demonstravam personalidade, mas encontraram pouca repercussão comercial, Strikes apresentou uma banda muito mais madura, segura de sua identidade e pronta para ocupar um espaço de destaque dentro do Southern Rock. O disco também marcou o início da fase mais celebrada do grupo, que teria continuidade em Tomcattin' e Marauder, três trabalhos que ajudaram a consolidar o nome do Blackfoot como um dos representantes mais pesados e agressivos do gênero.
Gravado nos estúdios Subterranean Studio, em Ann
Arbor, Sound Suite Studios, em Detroit, e Bee Jay Studios, em Orlando, Strikes
foi produzido por Al Nalli e Henry "H-Bomb" Weck. A produção encontra
um equilíbrio interessante entre peso e clareza. O Blackfoot nunca soou
excessivamente polido, mas também jamais permitiu que a agressividade
sacrificasse a definição dos instrumentos. Essa combinação ajudou a criar um
álbum que continua impactante mesmo décadas depois de seu lançamento.
A formação formada por Rickey Medlocke, Charlie
Hargrett, Greg T. Walker e Jakson Spires atravessava um momento de grande
sintonia. Medlocke assume naturalmente a liderança com sua combinação de vocais
marcantes e guitarras vigorosas, mas o grande mérito do disco está justamente
no espírito coletivo. Charlie Hargrett constrói, ao lado de Medlocke, uma
parede de guitarras sólida e extremamente eficiente, enquanto Walker e Spires
sustentam cada música com uma cozinha firme, pesada e precisa. Poucas bandas do
Southern Rock conseguiram unir com tanta naturalidade a energia do Hard Rock
com as raízes do Blues e da música sulista.
Logo na abertura, "Road Fever" deixa
claro que o Blackfoot havia elevado o nível em relação aos trabalhos
anteriores. A energia transborda desde os primeiros acordes e estabelece o
clima que acompanhará praticamente todo o álbum. Em seguida, a excelente
releitura de "I Got a Line on You", originalmente gravada pelo
Spirit, mostra como a banda conseguia transformar uma composição já conhecida
em algo completamente identificado com sua própria personalidade. O mesmo
acontece com "Pay My Dues", do Blues Image, e "Wishing
Well", do Free. Em nenhum momento os covers soam deslocados. Pelo
contrário, parecem ter sido escritos especialmente para o Blackfoot.
As composições próprias também sustentam o alto
nível do disco. "Left Turn on a Red Light" apresenta uma das
interpretações mais intensas de Rickey Medlocke, enquanto "Baby Blue"
oferece um raro momento de respiro sem quebrar a unidade do álbum. "Run
and Hide" retoma o peso característico da banda e prepara o terreno para a
sequência final.
Um dos momentos mais interessantes de Strikes
acontece justamente antes de "Train, Train". A curta "Train,
Train (Prelude)" apresenta o veterano Shorty Medlocke na gaita, criando
uma introdução simples, mas extremamente eficaz para aquela que se tornaria uma
das canções mais conhecidas da história do Blackfoot. Escrita pelo próprio
Shorty, avô de Rickey Medlocke, "Train, Train" estabelece uma ligação
direta entre a tradição do Blues rural e a sonoridade pesada desenvolvida pela
banda, mostrando que, por trás de toda a força do álbum, existia um profundo
respeito pelas raízes musicais do sul dos Estados Unidos.
O encerramento com "Highway Song"
explica por que Strikes ocupa um lugar tão especial na discografia do
Blackfoot. Muito além do maior sucesso comercial da banda, a música reúne
praticamente todas as qualidades presentes no disco: guitarras inspiradas,
excelente dinâmica, interpretação segura e uma construção que cresce de forma
natural até seu desfecho. Não por acaso, tornou-se um dos grandes clássicos do
Southern Rock e permanece como a composição mais lembrada do grupo.
Sempre enxerguei Strikes como o álbum em
que o Blackfoot encontrou definitivamente sua identidade. Os discos anteriores
já mostravam uma banda promissora, mas foi aqui que todas as peças se
encaixaram. O peso passou a conviver de forma absolutamente natural com as
influências do Blues, do Country e do Southern Rock, criando uma sonoridade
própria que poucas bandas conseguiram reproduzir com a mesma autenticidade.
Mais do que o disco que revelou "Highway
Song" e "Train, Train", Strikes inaugurou a fase mais
consistente da carreira do Blackfoot e abriu caminho para Tomcattin' e Marauder,
dois álbuns que ampliariam ainda mais a reputação da banda. É uma obra
fundamental para compreender como o Southern Rock evoluiu no final da década de
1970, aproximando-se do Hard Rock sem abrir mão de suas raízes.
Resenha escrita por Renato Martins São Pedro
Tracklist
1.
Road Fever
2.
I Got a Line on You (Spirit)
3.
Left Turn on a Red Light
4.
Pay My Dues (Blues Image)
5.
Baby Blue
6.
Wishing Well (Free)
7.
Run and Hide
8.
Train, Train (Prelude)
9.
Train, Train
10. Highway Song
Formação
Rickey Medlocke - vocal, guitarra
Charlie Hargrett - guitarra
Greg T. Walker - baixo, vocais de apoio
Jakson Spires - bateria, vocais de apoio
Músicos
adicionais
Pat McCaffrey - teclados
Shorty Medlocke - gaita em "Train, Train
(Prelude)"
Cub Koda - gaita em "Train, Train"
Donna D. Davis - vocais de apoio
Pamela T. Vincent - vocais de apoio
Cynthia M. Douglas - vocais de apoio
Produção
Al Nalli
Henry "H-Bomb" Weck










