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LYNYRD SKYNYRD SWU 2011

 

LYNYRD SKYNYRD no SWU 2011 - Por Renato São Pedro

Quando a espera vira rito e o Southern Rock domina um festival inteiro

O festival SWU, sigla para Starts With You, foi concebido como um evento que unia música, sustentabilidade e reflexão social. Realizado no Parque Brasil 500, em Paulínia, o encontro reuniu grandes nomes internacionais e uma estrutura que ia além dos palcos, incluindo fóruns ambientais, exposições, cinema, camping e áreas temáticas.

Mas, para uma parcela significativa do público presente na noite de 13 de novembro de 2011, havia um único motivo para estar ali. O encerramento do penúltimo dia de festival ficaria a cargo do Lynyrd Skynyrd e isso transformava o show em um momento histórico para os fãs brasileiros do Southern Rock, ainda mais por se tratar da primeira apresentação da banda no país.

O contato com os músicos no hotel, na véspera, alterou completamente a percepção da experiência. Não se tratava mais apenas de assistir a um show importante, mas de acompanhar ao vivo artistas com quem já havia existido uma interação direta. Essa proximidade ampliava a ansiedade e tornava a expectativa ainda mais intensa.

No dia seguinte, já dentro do festival, a prioridade era clara. Garantir a grade do palco Energia, onde o grupo encerraria a programação. A permanência ali exigiu resistência física. Foram mais de doze horas sem sair do lugar, sem alimentação adequada e evitando qualquer deslocamento que pudesse significar perder a posição conquistada. Ao olhar para trás, a multidão deixava evidente que não haveria retorno possível caso a grade fosse abandonada. O sacrifício fazia parte do ritual.

O cenário reforçava a dimensão do momento. Bandeiras confederadas surgiam em grande quantidade, talvez a maior concentração já vista em um evento musical no país. Para alguns, símbolo cultural do Sul dos Estados Unidos. Para outros, elemento controverso. Independentemente da leitura, ali servia como marcador de identidade de um público que sabia exatamente o que estava prestes a testemunhar.

Às 0h10, já na madrugada do dia 14, a banda subiu ao palco para encerrar o festival, transmitido ao vivo pelo canal Multishow. A abertura com “Workin’ for MCA” cumpriu o papel clássico de estabelecer autoridade sonora imediata. O peso das guitarras e a segurança da execução indicavam que, mesmo décadas após sua formação, o grupo mantinha controle absoluto sobre a própria narrativa musical.

“I Ain’t the One” e “Skynyrd Nation” reforçaram essa identidade, conectando diferentes fases da carreira a um mesmo eixo sonoro. O público demonstrava clara familiaridade com o repertório. Aproximadamente oitenta por cento da plateia parecia formada por fãs declarados, mas a distância entre os palcos não impediu que curiosos também se aproximassem. O show funcionava, ao mesmo tempo, como celebração para iniciados e apresentação definitiva para novos ouvintes.

Durante “What’s Your Name”, um momento inesperado tornou a experiência ainda mais pessoal. Da grade, usando a mesma camiseta vista pela banda no hotel no dia anterior, houve reconhecimento direto vindo do palco. Johnny Van Zant apontou, sorriu e fez um gesto afirmativo com a cabeça. Um instante breve, mas suficiente para transformar um show histórico em memória definitiva.

“Down South Jukin’”, “That Smell” e “I Know a Little” reforçaram a densidade musical do repertório. A banda soava precisa, confortável e plenamente consciente do peso simbólico daquela apresentação. “I Got the Same Old Blues” e a execução de “T For The Texas” reafirmaram a ligação do grupo com as raízes do blues e da música tradicional americana, base sobre a qual o Southern Rock sempre se construiu.

“Simple Man” trouxe o primeiro momento de suspensão coletiva. Cantada em uníssono, transformou o espaço aberto do festival em uma espécie de comunhão musical. Foi justamente durante essa execução que o clima mudou. Uma garoa começou a cair sobre o público. Não uma chuva forte, mas uma presença constante, quase silenciosa. Como se o tempo tivesse decidido participar do momento, contemplando a simplicidade e a carga emocional da música. A sensação era menos meteorológica e mais simbólica, como se o ambiente respondesse à intensidade da canção.

A sequência final elevou a energia. “Gimme Three Steps” reacendeu a plateia, “Call Me the Breeze” manteve o fluxo e “Sweet Home Alabama” consolidou o ponto máximo de reconhecimento popular, com milhares de vozes acompanhando cada verso.

O encerramento com “Free Bird” cumpriu o papel simbólico que a música carrega há décadas. Não apenas uma canção, mas um rito. A execução longa, construída em camadas, funcionou como despedida definitiva do festival e como afirmação de que a história do grupo continua sendo escrita diante do público.

O SWU pretendia unir entretenimento e conscientização ambiental. Para muitos presentes, no entanto, aquela madrugada representou também um encontro com a memória viva do Southern Rock. O esforço físico, a espera prolongada e a tensão acumulada desapareceram diante da experiência sonora entregue pela banda. O que permaneceu foi a sensação de ter presenciado não apenas um show, mas um capítulo de continuidade de uma tradição musical que atravessa gerações.

Havia ainda um elemento que extrapolava o próprio concerto. O Southern Rock Site Brazil encontrava-se em hiato naquele período, fora do ar e sem previsão de retorno. Mesmo assim, ao longo do festival, inúmeras pessoas se aproximaram para perguntar sobre o site. Muitos lembravam do conteúdo, das coberturas e da dedicação ao gênero. As perguntas se repetiam: por que saiu do ar, se voltaria, quando voltaria.

Na volta de Paulínia para São Paulo, a resposta começou a se formar com clareza. O Southern Rock Site Brazil iria voltar. E não demoraria. O ano de 2012 já se aproximava, e com ele viria também o retorno do projeto que, de certa forma, continuava vivo na memória do público mesmo durante o silêncio.

Ficha técnica

Evento: SWU Music and Arts Festival

Data: 13 de novembro de 2011

Local: Parque Brasil 500, Paulínia, SP

Palco: Energia

Horário do show: 0h10

Transmissão ao vivo: Multishow

Setlist

Work ’ for MCA

I Ain’t the One

Skynyrd Nation

What’s Your Name

Down South Jukin’

That Smell

I Got the Same Old Blues

I Know a Little

Simple Man

T for Texas

Gimme Three Steps

Call Me the Breeze

Sweet Home Alabama

Free Bird


Formação da banda na ocasião

Johnny Van Zant - vocal

Gary Rossington - guitarra

Rickey Medlocke - guitarra

Mark Matejka - guitarra

Peter Keys - teclados

Robert Kearns - baixo

Michael Cartellone - bateria


ASSINATURA EDITORIAL

Cobertura indireta realizada pelo Southern Rock Site Brazil. Registro baseado na presença no evento e na memória do autor. Material publicado com finalidade documental e histórica.

Southern Rock Site Brazil, desde 2000 preservando a memória do Southern Rock e suas conexões.