No verão de 1964, em Jacksonville,
Flórida, três adolescentes que até então estavam mais preocupados com beisebol
do que com a construção de uma das maiores bandas da história do Rock acabaram
se encontrando em torno da música. Ronnie Van Zant, Gary Rossington
e Bob Burns começaram a tocar juntos depois de se conhecerem através dos
jogos e, pouco depois, chamaram Allen Collins e Larry Junstrom
para completar o grupo. A primeira formação ainda estava muito distante do Lynyrd Skynyrd que o mundo conheceria. O nome da banda mudaria várias vezes,
passando por My Backyard, The Noble Five e The One Percent, enquanto aqueles
garotos de Jacksonville começavam a descobrir o que poderiam fazer juntos.
Ronnie Van Zant rapidamente assumiu a
liderança natural. Não era apenas o vocalista, era o sujeito que organizava os
ensaios, tomava decisões, escrevia letras, cobrava dos companheiros e enxergava
a banda como um projeto de vida quando todos ainda estavam tentando descobrir o
que queriam fazer. Gary Rossington e Allen Collins desenvolveram uma relação musical
que se tornaria uma das grandes marcas do grupo, enquanto Bob Burns estabelecia
a base rítmica e Larry Junstrom completava o primeiro núcleo. A amizade, a
competição e a convivência intensa daqueles primeiros anos seriam fundamentais
para que a banda desenvolvesse uma identidade própria.
A escolha do nome Lynyrd Skynyrd
veio em 1969, como uma provocação deliberada a Leonard Skinner,
professor de Educação Física da Robert E. Lee High School, conhecido por
implicar com os cabelos compridos dos alunos. A grafia propositalmente
deformada transformou o nome do professor em uma espécie de piada interna que
acabou se tornando permanente. A história também ganhou diferentes versões ao
longo dos anos, mas a ligação com Skinner faz parte da própria mitologia da
banda desde seus primeiros tempos.
O que realmente importava, entretanto,
estava acontecendo dentro das salas de ensaio. Ronnie, Gary, Allen, Bob e Larry
estavam aprendendo a tocar juntos e absorvendo uma quantidade impressionante de
influências. The Rolling Stones, The Yardbirds, Cream, Free
e Led Zeppelin estavam entre as referências britânicas, enquanto o
Blues, o Country, o Gospel e a música sulista americana forneciam o outro lado
da equação. O Lynyrd Skynyrd não nasceu simplesmente de uma tradição sulista já
pronta, a banda construiu seu som misturando o peso e a atitude do Rock
britânico com a musicalidade profundamente americana que fazia parte da vida
daqueles músicos.
Em determinado momento, os integrantes chegaram a abandonar a escola e passaram a dedicar praticamente todo o tempo à banda. O problema era encontrar um lugar onde pudessem ensaiar sem que a polícia aparecesse para reclamar do barulho. A solução foi uma pequena cabana em Green Cove Springs, ao sul de Jacksonville. O lugar tinha um telhado de metal que transformava o interior em um forno durante o verão da Flórida. Os amplificadores valvulados aumentavam ainda mais o calor. Ali, sob condições que hoje pareceriam absurdas, o Lynyrd Skynyrd passou horas e horas tocando. Aquele lugar ganhou o nome de Hell House.
Mais do que um simples local de ensaio,
Hell House foi uma espécie de laboratório onde a banda desenvolveu sua
identidade. Gary Rossington lembraria que os músicos chegavam pela manhã e
permaneciam ali durante praticamente todo o dia. O calor era brutal, mas a
rotina de tocar por horas criou uma resistência que seria importante quando a
banda começou a enfrentar os palcos do circuito sulista. Era ali que Ronnie Van
Zant trabalhava as letras, que Gary e Allen desenvolviam as guitarras e que o
grupo aprendia a funcionar como uma unidade.
A banda passou anos construindo sua
reputação sem contrato de gravação. Tocava onde aparecesse trabalho,
atravessava o Sul, fazia shows em bares e pequenos clubes e lentamente se
transformava em uma das bandas mais fortes do circuito de Jacksonville. As
mudanças de formação faziam parte do processo. Larry Junstrom saiu em 1970 e
seria posteriormente conhecido também por seu trabalho com .38 Special. Leon
Wilkeson assumiu o baixo, enquanto Billy Powell, inicialmente
contratado como roadie e tecladista de apoio, acabou demonstrando talento
suficiente para se tornar membro permanente.
O primeiro grande passo profissional
aconteceu quando a banda chegou a Muscle Shoals, Alabama. As gravações
realizadas no Muscle Shoals Sound Studio em 1971 registraram uma banda que
ainda estava procurando seu formato definitivo, mas já apresentava elementos
que mais tarde se tornariam fundamentais. O material não seria utilizado
imediatamente como álbum de estreia. Durante anos, essas gravações
permaneceriam arquivadas, até serem lançadas posteriormente como Skynyrd's
First and... Last e, em 1998, em uma edição mais completa chamada Skynyrd's
First: The Complete Muscle Shoals Album.
A grande virada aconteceu em Atlanta. Al
Kooper, músico, produtor e fundador da Sounds of the South, viu o Lynyrd
Skynyrd tocar e percebeu imediatamente que havia algo diferente naquela banda.
Kooper tornou-se produtor do grupo e teve papel decisivo na chegada ao contrato
com a MCA Records. Mais importante ainda, ajudou a apresentar a banda a um público
muito maior sem tentar eliminar aquilo que fazia o Skynyrd especial.
Em 1973, chegou o primeiro álbum: Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd. O título já era uma brincadeira com a pronúncia do nome, mas o conteúdo do disco era coisa muito séria. A formação reunia Ronnie Van Zant, Gary Rossington, Allen Collins, Ed King, Leon Wilkeson, Billy Powell e Bob Burns. Pela primeira vez, o público podia ouvir em estúdio a combinação que a banda vinha desenvolvendo durante anos. E a abertura do álbum já deixava claro que aquele não era apenas mais um grupo de Rock sulista.
I Ain't the One apresentava o lado mais direto e agressivo do grupo. Tuesday's Gone mostrava uma faceta mais contemplativa, enquanto Gimme Three Steps trazia uma história tipicamente Ronnie Van Zant, com humor, tensão e personagens que pareciam ter saído diretamente dos bares e estradas do Sul. Simple Man apresentava uma das letras mais emblemáticas de Ronnie, enquanto Things Goin' On revelava uma banda atenta também às questões sociais. Mas o encerramento do disco mudaria para sempre a história do Rock.
Free Bird começava como uma
balada sobre liberdade, despedida e impossibilidade de permanência, mas
terminava em uma das maiores sequências de guitarras da história do Rock. A
participação de Billy Powell no piano foi fundamental para a construção
da atmosfera inicial, enquanto Gary Rossington e Allen Collins desenvolveram a
estrutura que culminaria no longo trecho instrumental. A música cresceu durante
os shows até transformar-se em um dos grandes momentos do repertório ao vivo da
banda.
Al Kooper teve participação importante na gravação e na produção, inclusive tocando Mellotron em Free Bird. O álbum ultrapassou a marca de um milhão de cópias e chegou ao Top 20 da Billboard, enquanto a banda começava a conquistar um público que ultrapassava muito o circuito sulista. O Lynyrd Skynyrd ainda não era uma banda de arena, precisaria continuar trabalhando.
E trabalhou.
Em 1973, o grupo foi convidado para abrir
a turnê americana do The Who, experiência que colocou o Skynyrd diante
de públicos muito maiores. A banda começava a entender que sua música poderia
funcionar em grandes palcos sem perder a energia que havia construído nos
clubes.
A segunda grande transformação veio com Second
Helping, lançado em 1974. O álbum consolidou a formação de três guitarras
que se tornaria uma das assinaturas do Southern Rock. Gary Rossington, Allen
Collins e Ed King não tocavam simplesmente três guitarras ao mesmo
tempo. Cada um tinha uma função dentro da arquitetura das músicas, criando
harmonias, riffs, bases e solos que podiam se entrelaçar sem transformar o som
em uma massa indistinta.
E então veio Sweet Home Alabama.
Escrita por Ronnie Van Zant, Ed King e
Gary Rossington, a música nasceu como resposta a Southern Man e Alabama,
de Neil Young, que criticavam o racismo e a história de segregação do
Sul dos Estados Unidos. A resposta do Lynyrd Skynyrd era muito mais complexa do
que a leitura superficial que a música recebeu ao longo das décadas. A banda
defendia sua terra e sua identidade sulista, mas não estava fazendo uma defesa
do racismo. A própria letra contém a resposta a George Wallace, então
governador do Alabama, quando os músicos colocam a famosa rejeição à segregação
dentro da música.
Neil Young, por sua vez, não transformou
a situação em uma guerra pessoal. Pelo contrário, relação entre os artistas
era de respeito mútuo. Ronnie chegou a usar uma camiseta de Neil Young na capa
de Street Survivors, um detalhe que diz muito sobre o fato de que Sweet
Home Alabama nunca deveria ser interpretada simplesmente como uma
declaração de hostilidade contra Young.
Musicalmente, Sweet Home Alabama
era irresistível. O riff de Ed King tornou-se um dos mais reconhecíveis da
história do Rock, e o baixo de Leon Wilkeson, a bateria de Bob Burns e o piano
de Billy Powell ajudaram a criar uma gravação que permanece instantaneamente
identificável desde seus primeiros segundos. O álbum Second Helping
alcançou o Top 20 e transformou o Lynyrd Skynyrd em uma das principais bandas
americanas daquele momento.
O sucesso trouxe também pressão. Nuthin'
Fancy, lançado em 1975, foi gravado em um período de intensa atividade. A
banda estava constantemente na estrada e a relação entre os integrantes
começava a sofrer com o desgaste. Bob Burns deixou o grupo e foi substituído
por Artimus Pyle, baterista que entraria definitivamente para a história
do Skynyrd.
A mudança foi importante. Artimus possuía
uma abordagem diferente e ajudou a dar ao grupo uma pulsação ainda mais pesada.
Com ele na bateria, o Lynyrd Skynyrd entrou em uma nova fase, na qual a
experiência dos shows começou a ter peso cada vez maior sobre os discos.
Em 1976 veio Gimme Back My Bullets.
O álbum mostrou uma banda tentando se reorganizar depois da intensidade dos
anos anteriores. O disco não alcançou o mesmo impacto comercial de Second
Helping, mas continha músicas que revelavam Ronnie Van Zant cada vez mais
interessado em contar histórias sobre pessoas, relações, estrada e a própria
vida da banda.
Foi também em 1976 que aconteceu um
episódio que acabaria entrando para a história através de That Smell. Gary
Rossington, dirigindo alcoolizado, bateu seu Ford Torino contra uma árvore.
O acidente deixou o guitarrista machucado e provocou uma reação furiosa de
Ronnie. A música que nasceu daquele episódio transformou a tensão interna da
banda em uma das composições mais fortes de sua carreira. A letra falava
diretamente sobre o comportamento autodestrutivo que estava começando a cercar
o grupo.
Antes disso, entretanto, o Lynyrd Skynyrd
havia encontrado uma de suas grandes soluções para o palco.
Em 1976, o álbum duplo ao vivo One
More from the Road mostrou ao mundo aquilo que os fãs que acompanhavam a
banda pelos clubes já sabiam: Lynyrd Skynyrd era uma banda de palco
extraordinária. O disco capturou a força das guitarras, o piano de Billy
Powell, a voz de Ronnie e aquela interação que só existe quando músicos passam
anos tocando juntos.
Foi nesse período que Steve Gaines
entrou definitivamente para a história da banda.
Steve era irmão de Cassie Gaines,
uma das cantoras do trio de apoio conhecido como The Honkettes. Ele
havia tocado com diversas bandas e já possuía uma personalidade musical
própria. Quando Ronnie o ouviu tocar, percebeu que havia encontrado o
guitarrista que poderia completar a formação.
Steve Gaines não entrou simplesmente para
ocupar uma vaga. Ele trouxe uma nova energia.
Com Gary Rossington, Allen Collins e Steve
Gaines, o Lynyrd Skynyrd passou a ter novamente três guitarras, mas agora com
um músico que também contribuía como compositor e vocalista. A interação entre
os três guitarristas ganhou outra dimensão, enquanto Steve trouxe uma
personalidade que apareceria com força no álbum seguinte.
Street Survivors foi lançado em 17
de outubro de 1977.
O disco mostrava uma banda em plena forma
criativa. What's Your Name tinha a força de um grande single de Rock. That
Smell era uma advertência quase brutal. You Got That Right
apresentava Steve Gaines dividindo os vocais com Ronnie, algo inédito até então
na história do grupo. I Know a Little revelava o talento de Steve como
compositor e guitarrista, enquanto I Never Dreamed mostrava um lado mais
sensível de sua personalidade.
Ronnie Van Zant parecia estar escrevendo
com uma consciência diferente. Steve Gaines havia acrescentado uma nova energia
à banda, e o álbum tinha uma espontaneidade que lembrava o melhor momento
criativo do grupo. Street Survivors foi recebido com enorme sucesso e
chegou rapidamente ao status de disco de ouro. Mais tarde, seria certificado
duas vezes platina.
Três dias depois, tudo mudou.
Em 20 de outubro de 1977, o avião
Convair CV-240 que transportava o Lynyrd Skynyrd de Greenville, South Carolina,
para Baton Rouge, Louisiana, ficou sem combustível e caiu em uma área florestal
próxima a Gillsburg, Mississippi. Ronnie Van Zant, Steve Gaines, Cassie
Gaines, o road manager Dean Kilpatrick e os dois pilotos morreram.
Os demais integrantes da banda e membros da equipe ficaram gravemente feridos.
Ronnie tinha apenas 29 anos.
Steve Gaines tinha 28.
A tragédia encerrou abruptamente a
primeira fase do Lynyrd Skynyrd. A banda não poderia simplesmente substituir
Ronnie Van Zant. Ele não era apenas o vocalista, era o líder, principal
letrista, personalidade central e o homem que havia conduzido o grupo desde
Jacksonville. Gary Rossington, Allen Collins, Leon Wilkeson, Billy Powell e
Artimus Pyle sobreviveram fisicamente, mas a banda que existia antes daquele voo
não existia mais.
O acidente também mudou a própria
percepção de Street Survivors. A capa original mostrava os integrantes
cercados por chamas, imagem que, depois da queda do avião, passou a ser
considerada de mau gosto. A capa foi posteriormente substituída por uma
fotografia mais sóbria. O álbum, entretanto, permaneceu como um dos grandes
documentos da história do grupo e como o último registro de estúdio de Ronnie
Van Zant e Steve Gaines.
Depois da tragédia, os sobreviventes
tentaram seguir caminhos diferentes. Allen Collins e Gary Rossington
formaram a Rossington Collins Band, com Dale Krantz nos vocais. O
projeto produziu dois álbuns e mostrou que os músicos ainda tinham muito a
oferecer, mas também carregava o peso emocional de continuar sem Ronnie.
Allen Collins, entretanto, sofreria outra
tragédia. Em 1986, um acidente automobilístico deixou o guitarrista paralisado
da cintura para baixo e encerrou sua carreira como músico de palco. Ainda
assim, sua participação seria decisiva quando o nome Lynyrd Skynyrd voltasse à
estrada.
Dez anos depois do acidente aéreo, a
ideia de uma reunião começou a ganhar forma.
Em 1987, Johnny Van Zant, irmão
mais novo de Ronnie, assumiu os vocais. Gary Rossington, Billy Powell, Leon
Wilkeson e Artimus Pyle retornaram, enquanto Ed King também participou
da formação inicial da reunião. Randall Hall posteriormente assumiria a
segunda guitarra. Allen Collins, impossibilitado de tocar, tornou-se diretor
musical da turnê.
A proposta original era realizar uma
turnê de tributo. Ninguém sabia exatamente como seria subir ao palco sem
Ronnie. O próprio Gary Rossington admitiu posteriormente que retornar era
emocionalmente difícil. Mas a resposta do público foi tão forte que a reunião
deixou de ser apenas uma homenagem e transformou-se em uma nova fase permanente
do Lynyrd Skynyrd.
Johnny não tentou imitar o irmão. Esse
era um ponto fundamental. Ele assumiu as músicas respeitando a identidade de
Ronnie, mas construiu sua própria interpretação. A banda também passou a lidar
com uma questão que a acompanharia pelo restante da carreira: como manter vivo
o nome Lynyrd Skynyrd sem transformar a história em uma peça de museu.
O álbum Lynyrd Skynyrd 1991 marcou
o primeiro trabalho de estúdio com material novo desde Street Survivors.
A partir dali, a banda passou a construir uma segunda discografia. Vieram The
Last Rebel, Endangered Species, Twenty, Edge of Forever,
Vicious Cycle, God & Guns e Last of a Dyin' Breed,
entre outros trabalhos.
Essa segunda fase teve várias formações e
mudanças. Hughie Thomasson, fundador do The Outlaws, entrou para
a banda e acrescentou outra guitarra importante à formação. Rickey Medlocke,
que havia participado do início da história do grupo e posteriormente liderado
o Blackfoot, também passou a fazer parte da chamada “guitar army”. A
presença desses músicos mostrou que o Lynyrd Skynyrd continuava funcionando
como uma grande banda de guitarras, mesmo depois de tantas perdas.
Ao mesmo tempo, a formação histórica
continuava desaparecendo. Allen Collins morreu em 1990, aos 37 anos. Artimus
Pyle deixou a banda. Ed King saiu novamente. Hughie Thomasson faleceu em 2007.
Billy Powell morreu em 2009. Leon Wilkeson havia morrido em 2001. Gary
Rossington permanecia como o último membro fundador ativo da formação.
Em 2006, o reconhecimento institucional
finalmente chegou de maneira definitiva. Lynyrd Skynyrd foi incluído no Rock
& Roll Hall of Fame, com Ronnie Van Zant, Allen Collins, Gary
Rossington, Ed King, Steve Gaines, Billy Powell, Leon Wilkeson, Bob Burns e
Artimus Pyle reconhecidos como integrantes da formação histórica.
A importância da banda, porém, nunca
dependeu de uma placa em um museu.
A influência do Lynyrd Skynyrd atravessou
gerações. Guns N' Roses, Metallica, The Black Crowes, Black
Stone Cherry, Molly Hatchet, Blackfoot, Drive-By Truckers
e incontáveis outras bandas absorveram elementos da linguagem construída por
Ronnie, Gary, Allen, Ed, Steve, Billy, Leon, Bob e Artimus. A combinação de
três guitarras, Blues, Country, Hard Rock, Gospel, boogie e narrativa sulista
tornou-se uma espécie de vocabulário próprio.
O mais importante é que o Lynyrd Skynyrd
nunca foi apenas uma banda de guitarras.
Ronnie Van Zant entendia o valor de uma
boa história. Suas letras falavam de pessoas comuns, bares, estradas,
relacionamentos, amigos, problemas, orgulho, fracasso, liberdade e vida no Sul.
Ele escrevia sobre aquilo que conhecia. Não precisava inventar personagens
fantásticos. O Sul que conhecia já tinha histórias suficientes.
Tuesday's Gone, Simple Man,
Gimme Three Steps, The Ballad of Curtis Loew, Sweet Home
Alabama, Saturday Night Special, Call Me the Breeze, That
Smell e What's Your Name são exemplos de uma característica que
diferencia o grupo de muitas outras bandas de sua geração: o Lynyrd Skynyrd
transformava cotidiano em mitologia.
E havia ainda as guitarras.
Gary Rossington tinha uma maneira muito
particular de trabalhar o slide, criando frases que se tornaram parte da
identidade da banda. Allen Collins era um guitarrista extremamente melódico e
agressivo, capaz de construir solos que pareciam conversar entre si. Ed King
trouxe precisão, composição e riffs memoráveis. Steve Gaines acrescentou espontaneidade,
técnica e uma voz que poderia ter levado a banda para caminhos ainda mais
interessantes se sua vida não tivesse sido interrompida tão cedo.
A formação de três guitarras não era um
truque, era uma linguagem.
É impossível falar de Free Bird
sem falar dessa arquitetura. É impossível falar de Sweet Home Alabama
sem falar de Ed King. É impossível falar de That Smell sem lembrar da
guitarra de Rossington e da tensão que existia dentro da banda. E é impossível
ouvir I Know a Little sem pensar no que Steve Gaines poderia ter
desenvolvido nos anos seguintes.
Gary Rossington permaneceu durante
décadas como o elo vivo entre todas essas fases. Ele carregou o nome da banda
desde a formação original até o século XXI, atravessando o acidente aéreo, a
morte de Allen, as mudanças de formação, a reunião e todas as transformações
posteriores.
Quando Gary morreu em 5 de março de
2023, aos 71 anos, desapareceu o último membro fundador original que ainda
fazia parte da formação ativa. A própria banda, as famílias de Ronnie Van Zant
e Allen Collins e Dale Rossington discutiram o futuro do grupo e chegaram ao
entendimento de que a música deveria continuar sendo apresentada. A decisão
estava de acordo com aquilo que Gary havia defendido durante seus últimos anos:
a música do Lynyrd Skynyrd era maior do que qualquer integrante individual.
É uma questão delicada, e não precisamos
fingir que a banda atual é a mesma banda que tocava em Hell House ou que gravou
Pronounced. Não é.
A formação clássica pertence à história.
A formação posterior pertence a outra
etapa.
Mas as duas fazem parte da trajetória do
nome Lynyrd Skynyrd.
Essa longa
história, cheia de talento, amizade, conflitos, tragédias, sobrevivência e
mudanças, explica por que o nome continua tão forte.
O Lynyrd Skynyrd nasceu em Jacksonville,
cresceu tocando em bares, passou horas dentro de uma cabana quente chamada Hell
House, atravessou o Sul americano, gravou em Muscle Shoals, encontrou Al
Kooper, abriu shows para o The Who, lançou Pronounced, conquistou o
mundo com Sweet Home Alabama, transformou Free Bird em um dos
maiores épicos do Rock, perdeu três integrantes e membros da equipe em um
acidente aéreo, desapareceu por uma década, voltou com Johnny Van Zant,
sobreviveu a novas perdas e continuou levando aquelas músicas para outras
gerações.
Isso é muito mais do que uma trajetória
de sucesso.
É uma história de sobrevivência.
Ronnie Van Zant queria que sua banda
chegasse tão longe quanto The Beatles e The Rolling Stones.
Chegou. Sem que ele pudesse imaginar o tamanho que aquela ambição
alcançaria.
Porque o Lynyrd Skynyrd deixou de ser
apenas uma banda de Jacksonville.
Virou parte da própria identidade musical
do Sul dos Estados Unidos.
E para quem ama Southern Rock, existe uma
verdade que não precisa de exagero: sem Lynyrd Skynyrd, o Southern Rock
seria outro gênero.
A banda ajudou a definir seus riffs, sua
atitude, sua relação com o Blues e o Country, sua paixão pela estrada, sua
maneira de contar histórias e, principalmente, sua capacidade de transformar
orgulho regional em linguagem universal.
A locomotiva começou a andar nos anos
1960.
Ronnie Van Zant não chegou ao destino.
Gary Rossington, Allen Collins, Steve
Gaines, Billy Powell, Leon Wilkeson, Bob Burns, Artimus Pyle, Ed King e todos aqueles
que fizeram parte daquela primeira grande formação também seguiram caminhos
diferentes, alguns cedo demais.
Mas a música continuou.
E quando as primeiras notas de Sweet
Home Alabama ou Free Bird aparecem em algum lugar do mundo, décadas
depois daquela tarde em Jacksonville em que três garotos começaram a tocar
juntos, ainda existe alguma coisa daquela velha banda de Hell House.
O Southern Rock ainda está ouvindo.
Formação clássica
Discografia de estúdio










