Rio
Grande Mud (1972)
Antes de o ZZ TOP se tornar uma das bandas mais
reconhecíveis do rock americano, existiu um disco que definiu tudo o que viria
depois sem anunciar nada disso. Rio Grande Mud não é o álbum que
projetou Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard ao sucesso. É o álbum em que
eles deixaram de ser apenas três músicos do Texas para se tornarem uma única
voz.
O álbum de estreia, lançado em 1971, já revelava
músicos profundamente ligados ao blues do Texas. Mas ainda havia algo em
construção, uma espécie de diálogo entre referências que não tinham ainda
encontrado um centro de gravidade. Em Rio Grande Mud, esse centro
finalmente aparece. As influências continuam ali, mas agora organizadas em
torno de uma linguagem própria, mais direta, mais confiante e muito mais coesa.
Gravado no Robin Hood Studios, em Tyler, entre o
fim de 1971 e o início de 1972, o disco também marca a consolidação da relação
com o produtor Bill Ham. Mais do que empresário, Ham entendeu cedo que a força
do ZZ TOP não estava em lapidar excessos, mas em preservar exatamente o que
acontecia quando o trio tocava junto. O estúdio não deveria domesticar aquela
energia, apenas registrá-la com fidelidade.
Anos depois, Billy Gibbons resumiria esse período
como o momento em que a banda passou a escrever sobre a própria vida na
estrada. Essa mudança de perspectiva explica muito do que se ouve aqui. O ZZ
TOP ainda bebe profundamente no blues, mas já não se comporta como um grupo
reinterpretando tradição, ele começa a transformar experiência em repertório.
Há uma naturalidade quase física na forma como
Billy Gibbons conduz a guitarra ao longo do disco. Os riffs não parecem
construídos para impressionar, mas para sustentar as músicas. O mesmo vale para
a base formada por Dusty Hill e Frank Beard, que toca com uma precisão
discreta, sem excesso, mas com um senso de groove que já aponta para a
assinatura que o trio carregaria por toda a carreira.
"Francine" se tornou o primeiro grande
cartão de visita do ZZ TOP nas rádios americanas e ainda hoje funciona como uma
síntese daquele momento de virada. Curiosamente, os créditos vocais da faixa
carregam uma divergência que atravessa diferentes edições do álbum. Parte da
documentação original atribui o vocal principal a Dusty Hill, enquanto outras
fontes posteriores colocam Billy Gibbons nessa função. Mais do que resolver a
questão, o interessante é perceber como essa música já nasce importante o
suficiente para gerar esse tipo de discussão.
Se "Francine" abre uma porta,
"Just Got Paid" escancara outra. O riff seco, o andamento quase
hipnótico e a maneira como a banda sustenta o groove fazem dela uma das peças
mais duradouras da fase inicial do ZZ TOP. Não é apenas uma boa música do
disco, é uma das estruturas fundamentais sobre as quais a identidade futura da
banda seria construída.
Mas talvez o maior valor de Rio Grande Mud
esteja justamente no que ele não tenta fazer. Não há aqui qualquer esforço de
afirmação explícita. O disco não anuncia um novo ZZ TOP. Ele simplesmente
acontece. E essa ausência de pose é o que faz tudo soar tão verdadeiro.
Em 1987, quando Bill Ham remixou os primeiros
álbuns para o box Six Pack, o som original de Rio Grande Mud foi
profundamente alterado por novas equalizações e reverberações. Durante anos,
essa foi a versão mais acessível ao público em CD, o que acabou moldando a
percepção de toda uma geração sobre como o álbum soava. Apenas décadas depois
os mixes originais de 1972 voltariam a circular oficialmente, revelando uma
gravação mais seca, mais direta e muito mais próxima da intenção original da
banda.
No contexto do Southern Rock e da música
americana do início dos anos 70, Rio Grande Mud ocupa um lugar curioso.
Ele não é um disco de ruptura declarada, nem um trabalho que busca redefinir
seu gênero. Mas é justamente essa discrição que o torna essencial. O que
acontece aqui é a formação de uma linguagem própria dentro de um território já conhecido,
algo que o ZZ TOP refinaria nos anos seguintes até atingir projeção mundial.
Quando Tres Hombres chegou, em 1973,
parecia que o trio havia simplesmente surgido pronto. Mas Rio Grande Mud
mostra que havia um processo em andamento, silencioso, consistente e decisivo.
É nesse álbum que Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard deixam de ser apenas
três músicos talentosos do Texas e passam a operar como uma unidade artística
com identidade própria.
Mais de cinquenta anos depois, Rio Grande Mud
ainda não pede revisão de status. Ele simplesmente ocupa o lugar que sempre
teve direito de ocupar. Não como preparação para um clássico seguinte, mas como
o momento exato em que o ZZ TOP deixou de estar em formação e passou a existir
como banda definitiva.
É isso que faz dele um disco essencial, não o que
ele anuncia, mas o que ele já é desde o primeiro acorde.
Resenha
escrita por Renato Martins São Pedro
Tracklist
Francine
Just Got Paid
Mushmouth Shoutin'
Ko Ko Blue
Chevrolet
Apologies to Pearly
Bar-B-Q
Sure Got Cold After the Rain Fell
Whiskey'n Mama
Down Brownie
Formação
Billy Gibbons: guitarra e vocais
Dusty Hill: baixo, teclados e vocais
Frank Beard: bateria
Participação
especial
Pete Tickle: violão em "Mushmouth
Shoutin'"
Produção
Produzido por Bill Ham.











