A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Foghat


 

Nota editorial | Southern Rock Site Brazil

Essa banda não pertence diretamente ao universo do Southern Rock, mas sua sonoridade dialoga com elementos, influencias ou atmosferas que orbitam o estilo. Por afinidade musical e relevância desse contexto, ela também integra o arquivo do Southern Rock Site Brazil.

Antes de existir Foghat, existia Savoy Brown.

A conexão não é apenas uma curiosidade de formação. É uma das chaves para entender a história do Foghat. Em 1970, Lonesome Dave Peverett, Roger Earl e Tony Stevens faziam parte do Savoy Brown, uma das principais bandas britânicas de Blues Rock. Peverett estava nas guitarras e vocais, Stevens no baixo e Earl na bateria. Depois de uma passagem pelos Estados Unidos e de diferenças dentro do Savoy Brown, os três decidiram seguir outro caminho. Em 1971, juntaram-se ao guitarrista de slide Rod Price e deram início ao Foghat.

A história, portanto, começa dentro do próprio Blues britânico. O Savoy Brown havia sido formado por Kim Simmonds em Londres em 1965 e construiu sua identidade sobre um Blues elétrico, pesado e profundamente ligado à tradição americana. Peverett, Earl e Stevens absorveram aquela linguagem durante anos antes de levá-la para uma nova banda. Não por acaso, a própria biografia oficial do Savoy Brown destaca os três como integrantes que seguiram para formar o Foghat.

A chegada de Rod Price foi decisiva. Vindo do Black Cat Bones, Price era um especialista em guitarra slide e possuía exatamente o tipo de personalidade musical que faltava ao trio. A formação estava completa: Peverett na guitarra e voz, Price na guitarra e slide, Stevens no baixo e Earl na bateria. A partir dali, o Foghat começaria a transformar o Blues Rock britânico em algo mais direto, pesado e dançante.

O nome também veio de uma brincadeira de Peverett com seu irmão, embora a palavra não tivesse um significado específico. O importante estava no som. O Foghat queria tocar Rock. Queria tocar Blues. Queria volume, guitarra slide e ritmo. E queria fazer tudo isso sem abandonar a essência do Boogie.

O primeiro álbum, simplesmente chamado Foghat, chegou em 1972, produzido pelo galês Dave Edmunds. A banda havia assinado com a Bearsville Records e começava a construir uma carreira que rapidamente ultrapassaria as fronteiras britânicas. O repertório combinava composições próprias com músicas de compositores de Blues, incluindo a versão de I Just Want to Make Love to You, de Willie Dixon, que recebeu bastante execução nas rádios FM americanas. O álbum também trazia Leavin' Again (Again!), uma releitura de uma música do próprio Savoy Brown.

A mudança mais importante, entretanto, aconteceria geograficamente.

O Foghat encontrou nos Estados Unidos um público muito maior para aquilo que fazia. A banda se estabeleceu no país e passou a excursionar incessantemente. O que havia começado como uma banda britânica de Blues Rock começou a ganhar características cada vez mais americanas. O Boogie ficou mais pesado, o volume aumentou e o Foghat desenvolveu uma identidade que não dependia mais apenas de suas raízes britânicas.

Os primeiros anos foram de crescimento constante. Rock and Roll veio em 1973, seguido por Energized e Rock and Roll Outlaws. Os discos começaram a alcançar certificações e o público crescia rapidamente. O Foghat estava deixando de ser apenas uma banda de Blues Rock para se transformar em uma verdadeira máquina de estrada.

Em 1975, entretanto, a história mudou de escala.

Fool for the City colocou o Foghat no centro do Rock americano. O álbum trouxe Slow Ride, composição de Dave Peverett que se transformaria no maior clássico da banda e em uma das músicas mais reconhecíveis de toda a história do Boogie Rock.

O sucesso de Slow Ride não aconteceu por acaso. A música condensava tudo o que o Foghat havia aprendido até aquele momento: Blues, guitarra slide, baixo pulsante, bateria pesada e uma simplicidade rítmica que fazia a música funcionar imediatamente diante de uma plateia. Era Rock de estrada no sentido mais completo da expressão.

Mas Fool for the City também marcou o fim de uma das formações originais. Tony Stevens deixou a banda em 1975, desgastado pelo ritmo incessante das turnês. Craig MacGregor assumiu o baixo e permaneceria associado ao Foghat durante grande parte de sua história.

O sucesso continuou.

Em 1977, Foghat Live registrou a banda em seu ambiente mais natural: o palco. O álbum tornou-se multiplatinado e consolidou a reputação do Foghat como uma das grandes bandas ao vivo de sua geração. A combinação entre Boogie, Blues e Hard Rock funcionava especialmente bem diante de grandes plateias, e o grupo havia desenvolvido uma capacidade impressionante de transformar suas músicas em longas viagens de guitarra e ritmo.

Stone Blue e Boogie Motel, ambos lançados na segunda metade dos anos 1970, mantiveram a banda em evidência. O Foghat havia chegado a um ponto em que sua identidade era imediatamente reconhecível. A guitarra slide de Rod Price, a voz de Peverett e a bateria de Roger Earl formavam uma combinação que poderia ser identificada em poucos segundos.

O final dos anos 1970, entretanto, começou a trazer mudanças para o Rock. Punk, New Wave e novas tendências alteraram o mercado, enquanto o público que havia transformado tantas bandas de Rock dos anos 1970 em gigantes começou a se fragmentar. O Foghat continuou gravando e excursionando, mas já não ocupava a mesma posição dominante.

Rod Price deixou a banda no início dos anos 1980 e foi substituído por Erik Cartwright. Lonesome Dave também passou a dividir sua vida entre Estados Unidos e Inglaterra. O Foghat continuou existindo, mas a formação que havia produzido seus maiores sucessos estava se desfazendo.

Mesmo assim, Roger Earl permaneceu.

E isso acabaria sendo fundamental.

Depois de diferentes fases, mudanças de integrantes e períodos de menor atividade, o Foghat voltou a encontrar seu espaço no circuito de Blues e Rock. A música da banda havia envelhecido bem porque não dependia de uma tendência específica. Blues, Boogie, guitarra slide e Rock and Roll continuavam funcionando.

Em 2000, veio uma das maiores perdas da história do grupo. Lonesome Dave Peverett morreu em 7 de fevereiro, vítima de câncer. Ele tinha apenas 56 anos. A morte do fundador e principal compositor poderia ter encerrado definitivamente a história do Foghat. Mas Roger Earl decidiu continuar. O próprio Earl recordaria que Peverett lhe pediu para seguir em frente e manter a música viva.

Cinco anos depois, outra perda atingiu profundamente a história da banda. Rod Price morreu em 2005, deixando para trás uma das assinaturas de guitarra slide mais reconhecíveis do Blues Rock britânico. Sua maneira de tocar havia sido fundamental para definir o som do Foghat desde o primeiro álbum.

Com a morte de Peverett e Price, dois dos quatro integrantes da formação clássica haviam desaparecido. Roger Earl passou a ser o último integrante original e a principal ligação viva com a criação da banda.

E é justamente aqui que a história do Foghat ganha outra dimensão.

A banda que começou em 1971 como uma dissidência do Savoy Brown conseguiu sobreviver por mais de cinco décadas. A formação mudou inúmeras vezes, o mercado mudou, os estilos mudaram, os discos físicos deixaram de ocupar o centro da indústria e muitos dos músicos que ajudaram a construir aquela história partiram.

Mas o Foghat continuou tocando.

Em 2023, a banda lançou Sonic Mojo, seu primeiro álbum de estúdio em sete anos. O disco mostrou que a essência continuava intacta: Blues, Boogie, Rock and Roll e guitarras trabalhando dentro daquela linguagem que o Foghat havia desenvolvido desde os anos 1970. O álbum chegou ao primeiro lugar da Billboard Blues Chart e permaneceu durante 34 semanas entre os dez primeiros da parada.

Em 2026, o Foghat continua na estrada, mais de cinco décadas depois de Roger Earl e Lonesome Dave Peverett deixarem o Savoy Brown para construir uma nova banda. Earl continua na bateria, mantendo viva uma história que começou no Blues britânico dos anos 1960 e atravessou gerações.

É impossível falar de Foghat sem falar de Slow Ride. É impossível falar de Slow Ride sem falar de Fool for the City. E é impossível falar de Foghat sem lembrar que, antes de tudo isso, havia um grupo de músicos britânicos apaixonados pelo Blues.

Mas reduzir o Foghat a uma única música seria injusto.

A importância da banda está justamente na ponte que construiu.

O Blues nasceu nos Estados Unidos. Foi redescoberto e transformado por músicos britânicos. O Savoy Brown ajudou a levar essa tradição para uma nova geração. Peverett, Earl e Stevens levaram aquela experiência para o Foghat. Rod Price acrescentou sua guitarra slide. A banda atravessou o Atlântico novamente e encontrou nos Estados Unidos um público gigantesco.

E ali, em solo americano, o Foghat transformou Blues Rock britânico em Boogie Rock de estrada.

É nesse ponto que a banda conversa diretamente com o universo do Southern Rock.

Não porque seja uma banda de Southern Rock. Não é.

Mas porque existe uma afinidade profunda entre o Foghat e aquele universo de guitarras, Blues, estrada, amplificadores e música feita para ser tocada em volume alto. O mesmo público que encontrou no Southern Rock a mistura de Blues, Country, Rock and Roll e liberdade também encontrou no Foghat uma música que carregava parte dessa mesma energia.

Por isso, dentro da história que estamos construindo, o Foghat não precisa de uma desculpa para estar aqui.

Ele é uma peça da mesma grande conversa.

E existe uma bela ironia nisso tudo: uma banda nascida da saída de três músicos do Savoy Brown acabou se tornando uma das formações mais importantes do Boogie Rock americano. O Savoy Brown foi um dos caminhos que levaram aqueles músicos até o Foghat.

E o Foghat, por sua vez, mostrou que o Blues podia atravessar novamente o Atlântico, ganhar sotaque americano, ficar mais pesado, mais simples, mais direto e continuar encontrando novas gerações.

Mais de cinquenta anos depois, Roger Earl ainda está atrás da bateria.

A guitarra slide continua falando.

O Boogie continua rolando.

E aquela velha estrada ainda está aberta.

Slow ride, take it easy.

Formação clássica

Lonesome Dave Peverett - Guitarra, vocais
Rod Price - Guitarra, slide guitar
Tony Stevens - Baixo
Roger Earl - Bateria

Principais álbuns de estúdio

1972 Foghat
1973 Rock and Roll
1974 Energized
1974 Rock and Roll Outlaws
1975 Fool for the City
1976 Night Shift
1978 Stone Blue
1979 Boogie Motel
1980 Tight Shoes
1981 Girls to Chat & Boys to Bounce
1982 In the Mood for Something Rude
1983 Zig Zag Walk
1985 In the Mood for Something Rude
1994 Return of the Boogie Men
2000 King Biscuit Flower Hour Presents Foghat
2003 Family Joules
2007 Last Train Home
2010 Last Train Home
2016 Under the Influence
2023 Sonic Mojo