Quando o Southern Rock começou a ganhar
forma definitiva no Sul dos Estados Unidos durante os anos 1970, Jacksonville,
na Flórida, já havia se transformado em um dos principais berços daquele novo
som. A cidade havia produzido Lynyrd Skynyrd, .38 Special e uma
geração inteira de músicos que misturava Blues, Country, Gospel e Rock and Roll
com a energia da invasão britânica. Foi nesse ambiente que nasceu Molly
Hatchet, uma banda que pegaria aquela linguagem e acrescentaria uma dose
muito maior de peso, agressividade e Hard Rock.
A história começa com Dave Hlubek,
guitarrista de Jacksonville que formou a banda em 1971. Hlubek já vinha
trabalhando havia alguns anos para encontrar uma formação que pudesse
transformar suas ideias em uma banda profissional. Ao lado de Steve Holland,
outro guitarrista fundamental dos primeiros anos, começou a construir aquilo
que viria a se transformar no Molly Hatchet. A formação ainda passaria por
diversas mudanças antes de encontrar sua identidade definitiva, mas desde o
princípio havia uma característica que permaneceria: a guitarra ocuparia o
centro da música.
O nome Molly Hatchet também ajudou a
estabelecer a personalidade do grupo. A banda adotou o nome inspirado na lenda
de uma mulher conhecida como “Hatchet Molly”, associada a histórias de
assassinatos no século XVIII. A imagem era perfeita para um grupo que pretendia
fazer um Southern Rock mais pesado, agressivo e visualmente marcante. O nome
carregava violência, estrada, folclore e uma boa dose de exagero, exatamente
como o universo que a banda começava a construir.
Durante os primeiros anos, Hlubek e
Holland foram os principais responsáveis por manter o projeto vivo. A banda
passou por diferentes músicos e formações até chegar à configuração que
realmente definiu seu som. Danny Joe Brown entrou como vocalista em
1974, depois de já ter construído uma reputação no circuito de Jacksonville.
Brown não era apenas um cantor, sua voz rouca, extremamente grave e carregada
de personalidade seria um dos elementos que mais diferenciariam o Molly Hatchet
de seus contemporâneos.
A chegada de Brown foi decisiva. O
guitarrista Duane Roland completou o núcleo de guitarras, enquanto Banner
Thomas assumiu o baixo e Bruce Crump a bateria. Estava formada a
configuração que entraria para a história: Danny Joe Brown nos vocais, Hlubek,
Holland e Roland nas guitarras, Thomas no baixo e Crump na bateria. Três
guitarras não eram uma novidade absoluta no Southern Rock, mas o Molly Hatchet
levaria essa ideia para um território particularmente pesado.
A diferença estava justamente na maneira
como aquelas guitarras eram utilizadas. O Lynyrd Skynyrd havia mostrado ao
mundo como três guitarras poderiam criar harmonias, riffs e solos de enorme
riqueza. O Molly Hatchet absorveu essa linguagem, mas adicionou uma quantidade
muito maior de peso. As guitarras de Hlubek, Holland e Roland eram mais
ásperas, mais agressivas e frequentemente mais próximas do Hard Rock. O Blues
continuava presente, assim como o Country e o Boogie, mas o som tinha músculos
de sobra.
Essa combinação ajudou a definir uma
identidade que seria fundamental para a história do Southern Rock. Molly
Hatchet não era simplesmente uma banda tentando ser Lynyrd Skynyrd. A
influência da cena de Jacksonville estava naturalmente presente, mas o grupo
possuía uma personalidade própria. Se o Lynyrd Skynyrd trabalhava com a força
narrativa de Ronnie Van Zant e a arquitetura das três guitarras de Gary
Rossington, Allen Collins e Ed King, o Molly Hatchet acrescentava uma abordagem
mais pesada, mais próxima do Hard Rock, e tinha em Danny Joe Brown um vocalista
completamente diferente.
A banda passou anos trabalhando no circuito sulista antes de conseguir seu contrato com a Epic Records. Foi uma época de muita estrada, pequenos clubes e construção paciente de reputação. Aquele processo era fundamental para grupos de Southern Rock. Antes dos grandes palcos, havia centenas de noites em bares, clubes e casas de show. O Molly Hatchet aprendeu a ser uma banda de palco antes de ser uma banda de estúdio.
Foi justamente nesse período de
construção que surgiu uma das relações mais importantes da história inicial do Molly
Hatchet. A proximidade com o Lynyrd Skynyrd não se limitava à mesma
cidade ou às influências musicais. Em 1977, Ronnie Van Zant tomou
conhecimento do trabalho da banda e passou a acompanhar de perto aqueles jovens
músicos. Sob sua orientação, o Molly Hatchet chegou a utilizar o estúdio
do próprio Lynyrd Skynyrd para registrar algumas demos, enquanto Ronnie ajudava
a banda a trabalhar seu caminho dentro da cena de Jacksonville. Bruce Crump
lembraria anos mais tarde que Van Zant havia tomado o grupo “sob sua asa” e que
existia a intenção de que ele próprio produzisse algumas bandas, entre elas o
Molly Hatchet.
A relação entre os dois grupos era,
portanto, muito mais profunda do que uma simples associação entre duas bandas
de Jacksonville. Ronnie Van Zant enxergava potencial no Molly Hatchet e
acreditava naquela combinação de três guitarras, Blues, Boogie e Hard Rock.
A banda tinha Pat Armstrong como empresário, e foi justamente Armstrong
quem ajudou a aproximar o grupo de Van Zant. O caminho parecia se abrir para o
primeiro álbum, com Ronnie preparado para assumir a produção.
A tragédia, porém, interrompeu tudo. Em
20 de outubro de 1977, o avião que transportava o Lynyrd Skynyrd caiu
durante a turnê de Street Survivors, matando Ronnie Van Zant, Steve
Gaines, Cassie Gaines, o road manager Dean Kilpatrick e os
dois pilotos. O impacto foi devastador para toda a cena sulista. Para o Molly
Hatchet, a perda atingia também uma relação pessoal e profissional que
poderia ter mudado os primeiros passos da banda. O homem que havia acreditado
naquele grupo, cedido espaço no estúdio do Skynyrd e que estava previsto para
trabalhar na produção do primeiro álbum havia partido.
O Molly Hatchet, entretanto, precisou seguir em frente. Depois da morte de Van Zant, o grupo continuou trabalhando nas gravações e acabou encontrando em Tom Werman o produtor que levaria seu primeiro álbum ao estúdio. A banda assinou com a Epic Records no final de 1977 e, na primavera de 1978, entrou no Sound Pit, em Atlanta, para registrar seu disco de estreia.
Dizer que o disco de estreia foi uma
apresentação seria pouco. O álbum simplesmente colocou o Molly Hatchet no mapa.
A abertura com Bounty Hunter já
apresentava a personalidade de Danny Joe Brown e o peso das guitarras. Gator
Country mergulhava diretamente no universo sulista, enquanto Big Apple
e The Creeper mostravam que a banda também sabia trabalhar músicas mais
diretas. Dreams I'll Never See, releitura da composição de Gregg Allman,
aproximava o grupo ainda mais de suas raízes no Blues Rock, mas a interpretação
do Molly Hatchet era suficientemente pesada para transformar a música em algo
próprio.
O disco foi produzido por Tom Werman,
com Pat Armstrong também envolvido na produção, e recebeu uma capa que
se tornaria inseparável da identidade visual da banda. A imagem era Death
Dealer, de Frank Frazetta, pintura criada em 1973. A obra não havia
sido feita originalmente para o Molly Hatchet, mas sua utilização na capa do
álbum de estreia foi uma escolha perfeita. O guerreiro sombrio montado a
cavalo, carregando um machado, parecia ter sido criado para representar aquela
combinação de Southern Rock, Hard Rock, fantasia e brutalidade.
A relação com Frazetta se tornaria tão
importante que a imagem de Death Dealer praticamente passou a funcionar
como um segundo logotipo da banda. Mais tarde, outras obras do artista
apareceriam nas capas de álbuns do Molly Hatchet, criando uma identidade visual
que nenhum outro grande grupo de Southern Rock possuía. A música era sulista,
mas a estética parecia ter saído de uma história de fantasia medieval.
O primeiro álbum foi um sucesso enorme. A
banda passou a excursionar incessantemente e rapidamente construiu reputação
como uma das formações mais explosivas do circuito. O Molly Hatchet tocava
alto, pesado e sem economizar energia. A própria história oficial da banda
destaca que o grupo chegou a fazer cerca de 250 shows por ano durante seu
período de maior atividade, dividindo palcos com nomes como Aerosmith, Bob
Seger e The Rolling Stones.
Mas o melhor ainda estava por vir.
Em 1979, Flirtin' with Disaster
transformou o Molly Hatchet em uma potência nacional. O álbum chegou ao Top 20
da Billboard e acabou recebendo certificação de dupla platina nos Estados Unidos.
A faixa-título tornou-se um dos maiores hinos do Southern Rock e permanece até
hoje como a música mais imediatamente associada à banda.
O segredo não estava apenas no riff de Flirtin'
with Disaster. O disco apresentava uma banda que havia aperfeiçoado sua
fórmula. As guitarras eram pesadas sem perder o sotaque sulista, a bateria
tinha uma força quase de Hard Rock e Danny Joe Brown cantava como se estivesse
tentando atravessar a parede com a voz. Whiskey Man, Jukin' City,
Boogie No More e Gunsmoke ajudaram a consolidar aquele universo
de estradas, bares, personagens e noites que se tornaria parte da identidade do
grupo.
A banda havia encontrado seu lugar.
Se The Allman Brothers Band
representava uma vertente mais bluesística e improvisada do Southern Rock, e Lynyrd Skynyrd havia levado o gênero ao grande público através de suas guitarras,
melodias e narrativas, o Molly Hatchet aparecia como uma espécie de irmão mais
pesado. Era Southern Rock com músculos de Hard Rock.
E então veio a estrada.
O sucesso de Flirtin' with Disaster
significou ainda mais shows, ainda mais viagens e ainda mais pressão. A banda
passou a viver uma rotina brutal de turnês. Para um grupo que já havia se
acostumado a trabalhar intensamente, o sucesso simplesmente aumentou tudo. O
Molly Hatchet tocava cada vez mais e em lugares cada vez maiores.
Mas o desgaste começaria a aparecer.
Em 1980, Danny Joe Brown deixou a
banda. A saída ocorreu em um momento de enorme pressão e também estava
relacionada às dificuldades provocadas por sua diabetes. Brown estava
fisicamente exausto e o ritmo de trabalho havia se tornado pesado demais.
Para substituí-lo, o grupo recrutou Jimmy
Farrar.
A mudança não foi pequena. Farrar possuía
uma voz diferente e trouxe uma abordagem mais próxima do Hard Rock. Beatin'
the Odds, lançado ainda em 1980, manteve o Molly Hatchet comercialmente
relevante e alcançou o Top 30 americano. A banda continuava trabalhando muito,
mas seu som começava a se afastar gradualmente daquele Southern Rock mais
tradicional dos dois primeiros discos.
Em 1981 veio Take No Prisoners,
novamente com Farrar nos vocais. O álbum mostrava uma banda tentando encontrar
novos caminhos em um período em que o cenário musical americano começava a
mudar rapidamente. O Southern Rock já não ocupava a mesma posição dominante que
havia conquistado na segunda metade dos anos 1970, e muitas bandas do gênero
começaram a incorporar elementos mais próximos do Hard Rock e do AOR.
Farrar deixou o grupo e Danny Joe Brown
voltou.
A volta de Brown trouxe novamente aquela
voz que havia se tornado inseparável do Molly Hatchet. John Galvin, que
havia começado sua longa trajetória com a banda nesse período, assumiu os
teclados e acrescentou uma nova dimensão ao som. Galvin se tornaria uma das
figuras mais importantes da história posterior do grupo, permanecendo associado
ao Molly Hatchet por décadas.
No Guts... No Glory, de 1983, marcou o
retorno de Brown, mas o momento comercial já era diferente. A banda havia
perdido parte do espaço que conquistara poucos anos antes. O álbum seguinte, The
Deed Is Done, de 1984, mostrou uma tentativa ainda mais clara de adaptação
ao ambiente musical da época.
Não era simplesmente uma questão de
qualidade. O mercado havia mudado.
O Southern Rock que havia explodido nos
anos 1970 estava perdendo espaço para novas tendências, e o próprio público que
havia transformado Molly Hatchet em uma banda de arenas começava a buscar
outros sons. A banda ainda tinha força ao vivo, mas a indústria fonográfica já
não estava tão interessada naquele tipo de Rock.
Em 1985 veio Double Trouble Live,
registrando a força da banda no palco. Pouco depois, o Molly Hatchet entrou em
um período de pausa.
Foi justamente nesse intervalo que uma
das figuras mais importantes de sua história começaria a se aproximar novamente.
Bobby Ingram conhecia Danny Joe
Brown havia anos. Os dois haviam trabalhado juntos antes, quando Ingram era
ainda muito jovem e Brown lhe dera uma oportunidade no Rum Creek, em
1975. Ingram também participaria posteriormente da Danny Joe Brown Band. A
amizade entre os dois seria fundamental para o futuro do Molly Hatchet.
Em 1987, Ingram entrou oficialmente para
o Molly Hatchet como guitarrista. Sua chegada aconteceu justamente quando Dave
Hlubek, fundador e principal arquiteto das primeiras formações, deixou a
banda. Hlubek enfrentava problemas pessoais e relacionados ao uso de drogas e
sua saída representou uma mudança enorme.
Bobby Ingram não tentou simplesmente
copiar Hlubek, ele passou a construir sua própria relação com o repertório e,
com o tempo, se tornaria a figura central da continuidade do nome Molly
Hatchet.
Em 1989, a banda lançou Lightning
Strikes Twice, seu único álbum pela Capitol Records. O disco adotava uma
produção mais polida e próxima do AOR, mas o resultado comercial foi
decepcionante. O álbum não entrou nas paradas americanas e a banda passou a
tocar em casas menores, muito distante das grandes arenas de seus anos de
glória.
Em julho de 1990, o Molly Hatchet
anunciou em Toledo, Ohio, que aquele seria seu último show. Depois de quase
duas décadas de existência, a banda encerrava oficialmente aquela etapa.
Mas a história ainda estava longe de
terminar.
Durante a primeira metade dos anos 1990, Bobby
Ingram e Danny Joe Brown continuaram trabalhando juntos, escrevendo
e fazendo shows. Depois do encerramento anunciado em 1990, uma nova formação
liderada pelos dois retomou algumas apresentações e excursões, embora a banda
passasse por constantes mudanças de músicos e permanecesse sem lançar um novo
álbum de estúdio. Em 1992, Phil McCormack chegou a substituir Brown
brevemente durante uma excursão, mas Brown continuou à frente do grupo nos anos
seguintes.
Em 1995, enquanto o Molly Hatchet
começava a preparar seu retorno ao estúdio, os problemas de saúde de Danny
Joe Brown se agravaram novamente. A diabetes que o acompanhava havia
décadas já havia provocado sua primeira saída da banda em 1980 e agora tornava
cada vez mais difícil sua permanência nos vocais. Brown deixou definitivamente
o Molly Hatchet, encerrando sua participação na banda.
Phil McCormack, que já havia
substituído Brown brevemente em 1992, foi chamado novamente e, dessa vez,
assumiu os vocais em caráter permanente. Sua entrada marcou o início de uma
nova fase para o Molly Hatchet, e McCormack seria a voz da banda durante
boa parte de sua trajetória posterior.
Em 1996, o nome Molly Hatchet
voltou aos estúdios com Devil's Canyon. O álbum representou uma espécie
de reencontro com as raízes da banda e teve recepção particularmente forte na
Europa, onde o grupo havia desenvolvido uma base de fãs extremamente fiel. Phil
McCormack assumiu os vocais no álbum, consolidando sua posição como o novo
frontman do grupo.
Essa relação com a Europa se tornaria uma
das características mais importantes da segunda fase do Molly Hatchet.
Enquanto o mercado americano havia mudado radicalmente, Alemanha e outros
países europeus continuavam demonstrando enorme interesse pelo Southern Rock
clássico. A banda passou a trabalhar intensamente naquele circuito, construindo
uma nova geração de fãs.
Silent Reign of Heroes, lançado em 1998,
aprofundou esse retorno às raízes. O álbum foi gravado em Hamburgo e manteve o
espírito Southern Rock que havia definido a identidade do grupo. Em 2000 veio Kingdom
of XII, novamente reforçando a conexão entre a banda e seu público europeu.
Danny Joe Brown, entretanto,
enfrentava cada vez mais problemas de saúde. A diabetes que o acompanhava havia
décadas havia sido determinante para sua saída definitiva da banda em 1995 e
encerrado sua participação musical no Molly Hatchet. Sua morte, em 10 de
março de 2005, aos 53 anos, encerraria uma das trajetórias mais marcantes da
história do Southern Rock.
Em 2005, Dave Hlubek retornou ao Molly
Hatchet depois de quase duas décadas afastado. O retorno tinha um
significado especial. Hlubek não era apenas um ex-integrante, era o fundador, o
homem que havia iniciado a banda em Jacksonville e ajudado a construir o
conceito musical das três guitarras.
Naquele mesmo ano, o grupo lançou Warriors
of the Rainbow Bridge. Hlubek voltou a fazer parte da formação e permaneceu
associado à banda até sua morte.
O período, entretanto, foi marcado por
perdas devastadoras.
Danny Joe Brown morreu em 10 de março de
2005, aos 53
anos. Sua voz havia sido um dos elementos mais importantes da identidade do
Molly Hatchet e sua presença continuaria sendo sentida toda vez que a banda
tocasse Flirtin' with Disaster, Gator Country, Whiskey Man
ou Dreams I'll Never See.
Em 2006, Duane Roland morreu aos
53 anos. O guitarrista havia sido parte fundamental da formação clássica e
ajudara a transformar o conceito de três guitarras em uma das marcas
registradas do grupo.
Bruce Crump, o baterista da
formação clássica, morreu em 2015, depois de anos enfrentando problemas de
saúde.
E, em 2017, veio a perda de Dave
Hlubek, que morreu aos 66 anos após sofrer um ataque cardíaco. Com ele
desaparecia o fundador e último elo vivo com os primeiros dias do Molly
Hatchet.
Steve Holland, outro dos
fundadores, permaneceu por mais tempo como uma das últimas testemunhas daquela
formação original, mas morreu em 2020. Com sua morte, todos os integrantes
originais da banda já haviam partido.
Essa sucessão de perdas torna a história
do Molly Hatchet particularmente dolorosa. Quando se olha para uma
fotografia da formação clássica, é difícil não perceber que aquele grupo
pertence a uma época que não existe mais. Danny Joe Brown, Dave Hlubek, Steve
Holland, Duane Roland, Banner Thomas e Bruce Crump formaram uma das grandes
unidades do Southern Rock. O que fizeram entre 1978 e 1980 foi suficiente para
garantir que seus nomes permanecessem associados ao gênero para sempre.
Mas a história do Molly Hatchet
não terminou com eles.
Bobby Ingram assumiu
progressivamente a liderança da banda e tornou-se a figura central da
continuidade do nome. Ao lado de John Galvin e Tim Lindsey,
passou a representar a ligação entre as diferentes fases do grupo. Galvin havia
entrado na banda nos anos 1980 e Lindsey, embora associado a uma primeira
formação embrionária de Hlubek no início dos anos 1970, retornou ao grupo no
século XXI.
O Molly Hatchet continuou gravando
e excursionando. Justice, lançado em 2010, manteve a banda ativa,
enquanto trabalhos ao vivo e projetos como Battleground mostraram que a
força do grupo continuava sendo, acima de tudo, o palco. A discografia
posterior jamais alcançou o impacto comercial dos três primeiros grandes
álbuns, mas isso não diminuiu a importância da banda para o circuito de
Southern Rock.
Phil McCormack permaneceu como vocalista
do Molly Hatchet durante mais de duas décadas, tornando-se uma das vozes mais
importantes da segunda fase da banda. Depois de ter substituído Danny Joe Brown
em algumas ocasiões no início dos anos 1990, McCormack assumiu definitivamente
os vocais a partir de 1996 e participou de uma longa sequência de trabalhos e
turnês, ajudando a manter vivo o repertório clássico em uma época completamente
diferente daquela dos anos 1970. Sua voz tornou-se parte da identidade do Molly
Hatchet para uma nova geração de fãs.
Em 26 de abril de 2019, Phil McCormack
morreu aos 58 anos. Sua morte aconteceu depois de um período em que
problemas de saúde já haviam afetado sua participação nas atividades da banda.
A causa oficial não foi divulgada, embora relatos publicados na época tenham
apontado a possibilidade de um ataque cardíaco.
A perda de McCormack abriu mais um
capítulo doloroso na história do Molly Hatchet. A banda precisou
novamente encontrar uma voz para continuar na estrada e escolheu Jimmy
Elkins, vocalista da banda tributo Bounty Hunter, que já havia
dividido palcos com o Molly Hatchet em diversas ocasiões. Elkins foi
oficialmente anunciado como novo vocalista em outubro de 2019 e participou do
álbum ao vivo Battleground.
A permanência de Elkins, entretanto,
seria relativamente curta. Em 2023, Parker Lee assumiu os vocais,
iniciando outra fase da história da banda.
Há uma diferença importante entre o Molly
Hatchet de 1978 e o Molly Hatchet atual. Não é a mesma formação e não
devemos fingir que é. Nenhum dos integrantes originais permanece. A própria
banda, porém, continua apresentando seu repertório e trabalhando dentro da
linguagem construída por seus fundadores.
Em 2026, a formação oficial reúne Bobby
Ingram nas guitarras, John Galvin nos teclados e Hammond B3, Tim
Lindsey no baixo, Parker Lee nos vocais e Garrett Ramsden na
bateria. Parker assumiu os vocais em 2023, enquanto Ramsden entrou na bateria
em 2024. A banda continua excursionando, mantendo uma agenda internacional e
levando seu repertório para novas plateias.
É impossível falar de Molly Hatchet
sem falar de suas capas. A parceria com Frank Frazetta criou uma
identidade visual que ultrapassou o simples conceito de embalagem de disco. Death
Dealer, utilizado no primeiro álbum, tornou-se uma das imagens mais
reconhecidas da história do Rock. Depois vieram outras obras de Frazetta, como Dark
Kingdom e Berserker, formando uma associação entre o artista e a
banda que permanece até hoje.
Essa estética dizia muito sobre o som.
O Molly Hatchet queria ser grande, pesado, exagerado. Queria guitarras enormes, vocais rasgados, solos longos e músicas que funcionassem diante de milhares de pessoas. Não havia interesse em minimalismo. A banda abraçou a grandiosidade. E isso explica por que Flirtin' with Disaster permanece tão importante.
A música virou um clássico não apenas porque tinha um grande riff. Ela condensava uma filosofia. A ideia de viver perigosamente, correr riscos e continuar acelerando mesmo sabendo que a estrada poderia terminar mal estava presente em boa parte da personalidade da banda. O Molly Hatchet transformou essa atitude em música, mas reduzir a banda a Flirtin' with Disaster seria injusto.
Existe Gator Country, com sua ligação direta com Jacksonville e a cultura sulista. Existe Dreams I'll Never See, que mostra como o grupo podia pegar uma composição dos Allman Brothers e transformá-la em uma explosão de Southern Hard Rock. Existe Whiskey Man, que se tornou um clássico dos palcos. Existe Bounty Hunter, que apresentou a banda ao mundo. Existe Boogie No More, que revela o lado mais solto e bluesístico. E existe toda uma discografia construída ao longo de décadas, com diferentes formações, vocalistas e fases.O mais importante, entretanto, está na contribuição que o Molly Hatchet deu ao próprio gênero, a banda ajudou a abrir a porta para o Southern Rock mais pesado.
Sem Molly Hatchet, a ponte entre o
Southern Rock clássico e o Hard Rock seria diferente. A banda mostrou que era
possível manter as guitarras, o sotaque sulista, o Blues e o Country sem abrir
mão de peso e agressividade. Essa característica seria importante para a
geração seguinte de bandas que enxergaria o Southern Rock não como um estilo
fechado, mas como uma linguagem capaz de dialogar com o Hard Rock e até com o
Heavy Metal.
É por isso que o Molly Hatchet continua sendo tão importante para quem gosta de Southern Rock.
A banda nasceu em Jacksonville, cresceu
na estrada, colocou três guitarras no centro de sua identidade, encontrou em
Danny Joe Brown uma voz impossível de confundir, transformou capas de Frank
Frazetta em parte de sua própria mitologia, vendeu milhões de discos, lotou
arenas, atravessou mudanças de formação, sobreviveu ao desaparecimento de seus
integrantes originais e continua tocando.
Tudo isso sem perder a essência de uma
banda que sempre pareceu entender uma coisa muito simples: Southern Rock
também pode ser pesado, barulhento e
agressivo.
Pode ter três guitarras disputando
espaço, um vocalista berrando como se estivesse no meio de uma tempestade, um
Hammond B3 enchendo tudo por baixo e uma bateria empurrando a música para
frente.
Pode ter um guerreiro de Frank Frazetta
na capa.
Pode ter cheiro de estrada, gasolina,
whiskey, couro e amplificador valvulado.
Pode ter uma música chamada Flirtin'
with Disaster.
E pode continuar vivo quase cinquenta
anos depois.
Molly Hatchet não foi apenas uma banda
que participou da história do Southern Rock.
E essa é uma parte fundamental da história do Southern Rock que não pode ser esquecida.
Formação clássica
Danny Joe Brown - Vocais, gaita
Dave Hlubek - Guitarra
Steve Holland - Guitarra
Duane Roland - Guitarra
Banner Thomas - Baixo
Bruce Crump - Bateria
Discografia de estúdio
1978 Molly Hatchet
1979 Flirtin' with Disaster
1980 Beatin' the Odds
1981 Take No Prisoners
1983 No Guts... No Glory
1984 The Deed Is Done
1989 Lightning Strikes Twice
1996 Devil's Canyon
1998 Silent Reign of Heroes
2000 Kingdom of XII
2005 Warriors of the Rainbow Bridge
2010 Justice










