Muito antes das barbas, dos óculos
escuros, do Ford vermelho, da MTV e de uma iconografia reconhecida em qualquer
parte do mundo, o ZZ TOP nasceu de uma ideia elementar: tocar Blues com a força
de um trio de Rock. O cenário era o Texas, território em que tradições musicais
negras, Country, Western Swing, Rhythm & Blues, música mexicana e
Rock'n'Roll conviviam havia décadas. Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard
transformaram essa herança em uma linguagem própria, seca, pesada, maliciosa e
imediatamente reconhecível. Durante mais de meio século, aqueles três homens
sustentaram uma das formações mais estáveis da história do Rock.
Billy Gibbons já carregava uma trajetória
importante antes do nascimento da banda. Em Houston, liderou os Moving
Sidewalks, grupo ligado à psicodelia texana que lançou o álbum Flash em
1969 e chegou a abrir apresentações para Jimi Hendrix. A experiência colocou
Gibbons em contato com o Rock psicodélico que dominava parte da segunda metade
dos anos 1960, mas sua formação musical apontava também para raízes anteriores.
Bluesmen como B.B. King, Muddy Waters, Jimmy Reed, Lightnin' Hopkins e Freddie
King pertenciam a um universo que Billy conhecia profundamente.
Quando os Moving Sidewalks chegaram ao
fim, Gibbons começou a construir outro projeto. A primeira encarnação do ZZ TOP
surgiu em Houston em 1969 e ainda não trazia a formação que entraria para a
história. Billy Ethridge passou brevemente pelo baixo, enquanto Lanier Greig
esteve ligado aos primeiros passos do grupo. A mudança decisiva aconteceu
quando Frank Beard entrou na bateria.
Frank já conhecia bem Dusty Hill. Os dois
haviam tocado juntos anteriormente em grupos texanos, entre eles American
Blues. Dusty, nascido Joe Michael Hill em Dallas, havia começado muito jovem na
música e tocara ao lado do irmão Rocky Hill. Frank, também texano, desenvolveu
uma maneira de tocar baseada menos na exibição técnica do que no groove, no
tempo e no encaixe. Quando o ZZ TOP precisou de um baixista, Beard ajudou a
aproximar Dusty de Billy.
A formação que definiria a banda estava
completa no início de 1970: Billy Gibbons na guitarra e nos vocais, Dusty Hill
no baixo e nos vocais e Frank Beard na bateria. O primeiro show do trio
aconteceu em 10 de fevereiro daquele ano, em Beaumont, Texas. A partir dali,
uma relação musical extraordinariamente duradoura começava a ser construída.
O empresário Bill Ham teve papel
fundamental nessa primeira fase. Ele percebeu que o trio possuía uma identidade
que não deveria ser diluída e ajudou a conduzir o ZZ TOP até um contrato com a
London Records. A banda não precisava esconder sua origem texana nem tentar
reproduzir grupos britânicos que, naquele mesmo período, estavam redescobrindo
o Blues americano. Billy, Dusty e Frank estavam muito mais próximos da fonte.
ZZ Top's First Album, lançado em 1971,
apresentou essa proposta sem rodeios. Blues, boogie e Hard Rock se encontravam
em uma gravação direta, conduzida pela guitarra de Billy e por uma seção
rítmica que já demonstrava uma característica essencial da banda: espaço. O ZZ
TOP nunca precisou preencher cada segundo de música. Dusty e Frank sabiam
deixar a guitarra respirar, enquanto Billy compreendia o valor de uma nota
colocada no lugar certo.
Rio Grande Mud, de 1972, ampliou
essa linguagem e mostrou um trio mais seguro. A estrada fazia sua parte. O ZZ
TOP crescia como banda de palco, especialmente no Sul e no Sudoeste dos Estados
Unidos, e a ligação com o Texas se tornava cada vez mais presente na identidade
do grupo. Não era apenas procedência geográfica. O estado aparecia no humor,
nas histórias, nos personagens, no sotaque musical e na mistura cultural que
cercava aqueles músicos.
A explosão veio em 1973 com Tres
Hombres. O terceiro álbum colocou o ZZ TOP diante de um público nacional e
consolidou uma sonoridade que já não precisava de apresentação. La Grange,
construída sobre um boogie profundamente ligado à tradição de John Lee Hooker,
transformou-se em uma das músicas definitivas da banda. O álbum também mostrou
que a força do trio não estava restrita a uma fórmula. Blues, Rock pesado,
boogie e Soul circulavam pelo disco sem romper sua unidade.
O sucesso de Tres Hombres mudou a
escala da carreira. O ZZ TOP passou de atração regional em crescimento para uma
das grandes bandas americanas da década. Fandango!, lançado em 1975,
capturou essa passagem ao combinar gravações ao vivo e de estúdio. Tush,
cantada por Dusty Hill, tornou-se outro clássico e mostrou a importância do
baixista também como voz da banda. A química do trio estava no centro de tudo:
Billy podia carregar a guitarra para onde quisesse porque Dusty e Frank
mantinham o chão firme.
Tejas, de 1976, chegou quando o ZZ TOP já
havia construído uma identidade visual e musical fortemente associada ao estado
de origem. O passo seguinte levou essa ligação ao limite. A Worldwide Texas
Tour transformou a ideia de levar o Texas para a estrada em uma produção
gigantesca. O palco tinha o formato do estado, toneladas de equipamentos
viajavam pelo país e a cenografia incluía cactos e animais como búfalo,
longhorn, cascavéis e urubus. Era exagerado, caro, logisticamente absurdo e
absolutamente coerente com uma banda que começava a compreender o poder de sua
própria mitologia.
A turnê também cobrou um preço. Depois de
anos vivendo entre estúdios, hotéis, palcos e estradas, os três precisavam
parar. O ZZ TOP entrou em um período de descanso que se estendeu mais do que o
inicialmente previsto. Quando voltaram a se encontrar, outra transformação
havia acontecido sem planejamento promocional: Billy e Dusty haviam deixado
crescer enormes barbas. Frank Beard, ironicamente o único integrante cujo
sobrenome significa “barba”, continuou usando apenas seu bigode.
O retorno fonográfico veio com Degüello,
em 1979. O disco recolocou o ZZ TOP em circulação com uma combinação poderosa
de Blues, boogie, humor e guitarras, trazendo músicas como Cheap Sunglasses,
I'm Bad, I'm Nationwide e Fool for Your Stockings, além da
releitura de Dust My Broom. O trio voltava sem negar sua história e sem
soar preso ao início da década.
El Loco, de 1981, começou a apontar para novas
possibilidades. A tecnologia entrava gradualmente no ambiente da banda, e
sintetizadores e tratamentos de estúdio começavam a dividir espaço com
guitarras, baixo e bateria. O ZZ TOP estava se preparando, conscientemente ou
não, para a transformação que definiria sua década seguinte.
Em 1983, Eliminator mudou tudo.
O ZZ TOP já era uma banda consagrada
quando o álbum chegou. Sua importância não começou com a MTV e sua história não
nasceu com Gimme All Your Lovin'. O que Eliminator fez foi
transportar uma identidade construída ao longo de mais de uma década para uma
nova linguagem tecnológica e visual. Guitarras pesadas passaram a conviver com
sequenciadores, sintetizadores e uma precisão rítmica diferente daquela dos primeiros
discos.
As músicas encontraram na MTV um veículo
perfeito. Gimme All Your Lovin', Sharp Dressed Man e Legs
ganharam videoclipes que compartilhavam personagens, humor, mulheres,
transformação, as barbas de Billy e Dusty e um Ford Coupe 1933 vermelho que se
tornaria conhecido como Eliminator. A banda que já possuía uma personalidade
musical fortíssima ganhou uma iconografia igualmente poderosa.
A mudança poderia ter afastado o público
antigo. Em vez disso, levou o ZZ TOP a uma dimensão mundial. Billy Gibbons,
Dusty Hill e Frank Beard passaram a ser reconhecidos até por pessoas que jamais
haviam acompanhado a fase inicial. As barbas, os movimentos sincronizados de
Billy e Dusty, os instrumentos extravagantes e o carro vermelho passaram a
fazer parte da cultura popular dos anos 1980.
Afterburner, lançado em 1985,
levou a experiência tecnológica ainda mais longe. Sintetizadores, programação e
produção extremamente característica daquele período ocuparam espaço maior,
enquanto a guitarra de Billy continuava funcionando como elemento de ligação
com a identidade do trio. O álbum ampliou o alcance internacional da banda e
produziu sucessos como Sleeping Bag, Stages, Rough Boy e Velcro
Fly. Era o ZZ TOP em seu momento mais distante da crueza dos primeiros
discos, mas ainda sustentado por três músicos que sabiam exatamente quem eram.
Recycler, de 1990, começou
a reposicionar o equilíbrio entre tecnologia e instrumentos, abrindo caminho
para uma década em que o trio buscaria recuperar com maior clareza o peso do
Blues e do boogie. Depois de duas décadas ligado à Warner, o ZZ TOP assinou com
a RCA e lançou Antenna em 1994. A mudança de gravadora coincidiu com uma
volta mais pronunciada às raízes, sem apagar a experiência acumulada durante os
anos de enorme exposição comercial.
Rhythmeen, de 1996,
aprofundou esse movimento. A produção valorizava texturas mais ásperas,
afinações graves, percussão e uma atmosfera menos polida. O ZZ TOP não
precisava competir com as bandas que haviam surgido durante os anos 1990. Sua
posição já era outra. O trio podia olhar novamente para o Blues e reconstruí-lo
com o peso adquirido ao longo da própria história.
Em 1999, XXX marcou os trinta anos
do grupo. A longevidade começava a se tornar parte central da narrativa do ZZ
TOP. Em uma indústria conhecida por separações, substituições e conflitos,
Billy, Dusty e Frank continuavam juntos. As mudanças haviam acontecido ao redor
deles. Gravadoras, produtores, formatos, tecnologias e tendências vieram e
foram embora, enquanto o trio permanecia reconhecível.
Mescalero, de 2003, encerrou
a fase de estúdio pela RCA e voltou a explorar uma mistura ampla de Blues,
Rock, ritmos texanos e referências da região de fronteira. A proximidade
cultural entre Texas e México sempre fez parte do ambiente que cercava a banda.
O próprio nome Mescalero reforçava uma paisagem musical e cultural muito
mais complexa do que a caricatura de três homens barbudos tocando boogie.
Naquele mesmo período, o reconhecimento
institucional chegou de maneira definitiva. Em 2004, o ZZ TOP entrou para o
Rock & Roll Hall of Fame, apresentado por Keith Richards dos Rolling Stones. A homenagem
consagrava uma banda que havia atravessado o Blues Rock do início dos anos
1970, a explosão do Hard Rock, a era da MTV e as transformações dos anos 1990
mantendo uma formação que não sofrera nenhuma mudança desde 1970.
Depois de Mescalero, o intervalo
até um novo álbum de estúdio foi longo. O reencontro com o produtor Rick Rubin
resultou em La Futura, lançado em 2012. O disco devolveu maior crueza ao
som, aproximando a banda da economia de elementos que havia marcado seus
melhores momentos. Mais de quarenta anos depois do primeiro álbum, o ZZ TOP
ainda conseguia soar como um trio interessado no presente, e não como uma
reprodução de sua própria história.
Essa longevidade não pode ser explicada
apenas por Billy Gibbons. Sua guitarra, seu timbre, sua voz e sua figura
pública são elementos fundamentais, mas o ZZ TOP clássico dependia do
equilíbrio entre três músicos. Dusty Hill possuía uma maneira econômica e
extremamente eficiente de tocar baixo. Não disputava espaço com Billy. Criava o
espaço necessário para que a guitarra funcionasse. Quando assumia os vocais,
sua voz acrescentava outra personalidade ao repertório, como ficou eternizado
em Tush.
Frank Beard era a engrenagem que mantinha
tudo unido. Sua bateria raramente buscava chamar atenção para si mesma. O valor
estava no pocket, no shuffle, no backbeat e na precisão com que sustentava
mudanças de dinâmica. O boogie do ZZ TOP dependia desse balanço. Billy podia
atrasar uma frase, antecipar outra ou deixar silêncio entre os acordes porque
Frank mantinha o pulso no lugar.
A estabilidade entre os três atravessou
51 anos. Não houve troca de guitarrista. Não houve outro baixista oficial
durante a trajetória clássica. Não houve outro baterista. O trio que se
consolidou em 1970 continuou entrando em estúdio e subindo aos palcos até 2021.
Foi então que a história sofreu sua maior
ruptura.
Em julho de 2021, Dusty Hill precisou
deixar temporariamente uma turnê por problemas de saúde. Elwood Francis,
técnico de guitarra da banda havia décadas, assumiu o baixo. A substituição era
apresentada inicialmente como provisória. Em 28 de julho, Dusty Hill morreu em
Houston, aos 72 anos.
A morte de Dusty encerrava uma formação
que havia atravessado mais de meio século. Billy Gibbons revelou que o
companheiro havia manifestado o desejo de que Elwood Francis ocupasse seu lugar
caso ele não pudesse continuar. O ZZ TOP decidiu respeitar essa vontade.
A decisão tinha um peso. Pela
primeira vez desde 1970, Billy e Frank subiam ao palco sem Dusty. Elwood não
recebeu a tarefa de transformar-se em uma cópia. Assumiu o baixo e passou a
ocupar aquele espaço respeitando a música construída pelo trio original. Com o
tempo, sua própria barba cresceu e a imagem do grupo preservou
involuntariamente parte daquela silhueta histórica.
Em 2022, Raw trouxe gravações
realizadas por Billy, Dusty e Frank durante a produção do documentário That
Little Ol' Band from Texas. Registrado em um ambiente íntimo e sem a arquitetura
de uma produção convencional de estúdio, o álbum funcionou como um retorno às
raízes e acabou adquirindo outro significado depois da morte de Dusty. Era
possível ouvir novamente os três tocando juntos com a simplicidade que estivera
no centro da banda desde o começo.
O ZZ TOP continuou na estrada. Billy
Gibbons, Frank Beard e Elwood Francis levaram o repertório para diferentes
partes do mundo e mantiveram uma agenda intensa. A ausência de Dusty era
impossível de apagar, mas o grupo não tentou apagá-la. Sua história continuava
sendo reconhecida a cada execução de La Grange, Tush, Cheap
Sunglasses, Gimme All Your Lovin' ou Sharp Dressed Man.
Em 2026, outra perda mudou
definitivamente essa história.
Frank Beard morreu em 17 de agosto de
2026, aos 77 anos, enquanto recebia cuidados paliativos em seu rancho em
Richmond, Texas, cercado por familiares. Durante 56 anos, ele havia ocupado a
bateria do ZZ TOP. Billy Gibbons destacou o backbeat de Frank como peça
fundamental da identidade da banda e informou que o grupo continuaria,
atendendo ao desejo do próprio baterista.
Com a morte de Frank, Billy Gibbons
tornou-se o único integrante sobrevivente da formação clássica. O trio que
atravessara cinco décadas agora pertencia à história. Dusty e Frank já não estavam
fisicamente ao seu lado, mas a decisão de seguir mantinha uma característica
presente desde o nascimento do ZZ TOP: movimento.
Reduzir essa trajetória às barbas e aos
videoclipes seria ignorar sua verdadeira dimensão. A imagem ajudou a
transformar o grupo em fenômeno mundial, mas antes dela vieram os clubes, os
amplificadores, os discos de Blues, as estradas texanas, os primeiros shows e
uma seção rítmica que aprendeu a tocar deixando espaço para a guitarra. Antes
do Eliminator havia Tres Hombres. Antes da MTV havia La Grange.
Antes dos sintetizadores havia três músicos tocando Blues e boogie com uma
economia que se tornaria assinatura.
Também seria restritivo definir o ZZ TOP
apenas como Blues Rock. A banda pertence profundamente ao Texas. O Blues está
na base, mas Country, boogie, Hard Rock, Soul, Rhythm & Blues, psicodelia e
a cultura da fronteira aparecem em diferentes momentos. Essa mistura ajudou a
aproximar o trio do universo do Southern Rock sem que sua identidade dependesse
desse rótulo. O ZZ TOP criou seu próprio território.
Billy Gibbons transformou a guitarra em
voz. Dusty Hill fez do baixo uma lição de economia e groove. Frank Beard
demonstrou que um baterista não precisa disputar atenção para determinar o
movimento de uma banda. Bill Ham ajudou a proteger e ampliar aquela identidade
durante décadas. Juntos, eles construíram uma carreira que passou por clubes,
arenas, estádios, MTV, mudanças de gravadora, transformações tecnológicas e
gerações inteiras de público.
A imagem mudou. O tamanho dos palcos
mudou. A produção mudou. A indústria mudou.
O princípio permaneceu.
Guitarra, baixo, bateria, Blues, boogie e
Texas.
Durante mais de meio século, isso teve um
nome.
ZZ TOP.
Formação clássica
Billy F. Gibbons: guitarra e vocais
Dusty Hill: baixo, teclados e vocais
Frank Beard: bateria e percussão
Formação após 2021
Billy F. Gibbons: guitarra e vocais
Elwood Francis: baixo e vocais
Frank Beard: bateria e percussão, até 2026
Discografia de estúdio
1971 ZZ Top's First Album
1972 Rio Grande Mud
1973 Tres Hombres
1975 Fandango!
1976 Tejas
1979 Degüello
1981 El Loco
1983 Eliminator
1985 Afterburner
1990 Recycler
1994 Antenna
1996 Rhythmeen
1999 XXX
2003 Mescalero
2012 La Futura
Outros lançamentos de destaque
2022 Raw










