Londres,
1972. Enquanto o Rock britânico se dividia entre o Blues, o Hard Rock, o
Progressive Rock e as primeiras experiências que desembocariam no Heavy Metal,
o guitarrista e vocalista Ken Gordon e o baixista Jim Holmes
decidiram formar uma banda própria. Os dois já haviam tocado juntos no Speed
Auction, ainda nos tempos de escola, e carregavam uma formação musical
profundamente ligada ao Blues Rock britânico. Entre suas referências estavam John
Mayall & the Bluesbreakers, Fleetwood Mac de Peter Green, The
Yardbirds, Savoy Brown, Jimi Hendrix, Cream e,
principalmente, Rory Gallagher.
Depois
de algumas tentativas com bateristas, Gordon e Holmes encontraram o
sul-africano Tony Awin, que completou o trio. Nascia o Incredible Hog,
nome inspirado na cultura dos quadrinhos e concebido como uma brincadeira com The
Incredible Hulk. A formação reduzida acabou se transformando em uma das maiores
forças do grupo: guitarra, baixo e bateria, sem espaço para qualquer elemento
desnecessário.
Conseguir
shows em Londres, entretanto, não era simples. O circuito estava cheio de
bandas e a concorrência era enorme. Em vez de esperar por uma oportunidade, os
três criaram a própria. Montaram o The Pig Sty, um clube que funcionou
inicialmente em Ilford e depois em Forest Gate, onde o Incredible Hog podia
tocar regularmente e construir seu público. A banda passou a divulgar seus
shows em anúncios no Melody Maker e começou a ganhar reputação justamente por
sua apresentação ao vivo, pesada e extremamente barulhenta.
Foi
também a persistência de Ken Gordon que colocou o trio dentro de um estúdio.
Sem conseguir despertar o interesse das gravadoras, Gordon simplesmente
apareceu nos escritórios da Dart Records carregando uma fita demo e se
recusou a ir embora enquanto alguém não ouvisse a banda. A espera durou horas,
houve ameaça de chamar a polícia, mas a estratégia funcionou. A demo finalmente
foi ouvida e, cerca de duas semanas depois, o Incredible Hog tinha contrato com
a gravadora.
O
resultado foi Volume 1, lançado em 1973. Produzido por Roger Watson,
o álbum registrou o trio em sua forma mais crua, com as dez músicas compostas
por Gordon. A imprensa especializada recebeu o disco com bastante entusiasmo.
Uma crítica do Record Mirror, publicada em abril de 1973, destacou justamente a
força do som do grupo, com a bateria de Awin impulsionando a guitarra de Gordon
e o baixo de Holmes dando peso ao conjunto.
Volume
1 transitava pelo Blues Rock pesado, Hard Rock e psicodelia, com uma sonoridade
que ainda carregava a herança dos power trios do final dos anos 1960. Lame, Wreck
My Soul, Execution, Another Time, Warning, Walk the Road e To the Sea mostram
diferentes lados daquele trio, mas todos carregam a mesma característica
fundamental: uma guitarra enorme, uma cozinha pesada e nenhum interesse em
soar comportado.
O
álbum, porém, não encontrou o público que a crítica imaginava. A Dart Records
não conseguiu promover o trabalho adequadamente e o Incredible Hog acabou
ficando perdido em um mercado dominado por nomes cada vez maiores do Hard Rock,
do Progressive Rock e do Glam. A banda ainda excursionou pelo Reino Unido e
chegou a iniciar as gravações de um segundo trabalho, mas a combinação de baixo
retorno comercial e pouco apoio da gravadora levou ao fim do grupo ainda em 1973.
E
foi justamente aí que começou a segunda vida do Incredible Hog.
Volume
1 não desapareceu completamente. O disco ganhou status de cult entre
colecionadores de Rock setentista, especialmente pela sonoridade crua e
pela pequena tiragem original. Décadas depois, novas edições fizeram o álbum
chegar a uma geração que sequer havia conhecido a banda em sua época. A
Repertoire Records lançou o trabalho em CD em 1994, e posteriormente outras
gravadoras voltaram a resgatar o material.
A
trajetória dos três integrantes também seguiu caminhos diferentes. Ken
Gordon passou a trabalhar como músico de estúdio e participou de gravações
de artistas como The Rubettes, The Tremeloes e Heavy Metal
Kids, além de desenvolver posteriormente uma carreira como ator. Tony
Awin trabalhou com The Crazy World of Arthur Brown e James Last,
enquanto Jim Holmes entrou no campo da produção e criou o Scarf Studios.
O Incredible Hog existiu por pouco mais de um ano e deixou apenas um álbum. Mas existe uma razão para Volume 1 continuar despertando interesse entre colecionadores e pesquisadores: o disco captura um momento específico em que o Blues Rock britânico estava ficando mais pesado, mais agressivo e mais experimental.
Mas o Blues que alimentava o Incredible Hog também ajudaria a alimentar outras ramificações do Rock. A guitarra de Gordon, a influência de Rory Gallagher, Savoy Brown, Fleetwood Mac e Cream e aquela maneira de transformar um power trio em uma parede de som pertencem à mesma grande árvore que estamos percorrendo quando investigamos as raízes do Rock sulista.
Não como um disco de Southern Rock, mas como um
documento de uma época em que o Blues atravessava fronteiras, encontrava novas
guitarras e começava a ficar cada vez mais pesado.
E
talvez seja justamente essa a melhor maneira de entender o Incredible Hog: uma
pequena banda de Londres, formada em 1972, que precisou criar seu próprio
palco, invadir uma gravadora para ser ouvida, lançou um único álbum e
desapareceu antes que o mundo percebesse completamente o que tinha nas mãos.
Quase
cinquenta anos depois, Volume 1 continua falando alto.
Formação
Ken
Gordon - Guitarra, vocais, harmônica
Jim Holmes - Baixo
Tony Awin - Bateria
Discografia
1973
Volume 1










